sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Pasteleiro: sangue-e-tripas nas telas brasileiras.


Um dos mais expressivos exemplares da explosiva combinação entre sexploitation e horror produzidos no Brasil é O Pasteleiro, produção de cerca de 40 minutos incluída no longa Aqui, Tarados (1980). Realizado pela Dacar, companhia do ex-galã e ex- rei da pornochanchada David Cardoso, foi dirigido pelo mesmo a partir de argumento e roteiro do grande Ody Fraga, tendo como protagonista o diretor sino-brasileiro John Doo.
Injustamente esquecido, certamente por suas cenas violentas e temática amoral e controversa (é um dos únicos exemplares dessa série de filmes da Dacar que aninda não ganhou exibição no Canal Brasil, por que será?), O Pasteleiro trata de um assassino em série, tema não muito comum na cinematografia brazuca, ainda que tenhamos os nossos Chico Picadinho, Maníaco do Parque, e outros de trágica lembrança. Mas não é só isso. O filme de Cardoso é ainda a maior aproximação do cinema nacional do sangue-e-tripas, subgênero do horror notório pela explicitação de mutilações, entranhas e desmembramentos. O que faz com maestria, coroando uma narrativa de desenvolvimento exemplar, apoiada por personagens muito bem construídos dramaticamente. O que se estabelece pelos diálogos entre o pasteleiro e a prostituta Florinda, que vão dando o direcionamento da trama, enriquecidos pelas inspiradas interpretações de John Doo e da belíssima Alvamar Taddei.
A história gira em torno de um pasteleiro que abastece com seus pastéis os botecos da noite paulistana. Seus produtos de excelente paladar levam um inusitado recheio, que tem como matéria prima as mulheres que ele leva para casa e mata, após seviciá-las sexualmente.
As cenas de sexo beiram o explícito, já aproveitando o abrandamento da censura e a inevitável liberação do hardcore. Mas com uma levada pesada, trazendo para as telas temas tabus como sadismo e necrofilia.
Violento, não se furta a mostrar membros arrancados e eviscerações, lembrando em alguns momentos a obra prima de Herschell Gordon Lewis, o famigerado Banquete de Sádicos (Blood Feast /1963). Só que O Pasteleiro é muito melhor.
Leia mais sobre este filme que me deixou besta quando o descobri durante as pesquisas para a minha dissertação de mestrado no capítulo O Pasteleiro: um exercício de sexo e horror no cinema brasileiro, que escrevi para o livro Cinema de Bordas (Ed. à Lápis, 2006), nas melhores livrarias (ou clicando na capinha ao lado, para ser direcionado para o site da Livraria Cultura).

2 comentários:

gorebahia.com disse...

Saudações!
Se é melhor que Blood feast, já vale assistir. Esse David Cardoso é parente do Ivan Cardoso de O Segredo da Múmia?

Carlos Primati disse...

Esse episódio é o maior "tesouro perdido" do cinema de horror brasileiro, uma autêntica obra-prima. Eu só não compararia a BLOOD FEAST, que é quase amador, risível, não tem clima e nem a riqueza narrativa de O PASTELEIRO (a decupagem é uma verdadeira aula de como se fazer cinema simples, barato e inteligente). Tenho convicção que se esse filme circulasse mais entre os aficionados por horror, seria tão ou mais cultuado do que AFTERMATH ou ADORATION, com os quais guarda algumas afinidades. De resto, parabéns pelo blog, meu caro Lucio Reis.