sexta-feira, 25 de junho de 2010
O Pasteleiro: sangue-e-tripas nas telas brasileiras.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Caroline Munro - Bonita e perigosa!

A cultuada Caroline Munro nasceu em 1949 em Windsor, Inglaterra, sendo educada em um colégio de freiras. Após posar para revistas de moda e anuúncios publicitários, iniciou no cinema em pequenos papéis, tendo maior relevãncia a sua participação na primeira versão de Cassino Royale (Casino Royale, 1966). A estréia no cinema de horror foi curiosa. Ela encarnava a falecida esposa de Vincent Price, Victoria Phibes, no divertido O Abominável Dr. Phibes (The Abominable Dr. Phibes /1971). Porém, sua presença se resumia a uma foto em preto e branco. Em 1972, repete a dose em A Câmara dos Horrores do Abominável Dr. Phibes (Dr. Phibes Rises Again), mas é no controveso Drácula no Mundo da Minissaia (Dracula A.D. 1972), da Hammer Films, que realmente chama a atenção com seus longos cabelos castanhos, corpo longilíneo e rosto perfeito. No filme, que traz o conde vampiro de Christopher Lee para a Swinging London, Caroline interpreta Laura Bellows, uma das jovens do grupo hippie que ressuscita Drácula. Este, que não é bobo nem nada, faz de Laura a sua primeira vítima. Posteriormente, em 1974, desfila em trajes sumários na produção As Novas Viagens de Sinbad (The Golden Voyage of Sinbad) e em outra pérola da Hammer, Captain Kronos - Vampire Hunter (como a lânguida cigana Carla). Em 1977 é escalado como a perigosa Bond Girl Naomi (que tenta matar James Bond atirando de um helicóptero) em O Espião que me Amava (The Spy Who Loved Me), que poderia ser um ponto alto em sua carreira. Mas apesar disso, acabou no ano seguinte como protagonista do trash espacial Starcrash (também conhecido como The Adventures of Stella Star /1978), consolidando-se no âmbito dos filmes de baixo orçamento. Resultando no envolvimento com uma pequena obra prima do horror, o filme Maniac (1980), de William Lustig, e trabalhos com diretores como Jess Franco e Paul Naschy. Na geladeira desde meados da década de 1990, Caroline Munro retorna em 2003 no filme Carne para o Demônio (Flesh for the Beast).
Curiosidade: Nunca posou nua, recusando oferta da Playboy. Também não aceitou papéis em filmes que exigiam que aparecesse pelada.
Filmografia selecionada:
O Abominável Dr. Phibes (The Abominable Dr. Phibes, 1971), A Câmara dos Horrores do Abominável Dr. Phibes (Dr. Phibes Rises Again, 1972), Drácula no Mundo da Minissaia (Dracula A.D. 1972), As Novas Viagens de Sinbad (The Golden Voyage of Sinbad, 1974), Captain Kronos - Vampire Hunter (1974), The Devil Within Her (1975), O Espião que me Amava (The Spy Who Loved Me, 1977), Starcrash (1978), Maniac (1980), The Last Horror Film (1982), Faceless (de Jess Franco, 1987), El Aullido del Diablo (de Paul Naschy, 1987), Demons ¨: De profunids (de luigi Cozzi, 1989), Carne para o Demônio (Flesh for the Beast, 2003).
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Obcecado para Matar (Relentless) - 1989

Conta a história do serial killer Arthur “Buck” Taylor (Judd Nelson), jovem perturbado que, em parte por sua relação complicada com o pai falecido – um admirado policial -, desenvolve tendências assassinas. Ele força as próprias vítimas a desferirem o golpe fatal, deixando como assinatura a página da lista telefônica onde as escolhe com mensagens aos policiais. Os crimes do denominado sunset killer são investigados por uma dupla de policiais, o jovem e arrojado Sam Dietz (Leo Rossi, em ótima performance), recém chegado na delegacia, e o veterano Bill Malloy (Robert Loggia), que inicialmente não dá crédito às suposições do parceiro.
Ainda que não se configure como antológico, Obcecado para Matar não é uma perda de tempo, valendo a pena uma olhada. Principalmente pela caracterização do maníaco pelo ex-brat pack (aquele grupo de atores jovens que marcou o início da década de 80 com filmes direcionados ao público adolescente) Judd Nelson. Sua composição do personagem - bastante diferente do John Bender de O Clube dos Cinco / The Breakfast Club e do Alec Newbary de O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas /St. Elmo’s Fire (ambos de 1985) -, um psicopata apático e de olhar vago que se transfigura em ameaçador e brutal quando acua e ataca suas vítimas é, sem dúvida, o ponto alto da produção.
Concordo que na construção da trama policial e do suspense, o filme pode deixar a desejar para os acostumados aos thrillers pós-Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs / 1991) O modo narrativo envelheceu, aparentando ter sido construída de forma morna e burocrática, sem ritmo e com personagens pouco desenvolvidos. De modo semelhante, os crimes carecem de impacto, com pouca criatividade e violência atenuada se comparados aos retratados nas telas hoje em dia. Mas é importante lembrar que leva a assinatura de Lustig (de quem voltaremos a falar), que após seu debut no cinema pornô (The Violation of Claudia /1977, como Billy Bagg) foi responsável pela obra prima do horror Maniac (1981) e os subseqüentes Vigilante (1983) e Maniac Cop (1988).
A versão que serviu de base foi a lançada em VHS, pela Warner.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Vampiros, quadrinhos brasileiros e filmes

Com o recente relançamento em formato graphic novel da adaptação de Eugenio Colonnese para o Drácula de Bram Stoker, achei relevante colocar no blog um texto que escrevi para o B Zine em 1994. Atualizado e corrigido, tem a pretensão de instigar os pesquisadores a traçarem as relações entre as histórias em quadrinhos de horror brasileiras e suas relações com o cinema, que são muitas. Desde as capas, freqüentemente feitas a partir de cartazes de filmes e lobby cards (aquelas fotos promocionais que antigamente figuravam ao lado dos cartazes), passando pela recriação pelos habilidosos desenhistas de cenários e personagens, até a citação explícita de elementos narrativos de várias produções.
Desde que o Drácula de Bram Stoker foi publicado em 1897, a figura do vampiro ganhou projeção nos meios de comunicação e na indústria de entretenimento. No cinema são inúmeras as produções relacionadas ao tema, assim como na literatura encontramos uma grande diversidade, tanto do ponto de vista ficcional quanto teórico.
Nas histórias em quadrinhos Drácula foi representado das mais diversas formas por roteiristas e desenhistas mundo afora, algumas vezes em títulos periódicos, outras em edições especiais. Os anos 1960 e 70 foram bastante promissores para os vampiros nas HQs. Aficionados por quadrinhos de horror e que cresceram naquele período certamente irão lembrar-se da História de Drácula (Dube/Tom Sutton) publicada no número um da extinta revista Kripta (RGE - 1976), além das aventuras do conde em revista própria publicada pela Marvel (Marv Wolfman /Gene Colan) e aqui lançada na série Capitão Mistério da Bloch Editores como A Tumba de Drácula.
O mais interessante é que foi no Brasil, pelas mãos dos nossos artistas, que o Conde Drácula alçou seus mais altos vôos em singulares narrativas, devendo-se a isso muita ousadia e certa (perdoável na maioria dos casos) falta de critério.
O quadrinho de horror ainda tinha, naquela época, lugar no mercado nacional. Através dele muitos desenhistas e roteiristas tornaram-se conhecidos e puderam ter seu material publicado. Desde que Terror Negro, a primeira revista completa do gênero foi publicada em 1951 pela editora La Selva, os títulos e editoras se multiplicaram, atingindo seu auge nos anos sessenta e início dos setenta. Aderiram ao filão a GEP, Edrel, Continental, Taika, Roval, sendo a D-Arte, de Rodolpho Zalla, com as revistas Calafrio e Mestres do Terror, o último bastião.
Drácula sempre se destacou em toda essa produção e graças à paulista Editora Taika ganhou um lugar permanente na história do quadrinho de horror nacional. Sendo memorável, por exemplo, a adaptação (por sinal bastante fiel) do romance de Stoker por Francisco de Assis e arte de Eugenio Colonnese, relançada por esses dias pela editora Escala, em caprichada versão colorizada. Um belo trabalho no qual Colonnese recria em nanquim toda uma atmosfera gótica bastante inspirada nos filmes da Hammer. O próprio Drácula de Colonnese é muito semelhante à caracterização de Christopher Lee (apesar de ganhar as feições do astro Marlon Brando, de acordo com texto que acompanha a nova edição), se diferenciando da descrição do vampiro de Stoker.
Mas a melhor e mais original encarnação de Drácula nos quadrinhos brasileiros está nas páginas produzidas pelo prolífero desenhista Nico Rosso para a Editora Taika. Sem dúvida alguma foi esse saudoso artista quem melhor retratou o velho morcegão dando forma aos argumentos de Helena Fonseca e Maria Aparecida de Godói, responsáveis por conferirem ao vampiro uma personalidade única, forte e diferente das demais caracterizações. Seus roteiros, se geralmente estavam repletos dos habituais clichês do gênero e explicitavam evidente influência dos filmes de horror do período, eram marcados por uma vitalidade e originalidade que superavam essas inspirações. Provavelmente cinéfilas, se apropriavam de personagens e narrativas que viam nas telas e as reciclavam de acordo com as tramas que desenvolviam. Talvez o melhor exemplar dessa safra esteja presente na edição especial Drácula (Spell Produções Editoriais - junho/76), um excelente trabalho gráfico de nível nunca visto nos quadrinhos de horror nacionais, com três histórias desenhadas por Nico Rosso e Kazuhiko Yoshikawa – uma em cores -, e textos de Maria Aparecida de Godói (equivocadamente atribuídos ao também parceiro de Rosso, Rubens Lucchetti, no artigo “Quadrinhos de Sangue”, da reedição do Drácula de Colonnese pela Escala).
A primeira, que nos interessa, é dividida em três partes: Fecundação Satânica, O Herdeiro das Trevas e O Homem de Carlsbad. A origem de Drácula é recontada de maneira original, a partir de uma cerimônia satânica, quando a Condessa Asa Van Essen é sacrificada. Seu filho Draco tempos depois volta da batalha contra os mouros e sabe por intermédio de seu pai do destino trágico da mãe e de sua vingança contra os bruxos. Satã reanima o cadáver do líder do sumo-sacerdote, Javuto, que vai ao castelo e mata o Conde. Draco encontra o corpo do pai e, incentivado pela criada com quem tivera alguns momentos de amor, vai em busca do fruto da imortalidade, gerado pela seiva da “árvore maldita”. Satã aparece e diz que a seiva da árvore e os frutos são do sangue do ventre de sua mãe. Ele agora é o herdeiro das trevas, sendo a primeira vítima Vaena, a criada. A história termina com ele se apresentando como o Conde Drácula. Como sabemos, os personagens Asa e Javuto pertencem ao clássico de Mario Bava, A Máscara do Demônio (La Maschera Del Demonio /1960).
Outras produções serviram de fonte para autoras como, entre outras, O Circo dos Vampiros (Vampire Circus /1972), Atom Age Vampire (1960) e Museu de Cera (House of Wax /1953), reaproveitadas respectivamente para as HQs O Estranho Mágico, O Vampiro do Espaço e Museu de Cera.
As histórias de Fonseca e Godói traziam um Drácula sacana e divertido, ao mesmo tempo em que era a própria encarnação da maldade. Sua violência, vaidade e egocentrismo se desenvolviam nas mirabolantes aventuras, em planos maldosos para tornar-se cada vez mais poderoso e assim infligir maiores tormentos aos seres humanos. Não tinha nenhum sentimento de culpa ou amargura por sua condição de vampiro, coisa tão habitual nas atuais produções literárias e cinematográficas sobre o tema, em que sanguessugas relutantes choramingam pelos cantos. Sua presença causava medo nas vítimas e ele não tinha nenhum charme sedutor, muito pelo contrário. Seu aspecto era velho e mofado. Também raramente transformava alguém em vampiro. Egoísta, não desejava concorrentes. Queria ser único. Só o fazia caso fosse necessário para atingir algum objetivo, e mesmo assim de modo que esse novo vampiro não pudesse prejudicá-lo. Era comum, portanto, após beber o sangue de suas vítimas, enfiar ele mesmo uma estaca nos cadáveres. Os roteiros geralmente tinham um tom irônico, satírico até, mas mantinham seu clima de maldade presente. A continuidade bem estruturada era fiel às características principais de Drácula, mesmo que freqüentemente algumas liberdades fossem tomadas. Criava-se assim uma identificação com o leitor, mantendo o interesse. Essas características se mantinham, fossem nas histórias ambientadas em séculos anteriores como nas passadas em tempos atuais. Onde, inclusive, transitavam personagens recorrentes: o detetive Fred Carson (o nêmesis do conde), sua namorada Mary e o inspetor de polícia Barney. Mary é filha de um cientista que revive Drácula e é morto por ele. Fred, noivo da garota, jura perseguir o vampiro até conseguir eliminá-lo. Já o inspetor tem a marca do vampiro. Quando morrer deverá ter o coração atravessado por uma estaca para não se transformar, daí sua sede de vingança contra Drácula. Outro ponto importante, não muito presente nos quadrinhos feitos por aqui, foi a utilização de uma linha narrativa seriada, com histórias que continuavam nas edições seguintes.
O traço de Nico Rosso se adequou perfeitamente à personalidade criada pelas escritoras. Do mesmo modo conseguiu traduzir a ambientação gótica dos filmes da Hammer e AIP para os quadrinhos, na recriação de cemitérios, castelos, monstros e afins. Suas cenas de cerimônias satânicas e infernos, ousadíssimas para a época, com nudez, criaturas deformadas, monstruosidades e demônios remetem às composições de pintores como Bosch e Brueghel. Outro ponto alto do desenhista são as figuras femininas. Fossem inocentes vítimas ou ardilosas e malvadas, todas eram voluptuosas e sensuais. Se deixavam Drácula maluco, o que dizer então do efeito que causavam nos moleques de uma época quando toda a nudez era realmente castigada? Em tempos de censura era gratificante ver Rosso tirar a roupa de suas gatas, totalmente ou em partes, durante o decorrer da ação.
É triste constatar que, apesar do bom momento para os quadrinhos no país – nunca tantos títulos foram lançados em bancas e livrarias como nos últimos anos – pouco se fez em relação à fase áurea da HQ de horror. É verdade que tivemos um pouco da Mirza (também do Colonnese), uma edição comemorativa da Calafrio, outra do Lobisomem do Gedeone Malagola... Que a inesperada reedição do Drácula do Colonnese não seja apenas uma publicação destinada a capitalizar em cima do modismo dos vampiros da “Era Crepúsculo”, mas o prenúncio de uma revitalização de fase importante de nossa arte seqüencial.
Tsc, tsc... A quem estou enganando se nem eu acredito nisso!
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Antes de Tim Burton: relembrando o Dark Shadows original.

Conforme vem sendo noticiado, Tim Burton pretende levar às telas em 2011 sua versão da cultuada Dark Shadows, infelizmente pouco conhecida do espectador brasileiro. Vale então, uma breve introdução a esse momento muito especial do horror na televisão.
Novela diurna gótica transmitida pela rede norte-americana ABC entre junho de 1966 e abril de 1971, foi idealizada pelo prolífico Dan Curtis (1927-2006) ainda em 1965, segundo a lenda a partir de um estranho sonho em que via uma jovem em um trem, com destino a uma antiga propriedade. Deve-se ressaltar a relevância de Curtis para o gênero, notadamente na produção e direção de telefilmes – os dois longas com o personagem Kolchak, The Night Stalker (1972, dirigido por John Llewellyn Moxey) e The Night Strangler (1973) e o incensado The Norliss Tapes (1973), por exemplo – e longas para a tela grande, como o Drácula (Dracula, 1973), encarnado pelo ator Jack Palance, e o fantasmagórico Burnt Offerings (1976).
A idéia, aprovada pela emissora ABC, acabou nas mãos do roteirista Art Wallace – responsável também pelo sugestivo título -, que usou como base um script de sua autoria, sobre mulher que teve o marido desaparecido, reclusa em uma casa sombria. Na nova trama, para lá se dirige a heroína do sonho de Curtis, Victoria Winters (interpretada pela atriz Alexandra Moltke), contratada como governanta em uma tétrica mansão no Maine. Denominada Collinwood, na casa viviam a aristocrática Elizabeth Collins Stoddard, seu irmão pinguço Roger e suas respectivas crianças, Carolyn e David.
O show inicialmente não apresentaria elementos sobrenaturais, mas a baixa audiência fez com que um desesperado Curtis incluísse na trama, poucos meses após a estréia, o inusitado fantasma da antepassada Josette Collins, que surge saindo de um retrato. A ousadia (para os padrões da tv da época em termos de soap operas) foi bem sucedida, levantando a audiência, que com o decorrer do tempo chegou a ultrapassar os 15 milhões de telespectadores, e dando novo alento à produção. Resultando em seguida numa trama envolvendo magia negra, definindo os rumos que Dark Shadows tomaria, assumindo o horror e o fantástico como mola mestra, com novos e aterrorizantes subplots que se sucediam. Este redirecionamento se cristalizou em abril de1967 no episódio 210, com a inclusão do personagem que se tornaria o mais famoso da novela: o vampiro Barnabas Collins. Tanto que para muitos, Dark Shadows realmente se inicia nesse episódio, ficando a primeira parte no esquecimento. Não é de estranhar, portanto, que em exibições posteriores este primeiro segmento fosse ignorado, sendo o programa transmitido a partir da chegada de Barnabas. Somente uma vez, em 1992, o Sci Fi Channel passou o programa na íntegra, desde o primeiro episódio com a chegada de Victoria Winters a Collinwood.
O vampiro, que inaugurou nova era para Dark Shadows foi interpretado pelo ator de teatro canadense Jonathan Frid. Criado nos moldes do Drácula de Bram Stoker, ele é despertado de seu sono secular pelo mal intencionado Willie Loomis, que abre a sepultura do monstro para roubar supostas jóias ali enterradas. Fazendo-se passar por um primo recém chegado da Inglaterra, Barnabas integra-se na narrativa e no cotidiano de Collinwood. Vale ressaltar que a participação do personagem seria temporária, mais uma atração do programa. Porém, seu grande e inesperado sucesso fez não só com que Dan Curtis o mantivesse até o final, mas também incluisse na trama lobisomens, bruxas, zumbis e toda uma gama de indivíduos ou entidades monstruosas que já povoavam a cultura popular por intermédio da literatura e produções cinematográficas em explícitas apropriações. Até situações ainda raramente exploradas na televisão fora de seriados de ficção científica e fantasia como Quinta Dimensão (The Outer Limits) e Além da Imaginação (Twilight Zone), ganharam espaço na longa novela: viagem no tempo e universos paralelos. Segundo J. Gorodn Melton, em O Livro dos Vampiros (Makron Books, 1995) Dark Shadows “criou a mais elaborada e complexa alternativa à história de Drácula na moderna mitologia. Foi exibido para um público cada vez maior desde o momento em que Barnabas foi incluído no enredo”.
O universo de Dark Shadows se expandiu em diversos produtos: bonecos, álbuns de figurinhas, discos, histórias em quadrinhos, livros, etc. Após o encerramento em 1971, se manteve vivo nas reprises e edições em vídeo (*). Dois longametragens foram produzidos para o cinema com direção do próprio Curtis, Nas Sombras da Noite (House of Dark Shadows, que foi rodado em 1970, ainda durante a vigência da série) e A Maldição das Sombras (Night of Dark Shadows /1971), que serão tema de futuras postagens. John Kenneth Muir, em Terror Television (McFarland & Company, 2001) sugere ser a produção de horror de Curtis equivalente a outra série da tv norte-americana: a cult Star Trek, de Gene Roddenberry. Ambas, segundo o autor, foram concebidas em 1966, e inesperadamente sobrepujaram seu evidente baixo orçamento e curta duração, tornando-se por seus próprios méritos um fenômeno da cultura popular.
Em
(*) A novela foi lançada pela MPI, primeiramente em vídeo e atualmente está disponível em duas séries de DVD, uma delas dedicada aos episódios da fase anterior ao surgimento de Barnabas. Disponível na Amazon.
Saiba mais sobre Dark Shadows em:
http://www.darkshadowsonline.com/dso-dark.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Dark_Shadows
Compacto dos episódios 210 e 211, em que o vampiro Barnabas Collins chega a Collinwood:
http://www.youtube.com/watch?v=3Q7QhRr5NaU
http://www.youtube.com/watch?v=L2jFPPywN7A
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Santidades e diabruras: O Monge, versões 1972 e 1990.

Considerado um dos grandes clássicos (e um dos mais horripilantes) da literatura gótica, O Monge (The Monk / 1796), de Matthew Gregory Lewis, escandalizou a sociedade da época não só por adicionar aos já recorrentes elementos do gênero uma forte crítica social e religiosa, mas também por incluir cenas de sexo, violência e sadismo. Suas controversas descrições de corrupção e luxúria envolvendo padres e freiras, feitiçaria e os desmandos da brutal Inquisição fizeram com que o autor fosse obrigado, logo na segunda edição - a primeira rapidamente se esgotou – a retirar alguns trechos considerados por demais obscenos. Não é à toa que Lewis foi incensado por personalidades como Lord Byron e o Marquês de Sade.
O romance, que segundo H.P. Lovecraft em seu obrigatório O Horror Sobrenatural na Literatura (Francisco Alves, (1987) eleva o horror literário a um novo grau de virulência, conta a cativante história do monge Ambrosio dos Capuchinhos de Madri que, caindo em tentação, acaba perdendo a sua alma em uma trilha de crimes e profanações.
A narrativa, ainda de acordo com Lovecraft uma obra-prima de pesadelo vivo em que o cunho geral gótico é exacerbado por doses adicionais de diabolismo, foi adaptada para o cinema duas vezes. Nenhuma das quais, diga-se de passagem, com coragem suficiente para retratar fielmente os episódios macabros e ultrajantes da obra literária. A primeira versão, Le Moine, de 1972, traz o emblemático Franco Nero na pele do torturado padre Ambrosio. Com direção de Adonis (Ado) Kyrou a partir de roteiro escrito por Luis Buñuel (que originalmente desejava levar o romance às telas) e Jean-Claude Carrière, conta a literal descida aos infernos do sacerdote Ambrosio, pilar da Igreja que inflamava a audiência com suas pregações de caráter moralista. Inspirado orador, destila sua verve vigorosa contra os que se desviam do caminho ordenado pelo clero e defende a punição severa para os pecadores e hereges. As coisas se complicam para o sacerdote quando a jovem Matilde (a belíssima Natalie Delon) entra em sua vida travestida em um jovem noviço. Não resistindo às investidas da moça, o padre Lorenzo rende-se aos prazeres do sexo, tornando-se um amante contumaz. Inicialmente dividido entre a culpa e o desejo, acaba deixando aflorar seu lado lúbrico e perverso, que se direcionam para a filha adolescente de uma paroquiana. Disposto a empregar todos os meios para alcançar o seu objetivo, acaba em conluio com a amante - que na verdade revela-se uma emissária de Satã – recorrendo à magia negra, culminando seus atos em tentativa de estupro e assassinado. Descoberto, é encarcerado pela Inquisição, sendo julgado por seus crimes e torturado. Entretanto, após assinar um pacto com o Diabo, termina livre e alçado ao mais alto posto da Igreja: o trono de São Pedro. Le Moine conta com algumas cenas de nudez e de sexo bastante contidas.
A produção, ainda que conte com uma direção pouco inspirada (é interessante imaginar como Buñuel trabalharia esse rico material), consegue prender a atenção pela instigante narrativa, a atmosfera construída na justaposição do ambiente religioso com desejos reprimidos e a aura de sensualidade que exala da pérfida Matilde. Tudo reforçando no filme seu caráter anticlerical, que chega ao clímax como uma bofetada no espectador (principalmente os cristãos), quando Ambrosio se retira da câmara de torturas, santificado por seus algozes, e se dirige para a luz no final do corredor da masmorra. Revelando tomadas atuais - no caso dos anos 1970 - da Praça de São Pedro apinhada de gente. Na sacada do palácio, o padre Ambrosio com vestes papais abençoa o povo.
Também com o mesmo título do romance original, a segunda versão é uma co-produção anglo-espanhola datada de 1990, roteirizada e dirigida por Francisco (Paco) Lara. A história é a mesma, com o padre Lorenzo (Paul McGann) – inexplicável troca do nome do protagonista – como o firme defensor das leis da Igreja que acaba nas garras da lúbrica Matilde, que nessa adaptação conta ser apaixonada por ele desde que presenciou uma de suas pregações, travestindo-se em jovem noviço e juntando-se à ordem religiosa dos Capuchinhos para ficar ao seu lado. Ainda que envolvente e bem construído, O Monge de Paco Lara poderia ter explorado melhor o caráter medieval – mais bem trabalhado no filme de Kyrou - e a ambiência gótica, que fica prejudicada em detrimento à ênfase nos conflitos existenciais do padre, na hipocrisia católica e na crítica à Igreja enquanto estrutura de poder. O que faz com que seja menos fiel ao romance de Lewis e fique bastante diluído o elemento sobrenatural da narrativa. É o caso da revelação de Matilde como entidade demoniíaca, lado pouco explorado do personagem e que poderia dar mais tempero à narrativa. Destaque para a seqüência onde a mulher (interpretada pela deliciosa Sophie Ward) protagoniza uma cerimônia na qual lança um feitiço em meio a um círculo flamejante na cripta do convento. As cenas de sexo são discretas e de modo algum apelativas, com a nudez parcial da atriz principal, sendo também contidos os trechos mais violentos. Contudo, o grande problema do filme é o final, quando o padre Lorenzo é levado á fogueira, condenado pela Inquisição. Num arroubo de conservadorismo do diretor-roteirista, o padre renega Satã e é consumido arrependido pelas chamas. Radicalmente diferente da versão de 1972 e de acordo com a caretice reinante na passagem dos anos 1980 para a década de 1990.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Original Sins (1994)

É de meados da década passada a obscuridade que desenterrei essa semana. Original Sins (1994), escrito, produzido e dirigido pela dupla Howard Berger e Matthew Howe, provavelmente jamais encontraria distribuição em videocassete se não tivesse caído nas graças de Frank Henenlotter, diretor dos extravagantes Basket Case (1982) e Brain Damage (1988). Incluído na série Sexy Shockers from the Vídeo Underground, da Something Weird, empresa especializada em lançar em VHS filmes exploitation sediada em Seattle e capitaneada pelo ex-projecionista Mike Vraney, foi lançado modestamente em 1996 e não faço idéia se continua em catálogo. Para quem não sabe ou não se recorda, Vraney foi o responsável pela edição dos títulos de José Mojica Marins em vídeo nos Estados Unidos na década de 1990.
De baixíssimo orçamento e caráter amador, Original Sins é uma comédia de humor negro que reúne elementos de horror, ficção científica e exploitation, com momentos de puro nonsense que fazem com que, apesar de seu caráter tosco, seja diversão garantida para os interessados nesse tipo de produção.
Conta a história de três fanáticas religiosas, as jovens Diedra (Cheryl Clifford), Kierstan (Angelique de Rochambeau) e Mary Catherine (Faustina), que vivem reprimindo seus instintos e desejos. Ao seu universo, somam-se outros personagens singulares: o tio padre de Mary Catherine; a irmã porra-louca de Kierstan, envolvida com uma banda de rock fuleira que pretende fazer um pacto com o diabo para estourar nas paradas; e o aparvalhado Clark, que nutre uma paixão secreta pela irmã comatosa de sua namorada, Diedra. Um dia, as jovens recolhem o lixo largado em um parque nas imediações quando avistam ao longe um estranho sujeito de cabelos e barbas longas, semelhante a Jesus Cristo. Elas entram em transe e apagam por algumas horas. Em seguida, descobrem ter perdido a virgindade e passam a ter ataques convulsivos onde sentem ampliados os desejos sexuais. Que justificam como a presença de Deus, que as teria escolhido.
A partir daí Original Sins adota um tom blasfemo, onde as práticas e rituais da Igreja - penitências, crucificações, eucaristia, estigmas – são revestidos de um caráter assumidamente apelativo, onde o sexo, a nudez e a violência passam ao primeiro plano, temperados com doses ácidas de crítica e sarcasmo. Como exemplo, a seqüência em que as garotas seqüestram um entregador e fazem sexo com ele, uma após a outra, e depois o crucificam, bebendo o seu sangue e comendo a sua carne. Ou a missa negra realizada pela banda de rock com o cadáver de Mary Catherine, que repentinamente dá à luz um capeta de óculos e barbudo (lembrando o finado político Enéias), de cor vermelha e grandes chifres pontudos.
O filme, que tem até um trecho filmado em stop motion, acaba em tragédia e de modo inusitado, quando descobrimos que o Messias que deflagra toda a confusão, o cara parecido com Cristo é um Et (com nave espacial e tudo). Só vendo pra crer! Original Sins é cinema de guerrilha no melhor estilo defendido aqui por Petter Baiestorf. Uma prova de que, para se fazer um filme criativo tratando de temas ainda tabus no cinemão – principalmente pela abordagem descarada e despudorada -, não precisa de muita grana. E que a terra que pariu Hollywood também tem as suas bordas cinematográficas, para as quais filmes independentes no estilo Sundance se tornam mainstream.
