sexta-feira, 29 de abril de 2011

Extrema Unção (2010), de Felipe M. Guerra.



Do cabedal de entidades e criaturas sobrenaturais que atormentam os indivíduos e constituem matéria prima para o cinema de horror, sem dúvida fantasmas e demônios são os que mais assustam. Mais do que vampiros, lobisomens e monstros que a imaginação e criatividade humanas adaptam ao nosso mundinho ordinário para efeito de entretenimento. Talvez porque fantasmas e demônios são mais complexos, pois se existem (e religiões e crenças nos fazem acreditar nisso), estão ao nosso redor impalpáveis e podem interferir em nossas vidas sem que saibamos. Dando vagas pistas de suas presenças num pesadelo, na forma vaga de um vulto que pescamos com o canto dos olhos, uma sombra mais escura que passa de relance nas trevas noturnas ou um sussurro que chega aos nossos ouvidos. E que podem tomar dimensões assustadoras e ter conseqüências nefastas quando interagem diretamente conosco.
Além disso, mexem com temores ancestrais: o medo da morte e do que está por trás do véu pelo qual invariavelmente todos nós iremos passar. Portanto, não é de estranhar serem as produções que mexem nesse vespeiro as mais terríveis e por isso de maior dificuldade de realização. Afinal, um filme de horror causar aquela sensação de pavor indizível sobre a qual discorreu Lovecraft, vamos concordar, é raro. Por mais eficientes que sejam, a maioria dos filmes de horror falha nesse quesito. O que, para falar a verdade, não seria um grande problema, se muitas dessas produções não se levassem a sério demais.
Armadilha na qual o despretensioso Extrema Unção (2010) que passou recentemente na terceira edição da mostra Cinema de Bordas, no Itaú Cultural (SP), não cai. Realizado por Felipe Guerra, nas trincheiras da produção independente desde meados da década de 1990, consegue dosar com precisão os elementos fundamentais do filme de assombração – inclusive a tensão a eles inerente – com o humor negro característico de sua obra, calcado em certo exagero e elegia ao grotesco que é parte constante de um segmento importante do cinema e dos quadrinhos de horror. Nesse sentido, lembra aqueles filmes em episódios da Amicus, ou as histórias da E. C. que hes serviram de base (Tales from the Crypt, Vault of Horror, etc.), tanto em sua curta duração quanto na pegadinha final.
A nova empreitada do diretor de Patrícia Gennice (1998), Entrei em pânico ao saber o que vocês fizeram na sexta-feira 13 do verão passado (2001) e Canibais e Solidão (2007) é em essência a recorrente história de casa mal assombrada, onde alguém morre com uma dívida e não segue me frente, importunando quem se aventurar em seu local de penitência. Mas se já vimos essa história várias vezes no cinema e na televisão – o assunto assombração é a grande vedete do horror oriental dos últimos anos, assim como em programas como Assombrações (A Haunting) e Ghost Hunters nos canais Discovery e SyFy respectivamente – Felipe M. Guerra dá um tratamento bastante pessoal ao tema. Começando pelo elenco, o diretor (cagão confesso quando criança, segundo depoimento no documentário Sangue Marginal) tem como protagonistas sua avó (Oldina do Monte) como uma velha senhora que morre sem receber a extrema unção, e seu irmão (Rodrigo M. Guerra) como o azarado que aluga a casa onde o espírito está aprisionado. Essa aproximação, que dá um colorido pessoal e regional à produção rodada em Carlos Barbosa (RS), é reforçada pelo cenário, a casa de D. Oldina ornamentada com os soturnos pertences da personagem extremamente religiosa e solitária: imagens de santos, velas, crucifixos, folhinhas e antiguidades que remontam ao seu passado. Solidão que se perpetua após a morte, lembrando a famosa introdução de Shirley Jackson em A Assombração da Casa da Colina de que “o que andasse por lá, andava sozinho”.
Extrema Unção, rodado em mini-DV ao custo de R$ 40,00 relata os três dias que o desafortunado inquilino passa na casa, com os eventos sobrenaturais acontecendo progressivamente, do mesmo modo que vai mudando o estado de espírito do rapaz: da incredulidade ao horror. No que o diretor é feliz, demonstrando nos detalhes sua afinidade com o gênero e seus cânones, resultado provável de uma bagagem formada por horas passadas na frente da televisão e das salas de projeção. Além disso, fica evidente o seu amadurecimento no domínio do meio e das técnicas. Seja nos enquadramentos e composição de cenas, na iluminação que aproveita bem os contrastes e reforça a profundidade de campo dando a sensação de que existe algo sinistro à espreita, escolha da trilha, efeitos sonoros e edição.
Assista Extrema Unção agora: