domingo, 7 de fevereiro de 2010

Como um pequeno estúdio fundo de quintal revitalizou o horror – Hammer Films – Parte 1


No final dos anos 50, com o cinema de horror norte americano preocupado com invasões alienígenas e monstros atômicos, os velhos monstros do passado em seus castelos e cenários lúgubres eram apenas uma lembrança de tempos menos atribulados. Ainda que não definitivamente sepultados, foram apartados da cena principal pelo esgotamento de uma produção que se repetia em seqüências cada vez menos inspiradas e se arrastou pela década de 1940. Os prolíferos monstros da Universal terminaram seus dias derrotados pelo próprio estúdio que os trouxe à luz, como coadjuvantes da dupla de comediantes Abbott e Costello (Abbott & Costello Meet Frankenstein/1948). Talvez por saudosismo (ou escapismo dos novos problemas que se configuravam em um cenário mundial cada vez mais complexo e ameaçador), um passo significativo foi dado para um reencontro com o horror gótico, com a liberação para a tv dos filmes de monstros da Universal. O programa Shock Theatre (1957) tornou-se, além de um exercício de nostalgia, um meio de familiarizar a nova audiência com os personagens clássicos e seu universo, incentivando uma leva de produções baratas para a telinha.

Essa revitalização, que também ocorria em outras partes do mundo (como o mexicano El Vampiro/1957, de Abel Salazar - tema de post anterior), teve como marco principal uma pequena companhia britânica. A Hammer Films viria tornar-se sinônimo de filme de horror e referência para o que seria feito durante os anos subseqüentes, passando de linha de produção ao conceito hammer horror. Isso em um país que, apesar de exportar seus monstros para o cinema americano, não tinha tradição nesse gênero cinematográfico. Grandes monstros da literatura, como Frankenstein, Dr. Jekyll e seu alter-ego Mr. Hyde, o Conde Drácula e o Homem Invisível, como nos lembra o autor Denis Gifford (Horror Movies, Hamlyn, 1976), são todos de origem inglesa, assim como boa parte dos mais importantes intérpretes do gênero que assombraram Hollywood nos anos 30 e 40: Boris Karloff, Colin Clive, Charles Laughton, Claude Rains, Basil Rathbone e Cedric Hardwicke. Isso sem falar que as Ilhas Britânicas foram o lar de Sherlock Holmes, Jack, o Estripador, dos ladrões de cadáveres Burke e Hare, dos castelos assombrados e dos espetáculos teatrais que exploravam a violência em seus melodramas bem ao gosto vitoriano. Mesmo assim, o horror continuava praticamente ignorado na filmografia local e somente os estúdios de Hollywood perceberam que ali estava o ambiente perfeito para suas produções góticas, recriando em seus sets as ruas enevoadas de Londres e as charnecas interioranas. É interessante ressaltar que quando o Drácula de Browning estreou na Inglaterra apavorando os censores, estimulou uma pequena produção que teve como ponto alto o filme No Silêncio da Noite (Dead of Night, 1945), dividido em histórias sobrenaturais (antevendo a série de produções de horror em episódios da rival da Hammer, Amicus) dirigidas por vários diretores, entre eles o brasileiro Alberto Cavalcanti.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O Anticristo (1974)


Sempre foi uma prática comum no meio cinematográfico quando uma produção se torna sucesso nas bilheterias, a série de filmes que surgem na sua esteira servindo-se do mesmo assunto. A maior parte produções de baixo orçamento destinadas ao lucro fácil. Se Hollywood já replicava em infinitas variações sobre o mesmo tema o que via como lucrativo ou em voga (como os filmes de ficção científica e monstros dos anos 1950), esse procedimento teve período áureo na Europa na década de 1960 com os westerns spaghettis italianos, que se apropriaram da linguagem de um gênero em declínio nos Estados Unidos e a remodelaram aos padrões europeus, conferindo-lhe um caráter próprio. Com o estabelecimento do conceito de “filmes arrasa-quarteirão” na década de 1970 (contraditoriamente firmados pelos diretores da Nova Hollywood*), os europeus – notadamente os italianos – viram novos campos a explorar, como o horror com o qual tinham familiaridade pelo trabalho de pioneiros como Mario Bava e a série de giallos. Algumas dessas produções caça-níqueis acabaram se tornando interessantes graças ao caráter regional e aos artifícios utilizados para compensar os baixos recursos investidos, não raramente com bastante criatividade pelos responsáveis. É o caso de O Anticristo (L’Anticristo, 1974) de Alberto de Martino, filho bastardo de O Exorcista (1973) com O Bebê de Rosemary (1968), em que se repete, sem nenhuma cerimônia, as cenas de possessão (a levitação, o vômito verde, etc.) e a idéia de uma mulher gerando o filho de Satanás, com maior ênfase na exploração de cenas de nudez e utilização de efeitos especiais grosseiros.

No filme, Hypólita (Carla Gravina) é uma jovem paralítica devido a um acidente automobilístico causado por seu pai (o ator Mel Ferrer), um alto dignitário do Vaticano. Após várias tentativas de cura, inclusive em um centro de peregrinação – cena inicial bastante sugestiva, principalmente pelos endemoniados -, Hypólita cai nas mãos de um psiquiatra. Este crê que a paralisia é, na verdade, um bloqueio, e que suas raízes estariam em vidas passadas. Após uma sessão de regressão, a moça descobre ter sido uma bruxa acusada de heresia e queimada 400 anos atrás. Aos poucos, a consciência da feiticeira vai dominando a personalidade de Hypólita. Descobrimos que antes de ser queimada, ela tivera relações com o diabo em um sabá, e levava no ventre a sua semente. Essa seqüência - obviamente inspirada em O Bebê de Rosemary - é o ponto alto do filme, explorando a nudez e o sexo. Bem alegórica visualmente, mostra com extravagância os bruxos e bruxas participando de uma orgia na floresta enquanto Carla Gravina, nua e de peruca loura, é colocada no altar de sacrifícios. Ali é consagrada e possuída pelo demônio, sob o olhar observador de um bode. Ficamos então sabendo que Hypólita, assim como sua personalidade antecessora, estava grávida e seu filho se tornaria o Anticristo. Daí em diante a moça começa a apresentar sinais de possessão e seu tio (o veterano Arthur Kennedy), um bispo da igreja que tenta, sem efeito, exorcizá-la.

Discordo de Nikolas Schrek que, em seu livro “The Satanic Screen” considera O Anticristo o melhor imitador de O Exorcista. Na verdade, o filme de Martino vai além, conseguindo ganhar pernas próprias e até alguma originalidade a despeito da intenção da produção e da imitação descarada em determinados momentos, como os de possessão em que todos os clichês do filme de Friedkin são utilizados. A força de O Anticristo está em fugir da nova tendência de colocar o horror como um intruso na vida contemporânea e em locações como a Nova Iorque dos anos 1970. Mas ao contrário, trazer para a Roma de então pavores ancestrais, que remontam à Idade Média, com todo o peso do catolicismo em oposição, flertando com o gótico na ambientação e retomando valores desprezados do horror clássico.


(*) Sobre isso vale a leitura do livro recém lançado – antes tarde do que nunca - “Como a Geração Sexo-Drogas-Rock and Roll Salvou Hollywood”, de Peter Biskind (Editora Intrínseca).

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Uma Filha para o Diabo (1976)



Voltando das férias, retomo as postagens com mais uma pérola da Hammer.


Por mais recorrente que fosse a presença de Satã nas telas desde os primórdios do cinema, foi na década de 1960 que o príncipe das trevas se tornou astro de primeira grandeza graças, em um primeiro momento, ao filme de Roman Polanski baseado no romance de Ira Levi O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby /1968) e posteriormente ao blockbuster O Exorcista (The Exorcist /1973), de William Friedkin. Resultado de uma onda de pessimismo que começava a abalar as bases da Era de Aquário e da geração das flores. Contraditoriamente ao pregado pelos arautos do movimento hippie, de um reinado de paz e amor na terra, asdécadas de 1960-70 foram das mais violentas da história norte-americana, com o recrudescimento da Guerra do Vietnã, massacres infligidos pelas forças policiais contra manifestantes nas universidades e crimes violentos como os assassinatos de JFK, Martin Luther King, Sharon Tate e o início da onda de mortes atribuídas ao Zodíaco. Também novas formas de religiões e seitas surgiram com o apelo da “nova era”, ressucitando antigos ritos pagãos – como a Wicca - , ordens místicas – notadamente as fundadas por Blavatski e Crowley – e até mesmo elegendo um templo próprio para a adoração do demônio, como a Igreja de Satã de Szandor LaVey, fundada em 1966 em São Francisco (claro), capital do movimento hippie. Esta última liderava o movimento satanista, regado a incenso, sexo e drogas psicodélicas.

A britânica Hammer, vendo cada vez mais iminente seu “canto do cisne”, já que as últimas tentativas de capitalizar os novos modismo (como o kung fu em The Legend of the Seven Golden Vampires – 1974) não deram o resultado esperado, resolveu também fazer a sua fezinha no chifrudo (em alta graças ao filme de Friedkin) com Uma Filha para o Diabo (To the Devil a Daughter / 1976).

Novamente recorreram ao prolífero escritor Dennis Wheatley, figura importante para a popularização do satanismo no século XX através de seus romances. O estúdio inglês já colocara seu romance The Devil Rides Out, de 1935 (para o qual o autor se encontrou pessoalmente com Montague Summers e Aleister Crowley), nas telas em uma produção homônima (1968) com Christopher Lee no papel de um ocultista do bem (recaída?) enfrentando o diabólico bruxo Mocata (inspirado no mago de Thelema).

Também de autoria de Wheatley, Uma Filha para o Diabo, traz Christopher Lee como o ex-padre Michael Rayner, excomungado por heresia, que lidera uma ordem nos moldes da igreja católica devotada ao demônio Astaroth. Contra ele se interpõe o escritor de livros ocultistas John Verney (o ator norte-americano Richard Widmark), disposto a resgatar das mãos do satanista a jovem Catherine Beddows (a bela Nastassja Kinski, com 15 anos), destinada a ser o veículo do renascimento de Astaroth.

Filme que demorou para decolar por vários percalços, inclusive financeiros, acabou não sendo a redenção da Hammer. Dirigida por Peter Sykes e com elenco respeitável (além de Lee e Widmark, contava com Denholm Elliot e a bondgirl Honor Blackman) e produção competente, não consegue se aproximar da auteticidade de The Devil Rides Out. Isso a despeito da boa história de Wheatley, que tem seus momentos e da atmosfera “tão anos setenta”. Certamente pela direção frouxa de Sykes, evidente na falta de ritmo da narrativa e equívocos como o bebê demônio de borracha pintado de vermelho destruindo a assustadora cena de parto – a mais forte do filme - onde uma mulher dá à luz de forma traumática, assistida pelos satanistas. O anticlimático final, embate definitivo entre os fortes personagens de Lee e Widmark , coroa esses tropeços, deixando dúvidas se o filme realmente teria terminado. Apesar disso, as qualidades inerentes da obra (os fatores que contribuíram para a sua realização, determinadas seqüências, etc.) fazem valer a pena dar uma atenta olhada em Uma Filha para o Diabo. Com destaque para a primeira nudez frontal de Nastassja Kinski nas telas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

The Adult Version of Dr.Jekyll and Mr. Hyde (1972)



Fazendo um balanço da trajetória do blog desde o início, fico feliz em constatar que alcancei, neste 2009 que finda, minha meta de postagens regulares. Salvo alguma viagem ou compromisso profissional, semanalmente atualizei o Cinema Poeira. Compromisso que pretendo honrar no ano que se inicia dentro de poucos dias. Desejo a todos os amigos do blog um feliz natal e um ótimo 2010 pleno de realizações, aproveitando para anunciar um recesso para férias, estando suspensas as postagens até 20 de janeiro. Até lá! E nada melhor para encerrar o ano do que falar um pouco do filme que considero um dos melhores sexploitation da década de 1970.

Essa linha de filmes, no início daquela década (período que testemunhou a liberação da pornografia nas telas com Garganta Profunda) ousava cada vez mais na simulação do ato sexual, deixando de lado, em grande parte deles, apenas a penetração e ejaculação explícitas. Seus produtores tentavam manter o interesse do público quando a concorrência se tornava perigosa. Afinal, seu mercado sempre esteve atrelado ao fato de exibirem o que não podia ser mostrado. Porém, a crescente caminhada rumo ao sexo explícito, a abordagem de temas mais polêmicos e maior exploração de nudez no cinema convencional ameaçavam seriamente a sua sobrevivência.

The Adult Version of Dr. Jekyll & Mr. Hyde, produzido pelo lendário David Friedman e dirigido por Byron Mabe em 1972, é um bom exemplo deste período de transição. O sexo novamente se encontra com o horror na versão quase hardcore da história clássica de Robert Louis Stevenson, “O Médico e o Monstro”.

A introdução do filme é uma longa cena de sexo simulado entre o médico da trama, o Dr. Chris Leeder (Jack Buddliner), e sua enfermeira, Debby (Rene Bond, uma das mais atuantes atrizes do cinema sexploitation dos anos 60 e do hardcore do início da década seguinte, aparecendo em cerca de trezentos filmes e loops). São bem sugestivos os movimentos corporais de cópula, mostrando os corpos nus entrelaçados, sem nenhum embaraço na exibição da nudez frontal dos protagonistas. O que se perpetua durante todo o filme, faltando apenas o detalhe da penetração para romper a tênue barreira que o separa do hardcore.

Ao visitar uma loja de antiguidades com sua noiva, Cynthia, o Dr. Leeder (que nutre pela moça um interesse puramente financeiro) descobre o livro de anotações do notório Dr. Jekyll. Disposto a conseguir tão raro objeto, Leeder retorna à loja mais tarde, estrangulando o proprietário diante de sua recusa em vender-lhe o livro.

O médico torna-se obcecado pela história de Jekyll e seu perverso alter ego, Mr. Hyde. Alguns de seus crimes são mostrados em flash back, o mesmo Buddliner interpretando Hyde, exageradamente caracterizado como maníaco sexual, percorrendo, de cartola, capa e bengala, as ruas de uma nada convincente Londres vitoriana. Em um deles, a vítima é uma prostituta. Hyde chicoteia brutalmente a mulher, deixando marcas por todo o corpo. Logo em seguida amarra a mulher na cama e passa a acariciá-la, evidenciando a submissão da prostituta aos seus desejos antes de seu brutal assassinato.

Leeder acaba preparando a famosa poção, seguindo as instruções contidas no livro de Jekyll. Após a dolorosa transformação, algo parece ter dado errado: no lugar de uma cruel versão de si mesmo, o médico transforma-se – nítida inspiração no filme da Hammer O Médico e a Irmã Monstro (Dr. Jekyll and Sister Hyde, 1971) – em uma sedutora mulher. Miss Hyde (Jane Tsentas) surge de modo irreverente, com seus grandes seios rompendo a camisa de Leeder. Miss Hyde é uma perigosa ninfomaníaca, tão letal quanto seria seu correspondente masculino. Ela protagoniza a cena considerada a mais infame do filme, ao castrar um marinheiro que seduz em um bar, após ele satisfazê-la em um beco escuro.

The Adult Version of Dr, Jekyll and Mr. Hyde é cinema sexploitation em sua melhor forma, e, apesar de seu baixo orçamento, precariedade narrativa e deficiências técnicas, se mantém como um dos poucos filmes que conseguiram juntar horror e sexo, rompendo os seus limites. De certa forma, em muito lembra grande parte dos filmes pornôs do início dos anos 70, com cenas de sexo intensas amarradas por histórias sem grandes pretensões, mas repletas de criatividade. De qualquer forma, não interessa procurar grandes significados em The Adult Version of Dr, Jekyll and Mr, Hyde. Basicamente, o que importa nesta produção é o sexo e a violência, fatores que o tornaram representativo dentro do gênero.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Love Camp 7 (1968): pioneiro do nazi-exploitation.


Um dos mais notórios e bem sucedidos sexploitation de 1968 foi um filme que começava com um aviso: “Você não vai viver o suficiente para se esquecer dos eventos que irá testemunhar e experimentar em Love Camp 7”.

Fruto da parceria entre o produtor Robert Cresse e o diretor Robert Lee Frost – um expert em cenas de sadismo -, Love Camp 7 pode ser considerado o principal precursor do que viria a ser a vertente do nazi-exploitation, ou seja, filmes que se utilizavam do estereótipo dos nazistas pervertidos e sádicos sexuais para explorar as mais sórdidas formas de degradação humana. Na verdade, a essência do nazi-exploitation é o fetichismo e as relações sadomasoquistas entre dominantes e dominados, sendo os infames campos de concentração nazistas o cenário ideal para o desenrolar de suas tramas.

Em Love Camp 7, duas jovens tenentes americanas se oferecem como voluntárias para tentar resgatar uma cientista judia aprisionada em um campo de concentração feminino. O local, porém, tinha uma característica peculiar: fazia parte de uma categoria de campos onde as prisioneiras se prostituíam para os soldados e oficiais alemães. Logo ao chegar, são avisadas de sua insignificância e de que, a partir daquele momento, seus corpos e mentes pertenciam ao terceiro reich. O filme passa, então, ao seu propósito principal, utilizando como pano de fundo um período trágico da história da humanidade para exibir a nudez – inclusive frontal - das mulheres cativas e toda uma série de torturas sexuais, em geral infligidas pelo sádico comandante do campo (o próprio diretor Frost). As técnicas de tortura são bastante convincentes, a começar pelo desnudamento forçado, para constranger e evidenciar a situação indefesa das prisioneiras, passando pelo brutal exame ginecológico realizado por uma médica hostil e masculinizada sobre a mesa do comandante. O fetichismo do vestuário nazista (principalmente os uniformes negros dos esquadrões SS) começa a ser utilizado, em sintonia com a crescente estetização do sadomasoquismo nessa linha de filmes. Um exemplo claro da exploração dessa tendência é quando uma prisioneira, tendo quebradas as suas resistências sob tortura, é obrigada a lustrar com a língua o coturno do oficial em comando. A visão dos corpos de mulheres com as marcas da violência (vergões vermelhos dos açoites) também é bastante sugestiva. Contudo, Love Camp 7 ainda é tímido ao não apresentar, mesmo sugestivamente, mutilações, resultados de experiências médicas (elas são citadas de passagem) e torturas mais explícitas como introduções de objetos, utilização de instrumentos como ferros em brasa, alicates, etc. Mas não demoraria muito para isso acontecer. Afinal, o nazi-exploitation estava apenas começando.


Para saber mais, texto de minha autoria:


"Sexo, suástica e sadismo: nazi-exploitation". Estudos Socine de Cinema, ano IV. São Paulo: Editora Panorama, 2003.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Quem tem medo de fantasma? - Umas palavrinhas sobre Atividade Paranormal.



Em tempos de Atividade Paranormal, (Paranormal Activity) produção de horror e fenômeno de marketing alardeado como sucessor da Bruxa de Blair (The Blair Witch Project /1999) que tem lá seus momentos (afinal, que não fica aterrorizado com a idéia de ser assombrado e perseguido por uma entidade sobrenatural hostil?) e termina mal resolvido, algumas coisas devem ser relevadas. Em primeiro lugar, como sabemos, fantasmas não são novidade nas telas. Sendo que na década de 60 foram produzidos os dois mais emblemáticos filmes sobre casas mal assombradas e atividades paranormais, que rapidamente citei anteriormente quando fiz minha postagem sobre A Casa da Noite Eterna (The Legend of Hell House / 1973). São Os Inocentes (The Innocents/1961) e Desafio do Além (The Haunting/1963). Ambos adaptados de sofisticadas e ambíguas obras originais: Os Inocentes de A Volta Do Parafuso, de Henry James e Desafio do Além de A Assombração Da Casa Da Colina, de Shirley Jackson.

As duas produções - bem distintas uma da outra - apresentam alguns pontos em comum. Um deles é o fato de que tanto Jack Clayton em Os Inocentes, quanto Robert Wise em Desafio do Além, enfatizam através de uma construção psicológica bastante apurada,a repressão sexual dos personagens que, em parte, se converteria nos fantasmas que os assombravam. Outro aspecto comum é a discrição em revelar os fantasmas. Ficamos o tempo todo na dúvida se realmente há algum ou se estamos testemunhando projeções de mentes confusas e problemáticas. Também nas duas realizações foi cuidadosamente construída uma apreensiva atmosfera, pesada e obscura, onde realmente um fantasma gostaria de perambular.

Talvez o que falte às novas produções - essa ambigüidade envolvendo as manifestações sobrenaturais, a caracterização psicológica mais aprofundada dos personagens e o saber como contar uma boa história - seja compensado pelo o atrativo que esse formato de falso documentário exerce sobre o público (aí incluída a geração you tube), que pode se sentir mais próximo do retratado por uma aparente imersão na “vida real”. O que é reforçado pelo caráter independente, o evidente baixo orçamento e a cara de pau na simulação de tomadas domésticas, sustentadas por um cast de desconhecidos. Estes colocados em situações cotidianas que criam uma crescente atmosfera de medo pontuada por sustos e relação forte com as expectativas do espectador acerca do registro e constatação de vida após a morte. As mesmas expectativas – nunca realmente satisfeitas, diga-se de passagem - excitadas pelas supostas fotos espíritas ou filmagens em que surgem vultos ou luzes misteriosas. No que Atividade Paranormal é bem sucedido ao trazer para bem perto esse universo de confronto com o desconhecido, com o mundo invisível que nos cerca – de acordo com as teorias espíritas – e sua interação nem sempre bem vinda com os vivos. Dentro dessa premissa, ainda que possamos ligar Atividade Paranormal a filmes como A Bruxa de Blair (ou o menos conhecido O Mistério de St. Francisville/The St. Francisville Experiment - 2000) pelo modelo como são feitas as tomadas, vejo como a grande fonte de inspiração temática outro tipo de documentário, mais tradicional no formato, que pode ser visto há alguns anos em canais por assinatura. Como Ghost Hunters do Sci-Fi Channel e, notadamente, Assombrações (A Haunting), série exibida no Discovery Channel onde pessoas comuns são envolvidas em situações assustadoras ocasionadas por entidades maléficas, iniciada em 2002 com o aterrorizante docudrama Assombrações em Connecticut (A Haunting in Connecticut). Muito mais eficiente do que a produção recente Evocando Espíritos (The Haunting in Connecticut / 2009) sobre o mesmo caso.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

I'll see you in my dreams - zumbis portugueses com certeza!


Não faz muito tempo que comprei o DVD importado Small Gauge Trauma contendo uma coletânea de curtas de horror de diversos países, dentre eles o premiado Amor só de mãe, do Dennison Ramalho. Dentre todos, o que mais chamou minha atenção foi uma produção portuguesa com o estranho título em inglês I’ll see you in my dreams. Curioso, principalmente pela escassez de filmes do gênero na terra de Camões. O único que me vem à memória é o soturno e ótimo Coisa Ruim (2006) de Tiago Guedes e Frederico Serra, recentemente exibido por um canal de TV por assinatura que não me recordo.

I’ll see you in my dreams é mais antigo, dirigido por Miguel Angel Vivas em 2003, premiado no Fantasporto e constantemente referido como “o primeiro filme de horror português” – algo que não confirmo por falta de maior conhecimento da cinematografia lusitana.

O curta reforça a influência de Romero e dos filmes de zumbis (olha eles aí de novo!!!!) na nova geração de cineastas. Tanto que nos créditos é incluído um agradecimento formal não só ao diretor de A Noite dos Mortos Vivos como a Lucio Fulci, Peter Jackson e Sam Raimi. A história se passa em uma aldeia assolada por uma praga inexplicável que faz os mortos vagarem pelo local atacando e comendo os vivos. O único com coragem para enfrentá-los é um trabalhador rural, meu xará, que armado elimina os que encontra pela frente. Como pode ser visto na seqüência de abertura passada em um bosque. Lúcio acaba se envolvendo com Nancy, a garçonete da taverna local, onde os estranhos e desanimados moradores se reúnem. Ele leva a jovem para casa onde esconde um terrível segredo: sua mulher fora afetada pela praga e transformada em zumbi, sendo mantida cativa. Justamente naquela noite, enquanto tira o atraso com Nancy, a esposa faminta se liberta e desencadeia uma seqüência de horrores.

I’ll see you in my dreams (título também da música tema, a cargo da banda de heavy metal portuguesa Moonspell) é bastante eficiente em sua proposta de unir humor negro como horror, concretizada pelas cenas de sangue-e-tripas realizadas com bastante apuro técnico e o ótimo trabalho de maquiagem dos zumbis. A produção também tem o mérito de conseguir desenvolver uma trama bem consistente e dinâmica em seus parcos vinte minutos, com trabalho de fotografia exemplar e enquadramentos instigantes, tendo potencial para ser ampliado para o formato longametragem. Afinal, fica devendo maior aprofundamento na história do vilarejo, da praga zumbi e dos personagens, notadamente os principais: o caçador de mortos Lúcio, sua mulher Ana e a amante Nancy, defendidos respectivamente com garra pelos atores Adelino Tavares, Sofia Aparício e São José Correia (também achei estranho, mas é o nome da moça, que se vai fazer?). Prepare-se para a seqüência final, aterrorizante.


Assista ao trailler:

http://www.youtube.com/watch?v=PPK6nk5Jj5E


Veja o videoclip do Moonspell com a música título:

http://www.youtube.com/watch?v=Z_RdYmK90O0