terça-feira, 4 de maio de 2010

Gritos en la Noche (1962)


O grande expoente do exploitation espanhol, o famigerado Jesus Franco (ou Jess Franco), em atividade até hoje, dirigiu desde o final dos anos 50 até hoje quase duzentos filmes dos mais variados gêneros, transitando da comédia musical ao horror, passando pelo drama, selva, ação, pornô, etc. Na verdade, é difícil estabelecer a prodigiosa quantidade de filmes dirigidos por Franco (existem estimativas que inclusive superam esse número), já que boa parte deles foi assinada com pseudônimos, ou mesmo com mais de uma versão (algumas incluindo cenas de sexo explícito) e títulos diferentes de acordo com o mercado-alvo. Soma-se a isso o fato de a maior parte da produção deste cineasta não ter sido rodada em seu país de origem, inclusive por causa da censura do regime do “generalíssimo” de mesmo sobrenome, o que fez com que ele se radicasse na França e seus filmes tenham várias nacionalidades, muitos em co-produção com a Alemanha.

Gritos em la Noche (também conhecido pelo título norte-americano The Awful Dr. Orloff), de 1962, é um dos trabalhos mais conhecidos de Franco e ainda um dos grandes marcos em sua filmografia. Nele conseguiu fundir com naturalidade elementos de perversão sexual, morbidez e horror, equilibrando-os na construção de uma atmosfera que poderia remeter aos filmes da Hammer que lhe serviram de inspiração, indo até mais longe ao mesclar elementos do gótico com o noir.

A trama é parecida com a do clássico Olhos sem Face (Les Yeaux Sans Visage, 1960) de Georges Franju Franju, com a diferença de que com Franco a poesia do filme anterior é substituída, sem rodeios, por elementos de violência, suspense e terror em uma estrutura narrativa mais própria dos filmes de horror. No filme, Dr. Orloff tenta recuperar a face destruída de sua filha através de enxertos da pele que arrancava dos rostos das mulheres raptadas por seu fiel Morpho, um cego zumbificado de tendências necrófilas. Porém, os ideais do médico vão além do amor paterno, se perdendo em desvios de conduta que deixam entrever o seu lado sádico e psicopata.

Gritos em la Noche, que passou cortado na Espanha, é o trabalho mais convencional de Franco, gerando uma seqüência, El Secreto Del Dr. Orloff (1964) e uma refilmagem, Los Depredadores de la Noche (mais conhecido como Faceless, 1988), trazendo a história para a Paris dos anos 80 com mais sangue e violência.

domingo, 25 de abril de 2010

Traci Lords: do pornô aos filmes B



A maior revelação do cinema erótico dos anos 80 e dona de formas generosas e bem proporcionadas, Traci Lords saiu de maneira bastante turbulenta do rentável mercado do vídeo pornográfico norte-americano para tentar carreira como atriz de produções convencionais. Transição turbulenta, digna de um filme, mas que valeu a pena, segundo a atriz. Mesmo nunca tendo sido alçada ao mainstream – o que seria impensável aos olhos da indústria conservadora -, conseguiu chamar a atenção de diretores cult – como John Waters -, e firmar-se como atriz de filmes B, participando de séries de tv e aparecendo em pontas de algumas grandes produções.

Certa vez declarou, durante um intervalo entre filmagens, não ser uma pessoa muito normal, no caso se referindo à propensão em aparecer em filmes de baixo orçamento. Declaração que serve, de igual modo, para sua vida.

Voltemos até 1980. Traci, aliás, Nora Louise Kuzma - nascida em 7 de maio de 1968 - tinha 12 anos quando sua mãe se divorciou do marido alcóolatra e violento. Nora e suas três irmãs ficaram com a mãe e migraram de Steubenville, Ohio, para as costas ensolaradas de Redondo Beach, Califórnia. Para Nora, o novo lar pareceu muito mais glamuroso e oportuno do que a encardida cidade metalúrgica de Steubenville.

Por volta dos 15 anos, Nora teve algumas experiências ruins, inclusive um aborto. Ela abandonou os estudos e passou a se envolver com homens mais velhos, acabando metida, por intermédio de um deles, no mundo das revistas masculinas com a identidade falsa de Kristie Elizabeth Nussman. Foi Garota do Mês da Penthouse (setembro de 1984) e, logo em seguida, passou aos filmes pornô, adotando profissionalmente o pseudônimo de Traci Lords, o último nome em homenagem ao seu ator favorito, Jack Lord, o McGarrett da famosa série de tv Hawaii 5-0. Em pouquíssimo tempo virou sensação. Participou em mais de 100 filmes hardcore - entre eles o clássico Geração New Wave, Sexo New Wave (New Wave Hookers/1985), dos famigerados Dark Bros. - e foi reconhecida como uma das mais ativas e bem pagas atrizes do gênero. Chegou a ganhar 300 mil dólares no curto espaço de nove meses.

Pouco depois de completar seu décimo oitavo aniversário, Traci foi para a França gravar outro porn flick. Ao voltar para a Califórnia, foi recebida por agentes do FBI. Evidências suficientes tinham sido reunidas de que ela ainda era adolescente quando atuou em filmes x-rated usando documentos falsos que aumentavam sua idade. Sendo assim, todos os seus filmes e fotos para revistas eram ilegais (inclusive as do ensaio para a Penthouse). A imprensa logo armou um circo para informar ao público sobre o escandaloso passado de uma das mais populares pornstars dos Estados Unidos. As notícias abalaram a indústria de filmes para adultos, com os distribuidores cooperando com as autoridades retirando de circulação os vídeos protagonizados pela atriz. Tentativa de minimizar suas responsabilidades nos inevitáveis problemas judiciais, mas que não os isentaram de se embaraçarem (junto com os produtores) em duras penalidades, até mesmo algum tempo na cadeia. Por sua vez, Traci nunca foi importunada pelo sistema judiciário, que preferiu usá-la para atacar os peixes grandes do mercado das produções pornô. Existem muitas teorias, porém sem provas, sobre quem deu o serviço ao FBI. Dizem, inclusive, que pode ter sido uma jogada da própria atriz para ficar em evidência, romper com o passado e assumir o controle de sua carreira.

Traci, Desejada e Possuída (Traci, I Love You), o único filme x-rated que ela fez na idade legal de 18 anos, tornou-se o vídeo mais vendido nos Eua em 1987, sendo a única produção estrelada por ela que restou para comercialização. Há rumores de que a atriz tentou recuperar os direitos desse filme, numa tentativa de remover o último traço de sua carreira no sexo explícito.

Aos 18 anos, separada de sua lucrativa profissão, Traci ficou a deriva em Los Angeles, tentando tornar-se a primeira atriz a passar com sucesso dos pornôs para o cinema convencional. Antes dela, Marilyn Chambers - de Atrás da Porta Verde (Behind the Green Door/1972) - já havia participado de alguns, entre eles Enraivecida - A Fúria do Sexo (Rabid /1977) de David Cronemberg. Porém, nesses filmes, Chambers é lembrada apenas por algumas cenas de nudez softcore. Traci Lords queria muito mais. Sendo assim, se inscreveu nas aulas de interpretação do Instituto Lee Strasberg.

Em 1988, após uma pequena participação no seriado O Homem da Máfia (Wiseguy), foi escalada para a produção de Roger Corman, remake de seu próprio filme de 1957 O Vampiro das Estrelas (Not Of This Earth). Seu papel é o da enfermeira - originalmente interpretada por Beverly Garland - que atrapalha os planos dos alienígenas que vêm ao nosso planeta para roubar sangue humano. Ela estava inteirada que não foi escolhida unicamente por suas aptidões dramáticas. Corman insistiu inclusive que o diretor Jim Wynorski rodasse algumas cenas de nudez com a atriz. Ainda que bem mais discretas que as de seus filmes anteriores, essas seqüências representavam uma parte de sua vida que ela tentava abandonar. Contudo, estava ciente do grande passo em sua carreira que era esse filme e que a nudez seria importante nesse estágio. Traci adorou trabalhar em O Vampiro das Estrelas e com o diretor Wynorski. O próprio Corman ficou satisfeito, oferecendo-lhe contrato para outros filmes. Ela, porém, os rejeitou, mesmo querendo filmar novamente com Wynorski e Corman. Não estava mais interessada em aparecer apenas para expor seus dotes. Queria algo mais, que surgiu em 1990 com Cry Baby(1990), até então o filme mais comercial do estranho John Waters. Interpretando Wanda Woodward, uma delinqüente juvenil, contracenou com o inusitado elenco do qual ainda participaram o roqueiro Iggy Pop, o ex-sex symbol de Andy Warhol e Paul Morrissey , Joe Dallessandro, a ex-sequestrada Patty Hearst e o jovem galã Johnny Depp.

Após Cry Baby, a a triz voltou à tv, aparecendo em Profissão: Perigo (McGyver) e Um amor de Família (Married with Children). Também estrelou algumas produções feitas diretamente para vídeo como o medíocre horror Shock'Em Dead e o policial A Time to Die, iniciando uma longa trajetória nos filmes de baixo orçamento e aparições em séries de tv. Algumas marcantes, como a serial killer Sharon Lesher de Profiler, entre 1997 e 1998.

Mesmo tendo conseguido atingir seus objetivos, construindo uma carreira na ativa até hoje, inegavelmente Traci Lords sempre será vinculada ao título de ex-rainha pornô. Ela mesma declara saber que nunca será capaz de escapar do passado e está resignada à situação. Em suas próprias palavras: "Eu provavelmente terei 60 anos e ainda ouvirei alguém sussurrando atrás de mim: - Você sabe que ela trabalhava em filmes pornô? - Isso vai acontecer pelo resto da vida."

Recentemente pode ser vista no divertido Pagando Bem que Mal Tem (Zack and Miri Make a Porn /2008), de Kevin Smith.

Curiosidade: Traci faz uma ponta em Blade (1998) como a vampira Racquel, que aparece nas seqüências iniciais passadas numa rave.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Cinema de Bordas chega à segunda edição!


A postagem da semana será destinada a um evento importante: a segunda edição do Cinema de Bordas, entre os dias 21 e 25 de abril no Itaú Cultural/SP. Segue divulgação da curadora Bernadette Lyra com a programação:


A Mostra reúne o melhor da produção cinematográfica caseira de todo o Brasil. É imperdível!

Entre os dias 21 e 25 de abril, o Itaú Cultural apresenta a segunda edição do Cinema de Bordas. Nada de grandes orçamentos ou efeitos especiais de tirar o fÿlego. A mostra é o espaço das produções cinematográficas independentes realizadas em todo o Brasil. Improvisação reunida em histórias inusitadas, "às bordas" do cinema comercial ou artístico.

Com curadoria de Bernadette Lyra e Gelson Santana, a seleção de filmes do Cinema de Bordas se abastece, sobretudo, dos filmes policiais, de horror, ficção científica, kung fu, histórias em quadrinhos, faroeste, comédia e por aí vai. Seja nas grandes capitais, seja nas pequenas cidades do interior, o importante é fazer cinema. Além dos curadores, a Mostra conta com participação e debates de todo o Grupo de Cinema de Bordas: Alfredo Suppia, Laura Canepa, Lucio Reis, Rogerio Ferraraz, Rosana Soares, Zuleika Bueno


Não deixe de confe rir a programação completa e os trailers de alguns filmes. Compareça e surpreenda-se!

quarta 21 de abril
16h programa 1
18h bate-papo com diretor e curadores
18h30 programa 2

quinta 22 de abril
18h programa 3
20h bate-papo com diretor e curadores
20h30 programa 4

sexta 23 de abril
18h programa 5
20h bate-papo com diretor e curadores
20h30 programa 1

sábado 24 de abril
16h programa 2
18h programa 3

domingo 25 de abril
16h programa 4
18h programa 5



Programa 1

Gato (assista ao trailer do filme)
Joel Caetano, 2009, 23 min, São Paulo (SP)
Muito sangue neste conto de terror e suspense sobre um homem e um gato.

A Bruxa do Cemitério 2 (assista ao
trailer do filme)
Semi Salomão, 2009, 83 min, Apucarana (PR)
Dante, o primogênito de uma família do campo, é atormentado e manipulado por uma bruxa que foi morta injustamente. Ela quer que o rapaz atraia pessoas a um vale ? onde serão vítimas de forças sobrenaturais.

Programa 2

Chupa-Cabras
Rodrigo Aragão, 2005, 12 min, Guarapari (ES)
Um homem, vítima de sequestro, se vê perdido em uma floresta e logo descobre que não está sozinho: o Chupa-Cabras está à espreita.

Morgue Story, Sangue, Baiacu e Quadrinhos (assista ao
trailer do filme)

Paulo Biscaia Filho, 2009, 78 min, Curitiba (PR)
Quadrinista de sucesso, mas frustrada em seus relacionamentos, Ana Argento conhece dois homens solitários: Tom, vendedor de seguros de vida que sofre de catalepsia, e Daniel Torres, médico legista, sociopata e estuprador com um método de crime bem peculiar.

Programa 3

Doutor Ekard
Marcos Bertoni, 2002, 18 min, São Paulo (SP)
Uma palestra sobre parapsicologia, hipnose e autoajuda é ministrada com fins duvidosos.

Coronel Cabelinho vs. Grajaú Soldiaz
Pepa Filmes, 2001, 80 min, Rio de Janeiro (RJ)
Filho de diplomata é assassinado pela gangue Grajaú Soldiaz. A imprensa cobra resultados e a polícia está acuada. A solução é trazer de volta o policial mais ?hardcore? da ditadura mil itar , Cor onel Cabelinho.

Programa 4

Aparências
Liz Marins, 2006, 8 min, São Paulo (SP)
Uma garota bela, loura e preconceituosa passa por sinistras experiências ao voltar da escola à noite.

Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado [Recut] (assista ao
trailer do filme)
Felipe M. Guerra, 2001-2009, 90 min, Carlos Barbosa (RS)
Sátira e homenagem aos filmes de horror adolescente dos anos 1990, que resgatavam um subgênero muito popular na década de 1980: o slasher movie ? caracterizado pela presença de psicopatas do sexo masculino que matam adolescentes.

Programa 5

O Massacre da Espada Elétrica
Gerson Castilho, Lucio Gaigher, Merielli Campi e Rodolfo Arrivabene, 2008, 15 mi n, Guarapa ri (ES)
Muhamed Aki Haul é um garoto palestino, gordo e desajeitado que mora no Brasil. Na escola, sofre bullying - é isolado e alvo de piadas e chacotas. O "Pequeno Mamute", no entanto, resolve se vingar das humilhações diárias. Para tanto, conta com a ajuda de "Mestre Coruja", guru em forma de espada elétrica.

O Show Variado
Simião Martiniano, 2008, 40 min, Jaboatão dos Guararapes (PE)
Comédia e artes marciais estão presentes nesta série de esquetes, cujos personagens são, entre outros, um doutor e um delegado maluco.

Cyberdoom (assista ao
trailer do filme)
Igor Simões Alonso, 2009, 40 min, São Paulo (SP)
São Paulo, 2054. A água é escassa e há novas doenças. A cidade foi dividia em bairros fechados para controle da população. A gangue Os Co letores busca um antídoto contra os d iversos vírus: a Bioágua, vendida a preços exorbitantes pelo monopólio de empresas.


Itaú Cultural - Sala Itaú Cultural Avenida Paulista 149 - Paraíso - São Paulo - SP (próximo à estação Brigadeiro do metrô)

informações 11 2168 1777 /
11 2168 1777 atendimento@itaucultural.org.br
entrada franca - ingresso distribuído com meia hora de antecedência

Não recomendado para menores de 14 anos

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Lobisomens Sobre Rodas (Werewolves on Wheels - 1971)



Imagine um bando de motoqueiros cruzando as rodovias desoladas que cortam o deserto norte-americano e arrumando brigas e confusões por onde passam. Junte a isso uma trilha sonora no estilo Steppenwolf (aqueles cabeludos que tocavam Born to be Wild). Tempere isso tudo com sexo, drogas e muita porrada, daquelas tipo briga de bar. Se pensou em Sem Destino (Easy Rider), a grande contribuição do doidão Dennis Hopper para o cinema, errou feio!

Pra ficar mais fácil adivinhar, que tal acrescentar a essa mistura alguns rituais satânicos bem senso comum e lobisomens? Se não sacou ainda, estou falando do inacreditável Lobisomens Sobre Rodas (Werewolves On Wheels/1971). Produção tão cretina que é imperdível, digna de figurar na prateleira de qualquer maníaco por filme vagabundo, dirigida por um certo Michel Levesque – que tem no currículo passagem como diretor de arte de alguns sexploitation de Russ Meyer (como Up! e Supervixens); e de um filme da série Ilsa (Ilsa, Harem Keeper of the Oil Sheiks/1976).

O filme trata de um grupo de motoqueiros, The Devil Advocates que, uniformizados com seus jaquetões, raybans e bandanas, atravessam uma estrada poeirenta, encontram um estranho monastério ornamentado por grande cruz com chifres. São recebidos pela congregação de monges que vive no local e seu sumo-sacerdote. Colocados fora de ação por uma bebida servida pelos anfitriões, não se dão conta que uma das garotas – Helen -, em transe, é levada pelos monges e consagrada a Satã, dançando pelada com cobras e caveiras. Adam, o líder dos cabeludos desperta e dá por falta da menina, alertando os outros. Eles fazem então o que sabiam melhor: quebram tudo e dão porrada em todo o mundo.

Daí em diante, temos alguns conflitos entre os delinqüentes e as inevitáveis mortes causadas por algo que a falta de recursos para efeitos especiais não mostra. Acabamos sabendo que a responsável era Helen que, sob efeito da missa negra, vira lobisomem e ataca seus companheiros. Uma das vítimas é Adam, que se torna também um monstro (mais cabeludo ainda). O ponto alto do filme (é difícil segurar o riso nessa parte) é quando, após a luta entre o casal de licantropos e o resto dos motoqueiros, Adam foge em sua moto: um lobisomem muito fajuto montando numa Harley e saindo cantando pneus enquanto os outros o perseguem levando tochas.

Realizado pouco depois da histeria causada pelos assassinatos cometidos pela família Manson, que reverteu a nova era de paz e amor apregoada pela geração hippie, Lobisomens Sobre Rodas explora as sombras que eclipsavam a Era de Aquário, com seus assassinos seriais, guerras e violência. Conservador, como em geral são as produções exploitation, mostra o sexo de forma negativa, assim como modos de vida alternativos e práticas ocultistas. Refletindo de certo modo também a imagem passada tanto pelos arautos das seitas pagãs – como Szandor Anton LaVey da Igreja de Satã – e dos grupos de motoqueiros como Hells Angels (que pouco antes tinham se envolvido num crime de morte durante o concerto dos Rolling Stones em Altamont, registrado pelas câmeras dos irmãos Maysles para o filme Gimme Shelter/1970).


Confira o trailler dessa pérola do exploitation abaixo:


http://www.youtube.com/watch?v=nVe8SlUcr6I&NR=1

terça-feira, 6 de abril de 2010

Antes tarde do que nunca!!! - Górgonas (2004)



Com algum atraso, retomo as postagens. Algumas vezes, infelizmente, fica difícil manter a regularidade. Mesmo assim, antes tarde do que nunca! Vamos lá, então.

Gorgonas é um curta de animação argentino de 2004, que atualiza o mito grego com muita criatividade, graças ao trabalho do diretor Salvador Sanz. Não vou me deter, neste momento, no cinema argentino, de que sou fã (e tem dado um banho no que andam fazendo por aqui). Muito menos nos quadrinhos, que conheci há cerca de um ano atrás in loco, e quase causaram sobrepeso na minha bagagem. Mas é importante ressaltar o modo como Sanz uniu essas duas manifestações artísticas – que se complementam- com muita habilidade, utilizando o tema tirado da mitologia para discutir assuntos bem atuais, como a massificação e a música pop.

As górgonas, na história original, eram as irmãs Esteno, Euríale e Medusa, filhas de Fórcis e Ceto, que moravam nas proximidades do Hades (o Inferno dos gregos antigos). De acordo com o relatado, eram figuras monstruosas, com vasta cabeleira de serpentes e dentes agudos. Quem trocava olhares com essas beldades era petrificado. A mais feroz das três, Medusa, foi morta pelo heróico Perseu, como pode ser conferido no filme Fúria de Titãs (Clash of the Titans/1981), que tem como ponto alto as criaturas criadas pelo grande artífice dos efeitos especiais Ray Harryhausen. Anteriormente o monstro também foi tema da produção da Hammer Films A Górgona (The Gorgon/1964).

A animação de Sanz (que também desenha comics em sua terra natal) confere novo contexto ao mito. A trama desenvolvida com dinamismo começa em meio ao conflito. Um jovem gordinho se aproxima do prédio da faculdade de direito e ciências sociais de Buenos Aires armado com uma pistola e um espelho. Ele se esgueira por entre diversos corpos petrificados, alguns já despedaçados no chão. A ele se junta uma espadachim vesga, aparentemente com o mesmo objetivo ainda não explicado, mas já subentendido. Ao mesmo tempo, um grupo militar de elite desce de um helicóptero com armamento pesado, seguindo na mesma direção. Um flashback corta a narrativa, contando a origem da situação na qual mergulhamos: um trio de meninas que se lança na carreira musical, fazendo estrondoso sucesso no show business. Elevadas a categoria de mega-estrelas, contraem uma singular doença durante uma turnê, que faz com que se tornem seres medonhos semelhantes às górgonas da lenda. Com seus poderes, conseguem petrificar não só os que as vêem diretamente, mas também através dos aparelhos de tv. A conclusão você pode conferir abaixo, nos links que direcionam ao filme, dividido em duas partes no youtube.

O filme, bastante elaborado e com impecável trabalho gráfico, em alguns momentos traz à memória as narrativas da revista Heavy Metal, além – é claro – da influência do artista argentino Oesterheld, destacando o inigualável El Eternauta. Sua construção remete aos thrillers de suspense ambientados em universos fantásticos, com enquadramentos e efeitos de iluminação que reforçam a atmosfera lúgubre e ameaçadora.


Parte 1 - http://www.youtube.com/watch?v=S0Cv0N-Gycs


Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=QbQG3siqRmg

terça-feira, 16 de março de 2010

Graveyard Alive: A Zombie Nurse in Love (2003)



Em 1968 George A. Romero reinventou os zumbis em seu A Noite dos Mortos Vivos (The Night of the Living Dead). Desde então, foram em parte deixados de lado os velhos paradigmas que pontuavam a aparição dessas criaturas nos filmes de horror, atrelados a algum tipo de manifestação sobrenatural – no caso feitiços e vodus. A partir de então o zumbi se tornou sinônimo de contágio, da manifestação de algum tipo de praga ou degeneração da ciência humana através de experimentos mal sucedidos. Inspiração que o próprio Romero assume ter tirado do romance do escritor Richard Matheson “A Última Esperança da Terra”, em que uma pandemia transformou os habitantes do planeta em algo semelhante a vampiros. Obra que, adaptada para o cinema, rendeu três produções: Mortos que Matam (The Last Man on Earth /1964), A Última Esperança da Terra (The Omega Man /1971) e Eu sou a Lenda (I Am Legend /2007), respectivamente com Vincent Price, Charlton Heston e Will Smith como o sobrevivente Robert Neville (ou Morgan, no filme de 1964). O fato é que A Noite dos Mortos Vivos superou a idéia que o inspirou, gerando através das décadas seguintes uma proliferação de filmes de zumbis em todos os continentes, de forma amadora ou profissional, com vários níveis de orçamento. Por sua vez, os mais divertidos e criativos acabam sendo os que – de certo modo seguindo a cartilha do patriarca Romero – são produzidos de modo independente.

Dentre estes, chamou-me a atenção o criativo e bem humorado Graveyard Alive (2003) – título pomposo que tem menos a ver com o filme do que o subtítulo (este sim bem bolado e irresistível) A Zombie Nurse in Love.

Produção canadense dirigida por Elza Kephart, conta a história de Patsy Powers, uma enfermeira feiosa e desengonçada que alimenta secretamente uma paixão pelo Dr. Dox, o médico bonitão, popular entre as funcionárias do hospital. Deslocada em seu ambiente de trabalho, acaba mordida na mão por um paciente que é hospitalizado com uma doença degenerativa muito estranha. Rodado em preto e branco para parecer aquelas fitas B de ficção científica dos anos 1950, também conta com um apresentador que, à maneira de Criswell (astrólogo e canastrão que atuou nos filmes de Ed Wood), introduz o filme. A narrativa é folhetinesca, dividida em capítulos introduzidos por intertítulos espirituosos, que dão uma idéia do que vai acontecer no segmento seguinte (uma referência também aos antigos seriados do cinema).

Patsy, contaminada pela mordida, logo descobre estranhas mudanças no seu corpo. Sinais de rigor mortis aparecem, dificultando que movimente seus dedos, e sinais de decomposição surgem em sua pele. Também é arrebatada por um voraz apetite por carne humana, que começa a saciar nos cadáveres do necrotério do hospital, chegando a matar alguns pacientes desenganados para alimentar-se. O que faz com que sejam revertidas temporariamente as marcas da morte em seu corpo e desperte sua libido, aumentando o apetite sexual. Agora sedutora (um bom trabalho de caracterização da atriz Anne Day-Jones), chama a atenção do Dr. Dox (Karl Gerhardt) e os ciúmes da noiva do jovem médico, a enfermeira Goodie (a bela Samantha Slan), que sonha ser promovida a enfermeira-chefe. Esta descobre, nas anotações de um funcionário morto e devorado por Patsy (ex-médico russo expatriado), informações sobre a doença zumbi (no caso seria uma bactéria) e logo associa aos recentes acontecimentos no hospital e ao novo comportamento de sua rival.

Não é novidade para os freqüentadores do blog que estamos diante de um filme tosco, de baixíssimo orçamento e com inacreditáveis atuações (com exceção da intérprete da protagonista). O que só torna o filme mais saboroso. Elza Kephart soube com maestria utilizar essas dificuldades em seu favor, criando uma obra saborosa e com eficiente andamento. Parte disso graças ao roteiro bem amarrado que elaborou com Patrícia Gomez. Graveyard Alive é um daqueles raros momentos (tudo bem, posso estar até empolgado) no cinema atual em que o frescor das velhas produções de monstros e cientistas malucos dos tempos da brilhantina cruza com a picardia que encontrávamos na filmografia menos cotada do gênero na década de 1980 (Troma, Full Moon, etc.), sem muitas complicações dramáticas. Mas com um tempero e descontração bem atual. Só faltou um pouquinho de sacanagem.

terça-feira, 9 de março de 2010

Dentes, peitos e kung fu - Hammer Films - Parte 4.


Terminando esse brevíssimo histórico da Hammer, no início dos anos 1970 as companhias inglesas – encabeçadas por ela e sua concorrente, Amicus – já estavam em declínio, mas ainda tinham algum fôlego. Ambas acabaram se perdendo em produções caça-níqueis que repetiam velhas fórmulas e não se adaptaram aos novos direcionamentos do público. A Hammer investiu no horror gótico até meados daquela década, produzindo, de modo semelhante à Universal, filmes em série com seus personagens principais, enquanto a audiência minguava.

A busca por reencontrar seu público, se adaptando aos novos tempos, resultou em uma série de tentativas fracassadas e desencontros. Enveredou pelo sexploitation, com um aumento considerável do sexo e da violência. Os decotes aumentaram e a nudez frontal feminina pronunciou-se. Vampirismo e lesbianismo entraram na ordem do dia, representados pela trilogia de filmes baseados no romance Carmilla, de Sheridan Le Fanu: The Vampire Lovers (1970), dirigido por Roy Ward Baker; Luxúria de Vampiros (Lust fora a vampire /1971) com a apetitosa dinamarquesa Yutte Stensgaard e, fechando a trilogia, o atmosférico As Filhas de Drácula (título brasileiro para Twins of Evil), dirigido por John Hough, do mesmo ano. Condessa Drácula (Countess Dracula, também de 1971) é outra tentativa dentro dessa linha, re-interpretando a história da notória Condessa Bathory, interpretada por Ingrid Pitt, a Carmilla de The Vampire Lovers.

A Hammer também tentou, infrutíferamente, adaptar seu personagem principal, o Conde Drácula, aos dias de hoje, transportando o velho vampiro para a swinging London do início dos anos 70 em Drácula no Mundo da Minissaia (Dracula A.D. 1972) e Os Satânicos Ritos de Drácula (Count Dracula and his vampire bride/1973), já comentado no blog. Iniciativa desencorajada pelo roteirista Anthony Hinds, que recusou-se a escrever a história e desaprovada pelo astro Christopher Lee, já descontente com os rumos que o personagem tomava.

O golpe definitivo para os vampiros da Hammer não foram as cruzes ou as estacas de madeira, mas o fracasso (mais um para acelerar a descida ao fundo do poço da companhia) da co-produção com uma empresa de Hong Kong – os Shaw Brothers - em que esperavam capitalizar o sucesso da recente onda de filmes de artes marciais popularizados no ocidente por Bruce Lee, unindo vampiros e lutadores de kung fu em The Legend of the Seven Golden Vampires ou The Seven Brothers Meet Dracula/1974. O filme traz pela última vez Peter Cushing como o caçador Van Helsing. Christopher Lee, que se recusava a interpretar novamente o conde vampiro para qualquer produção da Hammer, cedeu o papel para John Forbes-Robertson.

Restava para a companhia uma última cartada. Nos Estados Unidos um novo monstro alavancava as bilheterias usando o corpo de uma adolescente: o demônio. Com o sucesso de O Exorcista (1973) a Hammer se aventuraria a colocar também uma jovem no cerne de uma conspiração satânica em Uma Filha para o Diabo (To the Devil a Daughter /1976). Que já foi tema de uma postagem anterior.