terça-feira, 19 de novembro de 2019


De volta com novidades (espero conseguir manter uma regularidade maior daqui pra frente).

Desde a última postagem muita coisa aconteceu. Desde um pós-doutorado, até uma investida em novas atividades. Entre elas, a produção de vídeos para o Youtube. Atividade que se tornou com o tempo bastante prazerosa, não só pelos temas abordados como pelos entrevistados. 
O Canal Fora de Sintonia foi o primeiro, iniciado em 2016, com 30 programas na rede. 31, se contarmos um que foi censurado (isso é outra história).
O Fora de Sintonia tem como proposta entrevistas de cunho cultural, mostrando de forma diversificada o inusitado, tanto nas atividades dos entrevistados como em vídeos temáticos, postados em edições especiais.
Bastante abrangente - de vampiros a produções da Boca do Lixo -, este canal serviu de base para experimentações e aprimoramento técnico em uma área incialmente nova.
Atualmente, o Canal Fora de Sintonia abriu espaço para um irmão mais novo: o Mondo Darko. Com equipe mais enxuta, tem um recorte mais específico: o horror. Investindo, como diria Jack Palance na abertura do extinto "Acredite se Quiser", no estranho, bizarro e inesperado.

Nas próximas postagens uma seleção das entrevistas mais emblemáticas dos canais, iniciando com o primeiro episódio do Mondo Darko.

E para quem não quer esperar, seguem os links para os canais no Youtube.
Se inscrevam em ambos, para serem notificados de novas postagens.

Fora de Sintonia



Mondo Darko





terça-feira, 29 de março de 2016

José Mojica Marins na revista Herói (1996).

Em 17 de maio de 1996 chegou às bancas o número 77 da saudosa revista Herói, com José Mojica Marins como destaque da edição, que tinha como motivo principal o horror na televisão na época (Contos da Cripta, Arquivo X, Maldição Eterna, etc). Mojica, como sabemos, estava à frente do bem sucedido Cine Trash, da Bandeirantes e tinha outros planos em mente. Reproduzo aqui scans com a matéria e a breve entrevista com o mestre do horror nacional.







quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A bruxa estava solta em 1996: "Jovens Bruxas" e "A Maldição das Bruxas".




Quase vinte anos depois revi Jovens Bruxas (The Craft, 1996) e continuo gostando do filme. Sendo assim pensei em escrever algumas linhas sobre ele, relembrando alguns aspectos interessantes e que foram melhor observados com o distanciamento.
Dirigido por Andrew Fleming, que não tem grandes coisas em seu currículo, o filme se enquadra primeiramente na leva de filmes adolescentes da década de 1990. E como tal, reproduz um dos paradigmas mais recorrentes de todos os sub-gêneros que compõem essa categoria: do jovem que não se enquadra nos padrões de seu grupo, sofre rejeição, e busca meios de ser aceito e/ou revidar as tribulações sofridas. 
Jovens Bruxas se atrela, desse modo, a um dos mais populares desses sub-gêneros: o terror “adolescente” ou “jovem” (prefiro essa denominação). Linha de filmes que remete aos “delinquentes” anos 1950 de I was a teenage werewolf (1957) e A bolha assassina (The Blob, 1958), passa pelos 1960 e se estabelece nos decênios seguintes (1970-1980) com uma leva de filmes em que jovens envolvidos em seus conflitos pessoais ou coletivos eram as vítimas preferenciais. Foi assim com Sexta-Feira 13 (Friday, the 13h, 1980), A Hora dos Pesadelo (Nightmare on Elm Street, 1984), A Hora do Espanto (Fright Night, 1985), e muitos, muitos outros.
O terror jovem ganha novo fôlego nos anos 1990, especialmente em filmes como Buffy, a caça-vampiros (Buffy, the vampire slayer, 1992), Pânico (Scream, 1996), Eu sei o que vocês fizeram no verão passado (I know what you did last summer, 1997), Prova Final (The Faculty, 1998), Comportamento Suspeito (Disturbing Behavior, 1998), e A Mão Assassina (Idle Hands, 1999). No quadro geral, esta década foi bastante interessante para o cinema de horror, com uma renovação nas tendências anteriores do gênero e novas investidas, inclusive com novos personagens emblemáticos (Candyman, o Djinn de O Mestre dos Desejos, o Ghostface de Pânico) se juntando aos estabelecidos nas décadas anteriores. 



O filme Jovens Bruxas, além de estar inserido neste contexto, apresenta outro aspecto interessante: está alinhado ao que convencionou-se chamar de Nova Era (New Age), movimento espiritual alternativo que ganhou força e foi assim denominado a partir dos anos 1980. Na verdade uma continuação das idéias esotéricas que remontam da contracultura dos anos 1960, alavancadas desde meados dos anos 1950 pelo renascimento da feitiçaria promovido por Gerald Gardner e sua propagação nos Estados Unidos na década de 1960 pelo casal Raymond e Rosemary Buckland. Também encontramos no filme ecos de um segmento feminista da tradição que passou a vigorar a partir do início dos 1970, chamado “diânico”. Vale ressaltar que o termo Wicca, ao que parece, foi cunhado ainda nos anos 1950 para denominar as práticas pagãs, passando a ser usado regularmente, não sem controvérsias entre os adeptos, na década seguinte. 
A história acompanha a trajetória de Sarah Bailey (Robin Tunney), jovem problemática que carrega o fardo de ter perdido a mãe ao nascer, tendo inclusive tentado suicídio. Sarah se muda para Los Angeles com o pai e a madrasta, passando a estudar em uma escola católica, onde conhece três meninas desajustadas e marginalizadas praticantes de bruxaria, Bonnie (Neve Campbell), Rochelle (Rachel True) e Nancy (Fairuza Balk). Cada uma buscando nas artes mágicas uma forma de ter poder, mas também lidar com as suas mazelas e problemas de ajuste social e familiar: as horríveis marcas de queimaduras de Bonnie, as humilhações racistas a que se submete Rochelle e o padrasto abusivo e mãe alcoólatra de Nancy. O trio, que venera um “deus todo-poderoso” chamado Manon, percebe que Sarah tem um dom natural para a magia, e que seria uma aquisição de peso para o grupo, que carecia de uma quarta pessoa para oficializarem seus rituais. Após uma cerimônia realizada na praia, o poder desencadeado de Manon concretiza os desejos das jovens, mas também causa o desequilíbrio entre elas, colocando Bonnie, Rochelle e Nancy, que abusam do poder que lhes foi conferido sem ligar para as consequências, contra a arrependida Sarah. O que vai culminar no embate de bruxas que vai coroar o filme.



O filme apresenta como ponto principal o conflito das garotas que, por serem consideradas “diferentes” não são aceitas em seu meio (o colégio), a busca e conquista de poder através da bruxaria e as consequências desse despertar mágico, rito de passagem pelo qual nenhuma passou ilesa. Se inicialmente brincam com as possibilidades dos poderes adquiridos, esses vão as corrompendo progressivamente, na medida em que começam a usá-los para o mal, colocando umas contra as outras. Especialmente Sarah, arrependida e temerosa, que confronta Nancy, a líder do grupo e a que passa a usar a magia em seu benefício, mesmo que signifique ferir e matar pessoas.
As cenas de cerimônias são bastante convincentes (notadamente a da praia), ainda que, conforme Pat Devin, sacerdotisa contratada como consultora, não seguem nenhum rito estabelecido. Essas sequências foram criadas de forma genérica para não melindrar os reais praticantes e também impedir jovens impetuosos, influenciados pelo filme, de repeti-las. Motivos que também levaram à invenção do nome da deidade “Manon”. De acordo com Devin, seria para evitar que alguém invocasse uma entidade real. Curiosamente, existe um demônio chamado “Mammon” ou “Mamon”, que segundo rápida e nada aprofundada pesquisa, foi assim denominado na escolástica medieval e nos escritos de Agrippa de Nettesheim como personificação de palavra originária do aramaico como personificação da riqueza e de lucros injustos. Seria o demônio da avarice, riquezas e iniquidades.



Jovens Bruxas ajudou a popularizar a Wicca entre os jovens a partir de meados da década de 1990 (movimento teen wicca), transformando a prática mágica em fenômeno pop, atrelado ao mercado consumidor e por sua vez influenciando tendências de comportamento e a mídia. Séries de televisão como Sabrina, a aprendiz de feiticeira (Sabrina, the teenage witch, 1996 - 2003), Buffy, a caça-vampiros (Buffy, the vampire slayer, 1997 - 2003) e principalmente Charmed (1998 - 2006), abordaram de formas diferentes esse universo, assim como diversas publicações foram editadas tendo como alvo o público jovem. É o caso dos livros de Silver Ravenwolf, autora de Teen witch: Wicca for a new generation (1998) e do Kit de magia para jovens: tudo o que você precisa para fazer magia (Editora Pensamento).
Mas se em Jovens Bruxas havia uma preocupação com uma abordagem mais próxima do universo da bruxaria e o horror servir de pano de fundo para os dilemas da adolescência, o mesmo não se pode dizer de A Maldição das Bruxas (Little Witches), dirigido por uma insignificante Jane Simpson e realizado com baixo orçamento no mesmo ano (em apenas duas semanas). Ao que tudo indica buscando capitalizar em cima do sucesso do filme de Andrew Fleming, sendo lançado um mês depois.



A trama apresenta elementos comuns ao de Jovens Bruxas: um grupo de estudantes desajustadas de uma escola católica ficam internadas durante o recesso da Páscoa, entre elas Faith (Mimi Reichmeister) - órfã de pai, deixada sozinha no feriado pela mãe omissa - e Jamie (Sheeri Rappaport) , vítima de pai abusivo e de comportamento revoltado e promíscuo. Elas e outras meninas descobrem um antigo livro de feitiços nas ruínas de um templo satânico encontrado em escavações no subterrâneo da escola, e acabam conjurando um demônio. Jamie e Faith acabam em lados opostos, com a primeira assumindo o comando do grupo com a intenção de trazer o demônio de volta para conquistar poder, e Faith tentando impedir que isso aconteça.



Em um primeiro momento a trama parece promissora e até interessante pela inserção de elementos mais comuns aos filmes de horror: o local maldito -   o templo subterrâneo -; a maldição ancestral - a cerimônia de magia negra sendo interrompida por frades encapuzados, com jovens desnudas sendo impedidas de consumar um sacrifício humano e invocar as forças do mal - ; o objeto de poder -  velho grimório, livro de feitiços escrito em latim;  o monstro - o demônio encerrado nas profundezas aguardando despertar -; etc. Porém, o enredo se perde no roteiro mal amarrado, na falta de pontos de virada e um clímax satisfatório e na conclusão fraca e precipitada. Os personagens também são mal desenvolvidos: a heroína Faith não convence em sua conversão para o bem, muito menos sendo uma aplicada conhecedora de latim, do mesmo modo como a vilã Jamie, de uma hora para a outra se torna prolixa nesse idioma e capaz de praticar feitiços avançados.  Diferente das personagens Sarah e Nancy, de Jovens Bruxas, que se modificam gradualmente e de forma coerente com o andamento e as prospecções do filme. Também a figura da Madre Guardiã, interpretada pela simpática baixinha Zelda Rubinstein (a médium de Poltergeist, o Fenômeno, 1982), não diz muito porque que foi inserida. Por outro lado, Maldição as Bruxas foge do pudor das produções de terror mainstream dos anos 1990,  com maior apelo sexual nos diálogos e nas cenas de nudez das atrizes, especialmente da linda Sheeri Rappaport em dois momentos: quando se excita ao relatar suas aventuras amorosas para o padre no confessionário da escola, e no striptease improvisado na janela do alojamento. O que não enaltece o filme, pois as belas formas da atriz servem para uma visão conservadora da sexualidade, reforçando o caráter conservador do filme ao apresentar esses elementos vinculados ao mal a ser derrotado pela heroína virtuosa e virgem.




Se Jovens Bruxas tenta apresentar uma visão menos preconceituosa da religião neo-pagã, sendo mesmo assim criticado por parte dos praticantes, Maldição das Bruxas reforça os estereótipos que cercam as práticas mágicas como maléficas e enaltece a moral conservadora cristã. 


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Lançamento do Livro "Vanessa Alves, coletânea de imagens e palavras".



Não é de agora que o cinema da Boca paulista vêm atraindo a atenção de cinéfilos e estudiosos de cinema. Ainda carecendo de maior atenção nos meios acadêmicos - ainda são poucos os que se dedicaram ao tema, em proporção desigual à importância e abrangência daquela produção - é relevante ver que de alguns anos para cá diversas publicações vem resgatando a memória de um cinema feito na marra, sem as benesses do poder público. E não é só pelas mãos de uma nova geração de apaixonados por cinema e pesquisadores que isso vem ocorrendo, como os obrigatórios “O Coringa do Cinema” (Giostri, 2013), de Matheus Trunk; “Dossiê Boca” (2014), do mesmo autor e editora; “José Adalto Cardoso: uma vida em fotogramas” (Laços, 2015), de Alexandre Aldo Neto. Mas também pelas mãos dos próprios protagonistas daquelas histórias, como é o caso de “A Boca de São Paulo” (2015), memórias da atriz Nicole Puzzi e “Um Banho de América” (2015), da musa Zaira Bueno - ambos pela Editora Laços, recém lançados.
Dentro dessa bem vinda produção, chega no dia 14 de setembro (com lançamento no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo às 18 horas) o livro “Vanessa Alves, coletânea de imagens e palavras”. Organizado por Rafael Spaca, radialista e editor-fundador do blog Os Curtos Filmes, que lançou neste ano o ótimo “Conversações com R.F. Lucchetti” (Editora Verve), resenhado em minha última postagem. Esta nova iniciativa, como o próprio título indica, refaz a trajetória de Vanessa Alves, ilustrada por diversas fotos raras do acervo pessoal da atriz.
Sem dúvida uma das mais belas atrizes do cinema paulista, Vanessa despontou em A Filha de Emmanuele (1980), de Osvaldo de Oliveira, e foi presença constante nas telas até o início dos anos 2000, fechando esse ciclo participando de Garotas do ABC (2003), do inesquecível Carlos Reichenbach. 
O livro é dividido em duas partes. Na primeira, é a própria Vanessa que conta a sua história destacando os acontecimentos mais significativos de sua vida. Através dessa narrativa pessoal, entremeada por confidências, ela nos fala de forma bem descontraída de sua infância, família, o começo da carreira artística ainda criança na televisão e iniciação amorosa. 
Destaco suas recordações do período em que atuou no cinema da Boca, local onde, segundo a própria Vanessa, “cresceu pessoal e profissionalmente”. E em especial, chamo a atenção para as lembranças de sua parceria com Carlos Reichenbach em cinco filmes: O Paraíso Proibido (1981), Extremos do Prazer (1983), Filme Demência (1985), Anjos do Arrabalde (1986), que rendeu à atriz o Kikito de melhor atriz coadjuvante e o citado Garotas do ABC. É de Carlão, que considerava a atriz sua “cúmplice de vários filmes”, um dos textos incluídos no livro. 
Ainda nessa primeira parte Vanessa fala de sua investida na música, o trabalho no teatro, na televisão e na dublagem, atividade que exerce atualmente, além de comentar vários títulos de sua filmografia.
Na segunda parte do livro, os filmes em que Vanessa Alves são analisados por um time de convidados, de que me orgulho em fazer parte, tendo sido contemplado pelo organizador Rafael Spaca com a oportunidade de falar sobre Os bons tempos voltaram: vamos gozar outra vez (1984) . 


Abaixo, reproduzo o release do livro:

Vanessa Alves se tornou nacionalmente conhecida graças aos filmes que estrelou na Boca do Lixo, foram inúmeras pornochanchadas. Lá, virou uma referência, umas das grandes estrelas do período, conquistou fãs ardorosos e ganhou o epíteto de musa. A atriz virou símbolo sexual, uma das mulheres mais lindas e desejadas do país, posou nua para diversas revistas masculinas, estampou capas de jornais. 
A dimensão do seu trabalho e de sua beleza poderá ser constada no livro “Vanessa Alves, coletânea de imagens e palavras” (com organização de Rafael Spaca e editado pela Editora Laços). A atriz compartilha sua memória com os fãs, conta passagens de sua vida pessoal e profissional. Rememora seus filmes, os trabalhos no teatro, televisão e dublagem. 
Vanessa Alves se reinventou e hoje é uma das profissionais mais requisitadas na dublagem, tornando-se também diretora nesta área.
O cineasta Carlos Reinchenbach, com quem Vanessa Alves trabalhou em vários filmes, a chamava de “atriz-cúmplice”. Carlão gostava muito de trabalhar com Vanessa.
O livro, conta com fotos e documentos raros do acervo da própria atriz e traz um time de peso que analisa seu trabalho e seus filmes: Alessandro Gamo; Andrea Ormond; Antônio Leão; Aristides Oliveira; Christian Petermann; Daniel Camargo, David Cardoso; Diniz Gonçalves Júnior; Dimas Tadeu Schitini; Du Aguiar; Elizeu Ewald; Fábio Vellozo; Felipe Kowalczuk; Felipe M. Guerra; Felipe Martinelli; Flávio Guarnieri; Gabriel Carneiro; Gio Mendes; Guilherme Solari; José Adalto Cardoso; José Edward Janczukowicz; José Parisi; Jotta Santana; Laura Loguercio Cánepa; Leandro César Caraça; Lúcio Reis; Luiz Biajoni; Mara Vanessa Torres; Marcelo Mendez; Marco A. S. Freitas; Matheus Trunk; Monique Lafond; Nathália Lorda; Roberto Cosulich; Sara Silveira; Valter Júnior e; William Pereira. Estes notáveis pesquisadores e críticos ajudaram a reavaliar seu trabalho no cinema, alçando Vanessa Alves ao posto de uma das maiores atrizes brasileiras de todos os tempos.
“Vanessa Alves, coletânea de imagens e palavras” oferecerá aos leitores um amplo panorama dos bastidores cinematográficos, especialmente os da Boca do Lixo. Conhecer a história de Vanessa Alves é conhecer a história do significado de ser atriz.


Lançamento “Vanessa Alves: Coletânea de Imagens e Palavras”
14 de setembro, segunda-feira, a partir das 18 horas
Centro Universitário Belas Artes (Auditório Raphael Galvez Dazzani)
Rua Dr. Álvaro Alvim, Vila Mariana, São Paulo (próximo à estação de metrô)


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Black Power Jones (2013)



Na década de sessenta do século passado, após importantes mudanças na legislação referentes ao racismo e a mobilização dos negros norte-americanos na segunda metade dos anos 1950, as manifestações pelos direitos civis ganharam força. Resultando na aprovação da lei que proibia qualquer forma de discriminação baseada em cor ou raça. Mas apesar disso, as coisas esquentaram, com a radicalização do movimento e violentos confrontos, culminado em crimes de morte - como os assassinatos do líder radical Malcolm X e do pacifista Martin Luther King - e a criação do grupo Panteras Negras. Nesse cenário, embalado pela música soul e pelo que ficou conhecido como movimento Black Power (de ampla abrangência artística, cultural e ideológica), surge uma nova tendência cinematográfica denominada blaxploitation. Fusão óbvia das palavras black e exploitation (como eram chamados os filmes produzidos à margem do código de ética cinematográfico em vigor desde a década de 1930, que exploravam temas não permitidos nas produções dos grandes extúdios), o filão tem como início – ou pelo menos existe um consenso sobre isso – o independente  Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971), de Melvin Van Peebles. Produção que, segundo Todd Boyd “mesclou o modernismo europeu e o avant garde com as demandas urgentes do movimento negro que ecoavam sentimentos semelhantes aqueles articulados nas ruas dos Estados Unidos dos anos 1970”[1]. Por outro lado, no mesmo ano, a major MGM lançou Shaft, dirigido por Gordon Parks, com Richard Roundtree no papel título, deflagrando uma série de produções que, a partir dos paradigmas estabelecidos pelo filme de Peebles, se imiscuíram nos mais diversos gêneros cinematográficos, como comédia, horror, artes marciais, etc. Os filmes blaxploitation tiveram seu período áureo na primeira metade dos anos 70 angariando defensores e detratores, dentre esses últimos as próprias instituições representativas do movimento negro, que os acusavam de caça-níqueis que perpetuavam os estereótipos estabelecidos pelos brancos acerca dos negros. Contudo, é inegável a influência desses filmes em produções mais recentes, além de constatar, com o afastamento de quatro décadas, as qualidades de muitos deles.


Black Power Jones (2013), produzido e roteirizado por Geraldo Lima e Igor Simões Alonso (New Hope Produções), que também dirigiu, bebe nessa fonte e vai além. Conta a história de um violento bando criminoso, liderado pelo facínora Block (Geraldo Lima), que vive de golpes e extorsão. Em uma tentativa de manipular a seu favor os resultados de lutas de boxe clandestinas, entram em confronto com o boxeador Jones (Francisco Soares), enquanto sobre eles fecha o cerco uma dupla de policiais (Silvana Veloso e Igor Simões). O filme é rico em referências cinematográficas, começando pelo título que remete a Jones, o Faixa Preta (Black Belt Jones, 1974), blaxploitation de artes marciais estrelado por Jim Kelly. Também a ambientação setentista, criada de forma criteriosa através dos cenários, figurinos e objetos de cena são fundamentais para a construção da atmosfera, valorizada pela iluminação e fotografia de Geraldo Lima, elementos responsáveis por realçarem as cores e tornar consistentes os ambientes onde se desenrola a trama. Vale destacar o trabalho dos atores, alguns profissionais, mas a maioria deles amadores arregimentados pelos produtores, em caracterizações marcantes como André Chechinel (o capanga de Block, Capeta), Silvana Veloso (a delegada Rochelle) -  lembrando a musa black Pam Grier -, entre outros. As interpretações, exageradas e em certos momentos caricatas, acabam se revelando oportunas.


 Aliadas aos diálogos dão à narrativa um saboroso ar nonsense que em muito lembra, por um lado, as histórias em quadrinhos do período, como por outro, arremedam a estética camp. Dando ao filme um eficiente ar de brasilidade brega (notadamente nas cenas do bilhar) que o articula aos policias baratos rodados na Boca do Lixo nos anos 1970 por diretores como Francisco Cavalcanti e Toni Vieira. É essa mistura estética, de blaxploitation com Boca do Lixo, que dá Black Power Jones uma inegável vitalidade. Produzido de forma independente, com pouquíssimos recursos, é mais uma prova de que é possível criar obras audiovisuais no país com qualidade, sem apelar para a salvaguarda do rótulo “trash”.


Maiores informações sobre o filme e o DVD:



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

De volta... de novo! - Deranged (1974) censurado!!!

Infelizmente não tenho conseguido me dedicar ao blog do modo que gostaria. Está difícil conciliar com minhas atividades profissionais, especialmente as pesquisas que venho fazendo para meu trabalho de pós doutorado. De qualquer forma, tentarei novamente retomar as postagens de modo mais econômico e descompromissado.
Começando com um protesto contra os canais de assinatura que insistem em passar filmes cortados, algumas vezes de modo que encaixem na grade de programação, outras vezes por CENSURA. Por favor! Se é para censurar, não passem!
O motivo deste protesto foi a mutilação pelo canal MGM HD do ótimo Deranged, uma versão exploitation da carreira do notório Ed Gein, necrófilo norte-americano que originou personagens como Norman Bates de Psicose (Psycho, 1960) e o Buffalo Bill de O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991); além de ter inspirado outras produções das quais destaco O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974). O tarado também foi representado por atores como Steve Railsback (Ed Gein, o Serial Killer/In the Light of the Moon, 2000) e Kane Hodder (Ed Gein: The Butcher of Plainfield, 2007).
Rodado em 1974 por Alan Ormsby e tendo Roberts Blossom como o protagonista Ezra Cobb (que faz a vez de Gein), é uma divertida imersão na mente de um assassino, que perde o sentido ao ter a parte final mutilada. Para quem não viu e quer conhecer essa pequena obra prima, ou assistiu e ficou boiando na versão cortada da MGM, segue abaixo na íntegra a cena censurada:




segunda-feira, 28 de março de 2011

O Feiticeiro (Necromancy/The Witching, 1972)



No início dos anos 1970 vários produtores e diretores pegaram carona no sucesso de O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby / 1968) se aproveitando do momento histórico em que bruxas e demônios estavam na ordem do dia sob os auspícios da tão propalada Era de Aquário.


Podemos afirmar que Satã estava na ordem do dia naqueles idos, tanto como arauto de uma nova ordem onde o homem se libertaria dos grilhões do conservadorismo e da caretice, quanto como deflagrador de atos de violência. A resposta do status quo não tardaria com O Exorcista (The Exorcist/1973). Filme que por sua vez iniciaria uma nova onda, com um caráter cristão mais exacerbado.


Antes de Linda Blair ensinar nas telas um uso pouco ortodoxo para o crucifixo, o diretor Bert I. Gordon, que tem no currículo desde clássicos da ficção científica barata dos anos 1950 como The Amazing Colossal Man (1957) e pérolas da fantasia como A Espada Mágica (The Magic Sword/ 1962), resolveu dar sua contribuição para o horror e faturar uma graninha com a onda do momento. O resultado: Necromancy (1972), uma narrativa de horror gótico que, apesar de ser centrada em elementos claramente inspirados no filme de Polanski, possui interessante premissa.


Conta a história da jovem Lori (Pamela Franklin, de Todas as Noites às Nove / Our Mother’s House /1967 e A Casa da Noite Eterna / The Legend of Hell House / 1973) que após aborto, muda-se para a sinistra cidade de Lilith. Lá conhece o empregador de seu marido Frank (Michael Ontkean), o enigmático Sr. Cato (o grande Orson Welles, 1915 - 1985), um satanista convicto que é dono da cidade e seus habitantes. Aos poucos, Lori vai conhecendo as peculiaridades locais: não existem crianças, os moradores estão proibidos de procriar e a religião oficial é a bruxaria. Logo Frank se alia aos feiticeiros, ficando Lori sozinha em meio às adversidades da comunidade, à qual não se integra.


Acaba descobrindo que não está ali por acaso, mas foi atraída através das forças sobrenaturais desencadeadas por Cato, para com seus poderes sobrenaturais latentes –sobretudo a necromancia que dá título ao filme - trazer o filho do bruxo de volta à vida.


Infelizmente para nós, espectadores, o que promete ser uma narrativa envolvente do old school gótico que permeou o cinema de horror das décadas de 1960 e 70, se perde no andamento truncado e lapsos que deixam muitas questões em aberto: por exemplo, quem é claramente a mulher que aparece nos sonhos de Lori alertando-a para o perigo. Ficam apenas suposições, assim como o final não convincente e alguns acontecimentos repentinos demais.


Talvez a explicação seja que Necromancy teria sofrido vários cortes e ganhado diversas versões (sendo inclusive conhecido como Rosemary’s Disciples). A que me chegou às mãos, em cópia muito ruim, é uma reedição de 1981 (intitulada The Witching) lançada em VHS por aqui pela saudosa Look Vídeo como O Feiticeiro, onde se notam claramente os cortes. Ao que parece, não se tem notícia da tal versão integral. Vale uma busca mais minuciosa na internet.


De qualquer forma, vale a pena assistir. Não só pela atmosfera que o baixo orçamento não prejudicou totalmente, mas pela a recriação meia-boca das cerimônias satânicas (que misturam elementos da Wicca e do Satanismo). Cenas que tiveram consultoria técnica do famoso bruxo e escritor Raymond Buckland, com muita nudez para apimentar – especialmente de Franklin – e algum sexo simulado.