quarta-feira, 17 de junho de 2015

Uma breve resenha sobre "Conversações com R. F. Lucchetti", de Rafael Spaca.



Foi uma longa pausa nas postagens do Cinema Poeira, iniciado em 2008. Mas blog é assim mesmo… algumas vezes a falta de tempo prejudica a continuidade, outras vezes a falta de saco… mas enfim… Eis que estamos de volta. Sem promessas de postagens regulares, diga-se de passagem. Promessas são feitas para serem quebradas. As publicações serão feitas de acordo com o tempo disponível e conforme for sendo instigado a escrever.

Como me instigou a recente leitura do livro de Rafael Spaca, “Conversações com R. F. Lucchetti” (Editora Verve, 2015), onde o autor expõe e compartilha suas entrevistas com o prolífico escritor. Considero essa leitura um retorno às origens (combinando com o reinício do blog), o que  merece uma explicação: lendo o prefácio, chamou a minha atenção - conforme o próprio Spaca comenta - ter tomado conhecimento de Lucchetti antes mesmo de assistir aos filmes de José Mojica Marins e Ivan Cardoso, cineastas que tem como alicerces do melhor que fizeram (na minha opinião) os roteiros do escritor. De modo semelhante ao de Spaca (e guardada a diferença de gerações), também tive contato com a imaginação fértil de Rubens Lucchetti antes ter visto alguma coisa dos cineastas citados. 
Durante a minha infância nos anos setenta, já aficionado pelo horror, conhecia de nome e tinha alguma familiaridade com Zé do Caixão. Não era para menos, afinal, a sinistra figura vestida de exu era presença frequente em jornais, revistas, e programas de televisão. Mojica sempre alardeou seu personagem aos quatro ventos, com seu tino sensacionalista, em iniciativas que nem sempre tiveram resultados bem sucedidos. Mas dificilmente eu conseguiria ver algumas de suas produções "impróprias para menores de 18 anos" em algum cinema do Rio de Janeiro naqueles anos de chumbo, com fiscais do juizado de menores vigiando os bilheteiros. Só tive acesso aos filmes de Mojica quando apareceram em VHS. No caso de  Ivan Cardoso, só vim a tomar conhecimento quando O Segredo da Múmia (1982) foi lançado.
Mas Lucchetti eu conhecia (com o R. F. que assinava e depois vim a saber o significado) das revistas em quadrinhos de horror que comprava apesar dos esforços maternos para impedir, já que não devia ser saudável para uma criança ler tais coisas. Mesmo assim, a cada ida ao jornaleiro, dava um jeito de, entre os gibis da turma da Mônica e dos patos Disney,  voltar com os quadrinhos de horror de editoras como Edrel, Taika, e posteriormente Bloch, RGE e Vecchi. Na época não me interessavam os super-heróis. Assim fui me familiarizando com as histórias criadas por Lucchetti e outros escritores que davam ao universo clássico do horror novas interpretações, resultando em narrativas gráficas ilustradas por desenhistas do calibre de Eugenio Colonnese, Rodolpho Zalla e - para mim o maior de todos, dono de um traço único - Nico Rosso. Artista responsável por um dos mais icônicos semblantes de Dracula nos quadrinhos e pelas mais belas e curvilíneas personagens femininas das hqs nacionais. Posteriormente também vim a descobrir que os livrinhos de bolso que colecionava da série Trevo Negro, editada pela Cedibra, também contavam entre seus títulos com textos de Lucchetti,  devidamente assinados com pseudônimos estrangeiros.
Em “Conversações com R. F. Lucchetti”, como o próprio título define, Rafael Spaca organiza as entrevistas que realizou, dando voz ao escritor e permitindo transparecer uma personalidade forte e honesta, de firmes opiniões e convicto do que diz. No prefácio, o próprio Lucchetti faz um curto inventário autobiográfico e fala de sua relação com o entrevistador e amigo. Spaca, por sua vez, em rápida introdução, relata como soube de Lucchetti, seu primeiro contato e como ocorreram as entrevistas que geraram o livro.
No decorrer das cerca de 160 páginas, o escritor  vai relembrando passagens de sua juventude e o início da vida profissional. Relata o apreço pelos livros, revistas em quadrinhos e pelo desenho, através dos quais “exercitava a imaginação” e o autodidatismo com que construiu sua vasta carreira de escritor, sobre a qual discorre brevemente. Destaca os seriados radiofônicos, seu início na televisão e os curta-metragens que realizou no início da década de 1960. Também fala de sua relação algumas vezes difícil com José Mojica Marins, tanto na revista “Estranho Mundo de Zé do Caixão”, criada com o inesquecível Nico Rosso, quanto nos programas de televisão e filmes, alguns dos quais não figurou como roteirista nos créditos. Esclarece alguns fatos dessa parceira e reforça outros já levantados por André Barcinski e Ivan Finotti na biografia  “Maldito: a Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão” (1998). Por fim, é incluída uma filmografia atualizada por seu filho, Marco Aurélio Lucchetti.
Não consegui largar “Conversações com R. F. Lucchetti”, que vem complementar outros trabalhos relevantes publicados em livros inteiramente dedicados ao escritor e sua obra (não estou computando aqui os inúmeros artigos em jornais, revistas, etc.). Sendo, entre os consultados, o livro onde ele mais falou de suas experiências no cinema e na televisão. Confesso ter sentido falta de mais espaço para a sua contribuição nos filmes de Ivan Cardoso (com quem foi co-autor do livro “Ivampirismo; o Cinema em Pânico”, lançado pela EBAL em 1990 ) e seu trabalho como roteirista de histórias em quadrinhos de terror. O que de modo algum desmerece o trabalho de Spaca que, sem dúvida, cumpre a pretensão (como diz na introdução) de “fazer justiça histórica” com um escritor que “paga por ter nascido no Brasil”.



Vale citar e deixar como referências para leituras, os outros trabalhos citados no parágrafo acima, que vão lançar outras luzes sobre a obra e trajetória do escritor. São os livros “Rubens Lucchetti, Nico Rosso”, organizado por Edgard Guimarães (edição do autor, 1994), e “Rubens Francisco Lucchetti o homem dos 1000 livros” (Com-Arte, 2008), de Jerusa Pires Ferreira.
“Rubens Lucchetti, Nico Rosso” surgiu  dos contatos entre Lucchetti e o organizador Guimarães entre 1989 e o início da década seguinte. O escritor queria uma edição que homenageasse Nico Rosso, compilando histórias desenhadas pelo artista, que seriam complementadas por alguns trabalhos inéditos. Esforçado fanzineiro, Guimarães respondeu que poderia fazer uma edição amadora, de baixa tiragem por falta de recursos para bancar projetos mais ambiciosos. Ao fim, após trocas de correspondência, uma breve interrupção, e o envio de material precioso por Lucchetti (como os quadrinhos destinados à editora Edrel), três anos depois o excepcional livro foi concluído e distribuído de forma independente.  Intercalando histórias em quadrinhos com entrevistas e textos de autoria de Marco Aurélio Lucchetti, Gonçalo Junior, Fábio Santoro, Vasco Granja, Rudolf Piper, Jaime Rodrigues, entre outros, é uma obra sem igual na literatura sobre quadrinhos brasileiros, resultado de esforço e dedicação, e que merece uma reedição caprichada.



“Rubens Francisco Lucchetti o homem dos 1000 livros”, assim como o trabalho de Rafael Spaca, é resultado de uma entrevista feita com o escritor em maio de 1999 pela professora Jerusa Pires Ferreira, transcrita e organizada em forma de livro. Desta vez mais voltado ao seu exercício da escrita. É centralizado nessa atividade que Lucchetti traça a sua jornada de vida, mostrando não só sua maneira de trabalhar, como o conhecimento profundo que possui de literatura e dos paradigmas das histórias de horror e mistério. Escritor popular e o grande exemplo do pulp brasileiro, Lucchetti fala dos livros sob encomenda que escreveu para diversas editoras (tendo enriquecido seus editores) e dos diversos pseudônimos - tanto masculinos como femininos - que criou. Cada um de acordo com uma linha editorial, gênero ou título (inclusive de teor esotérico, como o notório “Livro de São Cipriano”). É um dos pontos altos do livro o modo como trata o processo de heteronímia que desenvolveu revestindo de credibilidade esses “autores”.
Resta aguardar e torcer para que algum dia essas histórias escritas por Lucchetti sob as mais diversas identidades sejam compiladas em um grande volume. Na entrevista para Jerusa ele fala rapidamente estar reunindo uma grande parte dessa produção de temas fantásticos num livro que se chamaria  sugestivamente “Longe da Luz”. Bem, a entrevista é de 1999… quem sabe agora, com o Catarse e outras formas de disponibilização, novas possibilidades apareçam? Seria uma homenagem digna ao homem dos (mais de) 1000 livros.
Por fim, é extensa a lista de fontes de referência a Lucchetti, como pode ser conferido na lista bibliográfica selecionada e compilada por Marco Aurélio Lucchetti em: