segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Antes dos vampiros virarem purpurina: Maldição Eterna (Forever Knight, 1992-1996)


Como os vampiros andam novamente em alta desde que o medonho – no mau sentido, mesmo - Crepúsculo (Twilight, 2008) se tornou inesperado sucesso de bilheteria, e os sanguessugas pululam nos meios de comunicação contando com o fervor de novos e velhos adeptos, me veio à memória uma das melhores séries feitas para a televisão sobre o tema, ainda no início dos anos 1990: Maldição Eterna (Forever Knight, 1992-1996). Se ultimamente tivemos um revival de vampirismo na tv através de programas como Blood Ties (2006) e Moonlight (2007), e as bem sucedidas True Blood (2008) e The Vampire Diaries (2009) - ainda em produção -, naquela época a maré não estava tão promissora: Drácula, a série (Drácula, the Series, 1990), durou apenas uma temporada, e Kindred: The Embraced (1996) idem. Com Maldição Eterna foi diferente. Superior às outras, conseguiu se manter no ar por mais tempo principalmente pela abordagem diferenciada do assunto e a uma bem elaborada mistura de drama policial com sobrenatural. Na onda revisionista dos vampiros, que teve como fontes principais os romances de Anne Rice, apresenta tipos menos estereotipados, com mais personalidade e nuances psicológicas. Até então, nunca o tema fora tratado com tanta seriedade na televisão.

Maldição Eterna se passa em Toronto, que como qualquer outro centro urbano, por trás de seus arranha-céus pontilhados de luzes brilhantes, esconde a realidade dura das ruas. Uma face cruel em que criminosos aguardam suas vítimas nas sarjetas e assassinos matam impiedosamente. Como qualquer cidade Toronto tem seus segredos, seus mistérios e seus...vampiros! A cidade candadense é o habitat de Nicholas “Nick” Knight, o protagonista da série que foi produzida pela Paragon Entertainment e transmitida nos Estados Unidos pela CBS dentro do Crime Time, a programação policial de fim de noite da emissora. Knight é um herói bastante incomum. Na verdade ele é um vampiro com mais de 700 anos, transformado em 1228, quando retornava das cruzadas. Após viver nas sombras durante séculos se alimentando de sangue humano, passa a buscar a redenção e absolvição pelo mal que causou. Isso o levou a ingressar na força policial da cidade como detetive da divisão de homicídios, trabalhando somente no turno da noite, é claro. A cada episódio, o herói usa seus poderes para solucionar crimes, constantemente atormentado pelos fantasmas do passado e buscando reconquistar a humanidade perdida. Deve-se destacar ser Knight, provavelmente, uma das primeiras encarnações do “vampiro relutante” nos meios audiovisuais.

Esse plot não é de primeira mão. A primeira aparição do personagem ocorreu anos antes, em um telefilme de 1989 chamado Nick Knight (lançado em vídeo no Brasil com o título horroroso de Nick, um tira em apuros) e estrelado pelo ex-pop star Rick Springfield. O telefilme tinha a intenção de ser o piloto de uma série para a rede CBS, que seria protagonizada pelo próprio Springfield, mas que não decolou. Quando a canadense Paragon Entertainment tirou o programa da gaveta em 1991, o local da trama foi transferido para Toronto e o papel de Knight foi assumido por Geraint Wyn Davies, um ator com pinta de galã e formação clássica, já conhecido nas telinhas norte-americanas.

Maldição Eterna gira em torno de três personagens: o próprio Knight; Lucien Lacroix (o ótimo Nigel Bennett) - o vampiro maligno que induziu Nick ao vampirismo e o iniciou na Paris medieval; e Janette (Deborah Duchene), uma ex-amante de Nick de muitos séculos que dirige um nightclub chamado Raven, inspirado no Fome de Viver (The Hunger, 1983), de Tony Scott. Diga-se de passagem, outra importante fonte para a onda revisionista, junto aos romances de Anne Rice. Além do trio principal, temos como coadjuvantes o esculachado parceiro de Knight, Schanke (John Kapelos), um reclamão responsável pelos momentos engraçados da série e que desconhece a verdadeira natureza do amigo; e Natalie Lambert (Catherine Disher), a patologista do necrotério que se apaixona pelo pelo protagonista e busca uma cura.

Os dois primeiros episódios, O Senhor das Sombras (parte 1 e 2), são uma refilmagem bastante fiel do antigo piloto. Porém mais amadurecida, melhor trabalhada e com elenco muito superior, além dos flashbacks (baseados em Highlander) que continuariam por toda a série dando maior dimensão aos personagens, construindo aos poucos a sua história passada. Com o passar do tempo, Maldição Eterna se tornou uma jornada pelo lado mais sombrio da cidade, um mundo onde os vampiros existem e convivem, sem serem percebidos pelos criminosos e tiras. E onde os limites entre predador e presa se tornam tão indistintos quanto as fronteiras entre bem e mal. Como fica patente no emblemático nêmesis de Knight, Lacroix, que vestido de preto, cabelos platinados e olhos amarelos brilhantes, atormenta o herói em suas lembranças. Lacroix e Knight, na verdade, são os dois lados da mesma moeda. Quem poderia querer ganhar a imortalidade para simplesmente trabalhar como um tira? Ou iria abrir mão de noites eternas pela busca da absolvição? Lacroix, iniciado no vampirismo em Pompéia, às vésperas da erupção do Vesúvio, deixa clara a sua posição. Ele ama a escuridão, o sangue, a liberdade de abandonar completamente os retraimentos da moralidade convencional e o poder. Lacroix é um deus da escuridão, orgulhoso, vingativo e ao mesmo tempo paternal. Nick é seu filho pródigo, que se afastou e rejeita sua natureza em busca da mortalidade. "Lacroix atravessa a eternidade gostando do que faz, com naturalidade..." - disse Bennett em entrevista sobre o programa - "... e este é seu maior problema e ponto de conflito com Nick Knight. Ele não consegue compreender por que Knight, a quem iniciara na Idade Média, tem tantos problemas com o fato de ser um vampiro". Isso os leva a conflitos e confrontos constantes nas mais diversas épocas, mostrados nos flashbacks.

A série foi feliz ao adequar os elementos de caráter fantástico - sobrenatural aos paradigmas do seriado policial. Na verdade, não fossem esses elementos, seria apenas mais uma série de mocinho e bandido. O fato desse mocinho ser um vampiro cheio de conflitos interiores e que tenta viver e trabalhar como um mortal - o que inevitavelmente resulta em situações bastante originais e leva ao trágico final (Last Knight, 1996) - é que tornou o programa especial.

Maldição Eterna durou três temporadas, sendo as duas primeiras exibidas no Brasil (Record e Sony). Foi lançada na íntegra em DVD nos Estados Unidos.


Confira o trailler abaixo:


http://www.youtube.com/watch?v=yPhIEG3JYtg&feature=fvw

3 comentários:

Beto disse...

Olá Lúcio Reis, sou Beto Ismael do blog Pornochancheiro, gostei do seu blog e já coloquei um link no meu, apareça sempre que a casa é sua.
Abraços do Pornochancheiro Beto Ismael.

pseudo-autor disse...

Gostei do título de sua postagem. Realmente o tema vampírico entrou numa fase emo ridícula demais.

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Mychel disse...

Rapá, teu blog é ótimo!
Tem um filme que procuro: Goodbye Gemini, 1970, do diretor Alan Gibson. Será que você conseguiria?
Um abraço!