sábado, 1 de fevereiro de 2020

Novo episódio de Mondo Darko no ar: Famigerado! O Bandido da Luz Vermelha.
Com Gonçalo Junior.

O catarinense João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha, é o criminoso mais famoso da crônica policial brasileira. Tanto que seus feitos serviram de inspiração para uma obra-prima cinematográfica batizada com a alcunha do meliante e dirigida por Rogério Sganzerla, conterrâneo de João Acácio. O jornalista Gonçalo Junior teve acesso a mais de 20 mil páginas de mais de 80 processos criminais movidos contra João Acácio em São Paulo, entre 1967 e 1975, e escreveu o livro "Famigerado! - A História de Luz Vermelha, o Bandido que Aterrorizou São Paulo nos Anos de 1960".


segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Fora de Sintonia apresenta: Alfredo Sternheim

O canal Fora de Sintonia, no início de 2018, apresentou um episódio especial dividido em duas partes, sobre a trajetória do cineasta Alfredo Sternheim, falecido em dezembro do ano passado. 
Na primeira parte, Alfredo relembra o início de sua carreira cinematográfica, quandocomeçou a trabalhar no início dos anos 60 como assistente do diretor Walter Hugo Khouri nos filmes "A Ilha" (1963) e "Noite Vazia" (1964). Depois dessa experiência, Alfredo realizou 25 filmes e se tornou um dos diretores mais importantes das produções que eram realizadas na chamada Boca do Lixo, na região central de São Paulo. O cineasta fala nesta primeira parte sobre seus primeiros seis trabalhos: "Paixão na Praia" (1972), estrelado pelos atores Ewerton de Castro e Norma Bengell, "Anjo Loiro" (1973), com Vera Fisher e Mario Benvenutti, "Pureza Proibida" (1974), com Rossana Ghessa e Zózimo Bulbul, "Lucíola, o Anjo Pecador" (1975), com Rossana Ghessa e Carlo Mossy, "Mulher Desejada" (1978), com Kate Hansen e Eduardo Tornaghi, e "Herança dos Devassos" (1979), com Sandra Bréa e Roberto Maya.
Na segunda parte da entrevista, o cineasta comenta sobre os sete filmes que dirigiu nos anos 80, antes de o cinema da Boca ser dominado pelo sexo explícito: "Corpo Devasso" (1980), com David Cardoso e Neide Ribeiro, "Violência na Carne" (1980), com Helena Ramos e Neide Ribeiro, o episódio "Gatas no Cio" do filme "Sacanagem" (1981), com Neide Ribeiro e Elisabeth Hartmann, "Amor de Perversão" (1982), com Paulo Guarnieri e Alvamar Taddei, "As Prostitutas do Dr. Alberto" (1981), com Meiry Vieira e Serafim Gonzalez, "Brisas do Amor" (1982), com Sandra Graffi e Sônia Mamede, e "Tensão e Desejo" (1983), com Sandra Graffi, Zilda Mayo e Zélia Diniz. Alfredo ainda dirigiu 13 filmes de sexo explícito nos anos 80, pois era a única forma de continuar fazendo cinema, já que os exibidores só queriam obras do gênero para passar nas telas. O cineasta preferiu não usar pseudônimo e acabou enfrentando problemas por causa disso. Dessa fase, destacam-se os filmes "O Sexo dos Anormais" (1984), com Cláudia Wonder e Sandra Midori, "Borboletas e Garanhões" (1985), com Débora Muniz e Sandra Midori, e "Corpos Quentes" (1987), com Ludmila Batalov e Elias Breda. Alfredo também fala sobre sua atuação como consultor da série "Magnífica 70", lançada na TV a cabo pela HBO Brasil em 2015. O cineasta comenta ainda sobre seu retorno à direção em 2014, quando foi responsável por um dos episódios do filme "Memórias da Boca", lançado em 2015, e que contou com a participação de duas de suas estrelas preferidas: Elisabeth Hartmann e Neide Ribeiro.

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Parte 1:





Parte 2:



sexta-feira, 22 de novembro de 2019



Joelma 23° Andar, um filme catástrofe espírita

O incêndio no Edifício Joelma foi uma das maiores catástrofes registradas no Brasil. A tragédia, ocorrida em São Paulo no dia 1º de fevereiro de 1974, deixou 187 mortos e mais de 300 feridos. O incêndio foi tema do filme "Joelma 23º Andar" (1980), que tem uma abordagem espírita por ser baseado no livro "Somos Seis", obra psicografada pelo médium Chico Xavier. O diretor Clery Cunha e a pesquisadora Laura Canepa falam sobre os bastidores do "disaster movie" brasileiro.
Assista ao vídeo no canal Mondo Darko e se inscreva.



quarta-feira, 20 de novembro de 2019


Filmes Malditos


Realmente existem filmes amaldiçoados? Ou seriam apenas lendas urbanas envolvendo certas produções cinematográficas? O pesquisador de cinema de horror Carlos Primati fala sobre obras do cinema norte-americano, italiano e brasileiro que foram marcadas por tragédias no set de filmagem ou fora dele.

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terça-feira, 19 de novembro de 2019


De volta com novidades (espero conseguir manter uma regularidade maior daqui pra frente).

Desde a última postagem muita coisa aconteceu. Desde um pós-doutorado, até uma investida em novas atividades. Entre elas, a produção de vídeos para o Youtube. Atividade que se tornou com o tempo bastante prazerosa, não só pelos temas abordados como pelos entrevistados. 
O Canal Fora de Sintonia foi o primeiro, iniciado em 2016, com 30 programas na rede. 31, se contarmos um que foi censurado (isso é outra história).
O Fora de Sintonia tem como proposta entrevistas de cunho cultural, mostrando de forma diversificada o inusitado, tanto nas atividades dos entrevistados como em vídeos temáticos, postados em edições especiais.
Bastante abrangente - de vampiros a produções da Boca do Lixo -, este canal serviu de base para experimentações e aprimoramento técnico em uma área incialmente nova.
Atualmente, o Canal Fora de Sintonia abriu espaço para um irmão mais novo: o Mondo Darko. Com equipe mais enxuta, tem um recorte mais específico: o horror. Investindo, como diria Jack Palance na abertura do extinto "Acredite se Quiser", no estranho, bizarro e inesperado.

Nas próximas postagens uma seleção das entrevistas mais emblemáticas dos canais, iniciando com o primeiro episódio do Mondo Darko.

E para quem não quer esperar, seguem os links para os canais no Youtube.
Se inscrevam em ambos, para serem notificados de novas postagens.

Fora de Sintonia



Mondo Darko





quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A bruxa estava solta em 1996: "Jovens Bruxas" e "A Maldição das Bruxas".




Quase vinte anos depois revi Jovens Bruxas (The Craft, 1996) e continuo gostando do filme. Sendo assim pensei em escrever algumas linhas sobre ele, relembrando alguns aspectos interessantes e que foram melhor observados com o distanciamento.
Dirigido por Andrew Fleming, que não tem grandes coisas em seu currículo, o filme se enquadra primeiramente na leva de filmes adolescentes da década de 1990. E como tal, reproduz um dos paradigmas mais recorrentes de todos os sub-gêneros que compõem essa categoria: do jovem que não se enquadra nos padrões de seu grupo, sofre rejeição, e busca meios de ser aceito e/ou revidar as tribulações sofridas. 
Jovens Bruxas se atrela, desse modo, a um dos mais populares desses sub-gêneros: o terror “adolescente” ou “jovem” (prefiro essa denominação). Linha de filmes que remete aos “delinquentes” anos 1950 de I was a teenage werewolf (1957) e A bolha assassina (The Blob, 1958), passa pelos 1960 e se estabelece nos decênios seguintes (1970-1980) com uma leva de filmes em que jovens envolvidos em seus conflitos pessoais ou coletivos eram as vítimas preferenciais. Foi assim com Sexta-Feira 13 (Friday, the 13h, 1980), A Hora dos Pesadelo (Nightmare on Elm Street, 1984), A Hora do Espanto (Fright Night, 1985), e muitos, muitos outros.
O terror jovem ganha novo fôlego nos anos 1990, especialmente em filmes como Buffy, a caça-vampiros (Buffy, the vampire slayer, 1992), Pânico (Scream, 1996), Eu sei o que vocês fizeram no verão passado (I know what you did last summer, 1997), Prova Final (The Faculty, 1998), Comportamento Suspeito (Disturbing Behavior, 1998), e A Mão Assassina (Idle Hands, 1999). No quadro geral, esta década foi bastante interessante para o cinema de horror, com uma renovação nas tendências anteriores do gênero e novas investidas, inclusive com novos personagens emblemáticos (Candyman, o Djinn de O Mestre dos Desejos, o Ghostface de Pânico) se juntando aos estabelecidos nas décadas anteriores. 



O filme Jovens Bruxas, além de estar inserido neste contexto, apresenta outro aspecto interessante: está alinhado ao que convencionou-se chamar de Nova Era (New Age), movimento espiritual alternativo que ganhou força e foi assim denominado a partir dos anos 1980. Na verdade uma continuação das idéias esotéricas que remontam da contracultura dos anos 1960, alavancadas desde meados dos anos 1950 pelo renascimento da feitiçaria promovido por Gerald Gardner e sua propagação nos Estados Unidos na década de 1960 pelo casal Raymond e Rosemary Buckland. Também encontramos no filme ecos de um segmento feminista da tradição que passou a vigorar a partir do início dos 1970, chamado “diânico”. Vale ressaltar que o termo Wicca, ao que parece, foi cunhado ainda nos anos 1950 para denominar as práticas pagãs, passando a ser usado regularmente, não sem controvérsias entre os adeptos, na década seguinte. 
A história acompanha a trajetória de Sarah Bailey (Robin Tunney), jovem problemática que carrega o fardo de ter perdido a mãe ao nascer, tendo inclusive tentado suicídio. Sarah se muda para Los Angeles com o pai e a madrasta, passando a estudar em uma escola católica, onde conhece três meninas desajustadas e marginalizadas praticantes de bruxaria, Bonnie (Neve Campbell), Rochelle (Rachel True) e Nancy (Fairuza Balk). Cada uma buscando nas artes mágicas uma forma de ter poder, mas também lidar com as suas mazelas e problemas de ajuste social e familiar: as horríveis marcas de queimaduras de Bonnie, as humilhações racistas a que se submete Rochelle e o padrasto abusivo e mãe alcoólatra de Nancy. O trio, que venera um “deus todo-poderoso” chamado Manon, percebe que Sarah tem um dom natural para a magia, e que seria uma aquisição de peso para o grupo, que carecia de uma quarta pessoa para oficializarem seus rituais. Após uma cerimônia realizada na praia, o poder desencadeado de Manon concretiza os desejos das jovens, mas também causa o desequilíbrio entre elas, colocando Bonnie, Rochelle e Nancy, que abusam do poder que lhes foi conferido sem ligar para as consequências, contra a arrependida Sarah. O que vai culminar no embate de bruxas que vai coroar o filme.



O filme apresenta como ponto principal o conflito das garotas que, por serem consideradas “diferentes” não são aceitas em seu meio (o colégio), a busca e conquista de poder através da bruxaria e as consequências desse despertar mágico, rito de passagem pelo qual nenhuma passou ilesa. Se inicialmente brincam com as possibilidades dos poderes adquiridos, esses vão as corrompendo progressivamente, na medida em que começam a usá-los para o mal, colocando umas contra as outras. Especialmente Sarah, arrependida e temerosa, que confronta Nancy, a líder do grupo e a que passa a usar a magia em seu benefício, mesmo que signifique ferir e matar pessoas.
As cenas de cerimônias são bastante convincentes (notadamente a da praia), ainda que, conforme Pat Devin, sacerdotisa contratada como consultora, não seguem nenhum rito estabelecido. Essas sequências foram criadas de forma genérica para não melindrar os reais praticantes e também impedir jovens impetuosos, influenciados pelo filme, de repeti-las. Motivos que também levaram à invenção do nome da deidade “Manon”. De acordo com Devin, seria para evitar que alguém invocasse uma entidade real. Curiosamente, existe um demônio chamado “Mammon” ou “Mamon”, que segundo rápida e nada aprofundada pesquisa, foi assim denominado na escolástica medieval e nos escritos de Agrippa de Nettesheim como personificação de palavra originária do aramaico como personificação da riqueza e de lucros injustos. Seria o demônio da avarice, riquezas e iniquidades.



Jovens Bruxas ajudou a popularizar a Wicca entre os jovens a partir de meados da década de 1990 (movimento teen wicca), transformando a prática mágica em fenômeno pop, atrelado ao mercado consumidor e por sua vez influenciando tendências de comportamento e a mídia. Séries de televisão como Sabrina, a aprendiz de feiticeira (Sabrina, the teenage witch, 1996 - 2003), Buffy, a caça-vampiros (Buffy, the vampire slayer, 1997 - 2003) e principalmente Charmed (1998 - 2006), abordaram de formas diferentes esse universo, assim como diversas publicações foram editadas tendo como alvo o público jovem. É o caso dos livros de Silver Ravenwolf, autora de Teen witch: Wicca for a new generation (1998) e do Kit de magia para jovens: tudo o que você precisa para fazer magia (Editora Pensamento).
Mas se em Jovens Bruxas havia uma preocupação com uma abordagem mais próxima do universo da bruxaria e o horror servir de pano de fundo para os dilemas da adolescência, o mesmo não se pode dizer de A Maldição das Bruxas (Little Witches), dirigido por uma insignificante Jane Simpson e realizado com baixo orçamento no mesmo ano (em apenas duas semanas). Ao que tudo indica buscando capitalizar em cima do sucesso do filme de Andrew Fleming, sendo lançado um mês depois.



A trama apresenta elementos comuns ao de Jovens Bruxas: um grupo de estudantes desajustadas de uma escola católica ficam internadas durante o recesso da Páscoa, entre elas Faith (Mimi Reichmeister) - órfã de pai, deixada sozinha no feriado pela mãe omissa - e Jamie (Sheeri Rappaport) , vítima de pai abusivo e de comportamento revoltado e promíscuo. Elas e outras meninas descobrem um antigo livro de feitiços nas ruínas de um templo satânico encontrado em escavações no subterrâneo da escola, e acabam conjurando um demônio. Jamie e Faith acabam em lados opostos, com a primeira assumindo o comando do grupo com a intenção de trazer o demônio de volta para conquistar poder, e Faith tentando impedir que isso aconteça.



Em um primeiro momento a trama parece promissora e até interessante pela inserção de elementos mais comuns aos filmes de horror: o local maldito -   o templo subterrâneo -; a maldição ancestral - a cerimônia de magia negra sendo interrompida por frades encapuzados, com jovens desnudas sendo impedidas de consumar um sacrifício humano e invocar as forças do mal - ; o objeto de poder -  velho grimório, livro de feitiços escrito em latim;  o monstro - o demônio encerrado nas profundezas aguardando despertar -; etc. Porém, o enredo se perde no roteiro mal amarrado, na falta de pontos de virada e um clímax satisfatório e na conclusão fraca e precipitada. Os personagens também são mal desenvolvidos: a heroína Faith não convence em sua conversão para o bem, muito menos sendo uma aplicada conhecedora de latim, do mesmo modo como a vilã Jamie, de uma hora para a outra se torna prolixa nesse idioma e capaz de praticar feitiços avançados.  Diferente das personagens Sarah e Nancy, de Jovens Bruxas, que se modificam gradualmente e de forma coerente com o andamento e as prospecções do filme. Também a figura da Madre Guardiã, interpretada pela simpática baixinha Zelda Rubinstein (a médium de Poltergeist, o Fenômeno, 1982), não diz muito porque que foi inserida. Por outro lado, Maldição as Bruxas foge do pudor das produções de terror mainstream dos anos 1990,  com maior apelo sexual nos diálogos e nas cenas de nudez das atrizes, especialmente da linda Sheeri Rappaport em dois momentos: quando se excita ao relatar suas aventuras amorosas para o padre no confessionário da escola, e no striptease improvisado na janela do alojamento. O que não enaltece o filme, pois as belas formas da atriz servem para uma visão conservadora da sexualidade, reforçando o caráter conservador do filme ao apresentar esses elementos vinculados ao mal a ser derrotado pela heroína virtuosa e virgem.




Se Jovens Bruxas tenta apresentar uma visão menos preconceituosa da religião neo-pagã, sendo mesmo assim criticado por parte dos praticantes, Maldição das Bruxas reforça os estereótipos que cercam as práticas mágicas como maléficas e enaltece a moral conservadora cristã. 


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Black Power Jones (2013)



Na década de sessenta do século passado, após importantes mudanças na legislação referentes ao racismo e a mobilização dos negros norte-americanos na segunda metade dos anos 1950, as manifestações pelos direitos civis ganharam força. Resultando na aprovação da lei que proibia qualquer forma de discriminação baseada em cor ou raça. Mas apesar disso, as coisas esquentaram, com a radicalização do movimento e violentos confrontos, culminado em crimes de morte - como os assassinatos do líder radical Malcolm X e do pacifista Martin Luther King - e a criação do grupo Panteras Negras. Nesse cenário, embalado pela música soul e pelo que ficou conhecido como movimento Black Power (de ampla abrangência artística, cultural e ideológica), surge uma nova tendência cinematográfica denominada blaxploitation. Fusão óbvia das palavras black e exploitation (como eram chamados os filmes produzidos à margem do código de ética cinematográfico em vigor desde a década de 1930, que exploravam temas não permitidos nas produções dos grandes extúdios), o filão tem como início – ou pelo menos existe um consenso sobre isso – o independente  Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971), de Melvin Van Peebles. Produção que, segundo Todd Boyd “mesclou o modernismo europeu e o avant garde com as demandas urgentes do movimento negro que ecoavam sentimentos semelhantes aqueles articulados nas ruas dos Estados Unidos dos anos 1970”[1]. Por outro lado, no mesmo ano, a major MGM lançou Shaft, dirigido por Gordon Parks, com Richard Roundtree no papel título, deflagrando uma série de produções que, a partir dos paradigmas estabelecidos pelo filme de Peebles, se imiscuíram nos mais diversos gêneros cinematográficos, como comédia, horror, artes marciais, etc. Os filmes blaxploitation tiveram seu período áureo na primeira metade dos anos 70 angariando defensores e detratores, dentre esses últimos as próprias instituições representativas do movimento negro, que os acusavam de caça-níqueis que perpetuavam os estereótipos estabelecidos pelos brancos acerca dos negros. Contudo, é inegável a influência desses filmes em produções mais recentes, além de constatar, com o afastamento de quatro décadas, as qualidades de muitos deles.


Black Power Jones (2013), produzido e roteirizado por Geraldo Lima e Igor Simões Alonso (New Hope Produções), que também dirigiu, bebe nessa fonte e vai além. Conta a história de um violento bando criminoso, liderado pelo facínora Block (Geraldo Lima), que vive de golpes e extorsão. Em uma tentativa de manipular a seu favor os resultados de lutas de boxe clandestinas, entram em confronto com o boxeador Jones (Francisco Soares), enquanto sobre eles fecha o cerco uma dupla de policiais (Silvana Veloso e Igor Simões). O filme é rico em referências cinematográficas, começando pelo título que remete a Jones, o Faixa Preta (Black Belt Jones, 1974), blaxploitation de artes marciais estrelado por Jim Kelly. Também a ambientação setentista, criada de forma criteriosa através dos cenários, figurinos e objetos de cena são fundamentais para a construção da atmosfera, valorizada pela iluminação e fotografia de Geraldo Lima, elementos responsáveis por realçarem as cores e tornar consistentes os ambientes onde se desenrola a trama. Vale destacar o trabalho dos atores, alguns profissionais, mas a maioria deles amadores arregimentados pelos produtores, em caracterizações marcantes como André Chechinel (o capanga de Block, Capeta), Silvana Veloso (a delegada Rochelle) -  lembrando a musa black Pam Grier -, entre outros. As interpretações, exageradas e em certos momentos caricatas, acabam se revelando oportunas.


 Aliadas aos diálogos dão à narrativa um saboroso ar nonsense que em muito lembra, por um lado, as histórias em quadrinhos do período, como por outro, arremedam a estética camp. Dando ao filme um eficiente ar de brasilidade brega (notadamente nas cenas do bilhar) que o articula aos policias baratos rodados na Boca do Lixo nos anos 1970 por diretores como Francisco Cavalcanti e Toni Vieira. É essa mistura estética, de blaxploitation com Boca do Lixo, que dá Black Power Jones uma inegável vitalidade. Produzido de forma independente, com pouquíssimos recursos, é mais uma prova de que é possível criar obras audiovisuais no país com qualidade, sem apelar para a salvaguarda do rótulo “trash”.


Maiores informações sobre o filme e o DVD: