sábado, 8 de janeiro de 2011

Petter Baiestorf: O Doce Avanço da Faca (2010)



Terminada a ressaca da passagem de ano, nada melhor para começar 2011 do que a nova produção da Canibal O Doce Avanço da Faca, do veterano Petter Baiestorf. Realizador catarinense que venho acompanhando com dedicado interesse desde os anos 1990, sendo sua trajetória – que ousei esmiuçar em capítulo do livro Cinema de Bordas 2 - referência para a geração seguinte de cineastas independentes.

Petter, ainda que continue transitando voluntariamente nas trincheiras do que denominou Kanibaru Cinema, conquistou não só corações e mentes nos circuitos alternativos direcionados às produções underground, mas também reconhecimento em outros segmentos da cinefilia. Mesmo que seu Manifesto Canibal, escrito em parceria com o parceiro de longa data César “Coffin”Souza (RJ: Achiamé, 2004) hoje pareça datado – afinal, nota-se no trabalho do realizador uma evolução e amadurecimento que supera alguns preceitos daquele período -, percebe-se que a essência de sua singular filosofia anárquica e escatológica permanece inalterada. Sendo assim, encontramos um padrão temático e ideológico que atravessa a produção de Petter Baiestorf desde suas experiências iniciais, passando pela fase trash-hardcore que vingou até inicio do novo milênio, e chega à atual etapa, na qual se vêem em termos técnicos e narrativos os resultados de longa prática e aprendizado. Essa assinatura, reconhecível – certamente não vou me deter em discussões bizantinas sobre “cinema de autor” -, não só faz com que o trabalho do cineasta tenha uma identidade própria, mas fornece substrato para que seja inserido na senda do Cinema de Transgressão, sobre o qual discorreu Jack Hunter no seminal Deathripping – The Cinema of Transgression (Creation Books, 1999). Talvez possa inclusive especular se não seria Petter hoje em dia o mais emblemático representante dessa pouco conhecida vertente em terras brasileiras.

O Doce Avanço da Faca (2010), curta metragem gore feminista (de acordo com o próprio realizador), segue a fórmula utilizada nas produções mais recentes da Canibal, principalmente Arrobada – Vou Mijar na Porra do seu Túmulo!!! (2007) e Vadias do Sexo Sangrento (2008), onde a apropriação do universo do cinema (s)exploitation dos anos 1970 e 1980 é a tônica dominante.

O filme conta a trágica história de um desenhista de histórias em quadrinhos pornôs (o sempre divertido Coffin Souza) e sua musa Ana Clara (a novada e tesudíssima Gisele Ferran), aspirante a poetisa com invejável apetite sexual. Casal que, ao fixar moradia em atrasada localidade no interior, desperta a fúria de um grupo de fanáticos religiosos.

Partindo dessa premissa, Petter Baiestorf – que também assina a produção e o roteiro – destila seu veneno com bastante ironia e humor negro contra desafetos habituais: a intolerância e maniqueísmo religioso e o atraso cultural interiorano (retratados em outro contexto no anterior e genial Ninguém Deve Morrer/2009). Criando situações que desencadeiam atos de violência extrema protagonizados pelos religiosos e pela vingadora Ana Clara (que passa a denominar-se Fúria) e servem para a exploração do sangue-e-tripas explícito, com facadas, desmembramentos, corpos explodindo e banhos de sangue.

A escolha de uma protagonista feminina, devo ressaltar, não é gratuita. Como chamou a atenção Bev Zalcock em Renegade Sisters (Creation Books, 1998), nos filmes exploitation é tradicional a inclusão de personagens femininos fortes e atuantes. Acabam se tornando, conforme o escritor, a norma, ao invés da exceção (ao contrário das produções tradicionais) e devido à sua força motriz derivar da sexualidade, elas são quentes, valentes e extremamente perigosas. Como se torna a personagem principal de A Vingança de Jennifer (I Spit on Your Grave, 1978), a One Eye de Thriller: a Cruel Picture (1974), ou mesmo a Noiva de Kill Bill (2003). Papel que é defendido com bastante honestidade por Gisele Ferran, que também mostra desenvoltura nas ousadas cenas de sexo e tem seus detalhes anatômicos enquadrados de forma generosa pela câmera.

Sem me deter muito na narrativa em si para não estragar o divertimento, atenção para a seqüência em que Ana Clara recita uma poesia, enquanto são apresentados na tela os quadrinhos de sacanagem de seu companheiro, na verdade desenhados por Leyla Buk (ver link abaixo). E para o curioso cadáver descarnado crucificado em segundo plano, quando os fanáticos religiosos estão reunidos na floresta.

O Doce Avanço da Faca conta, no elenco, com atores recorrentes da Canibal: o impagável Jorge Timm, Élio Copini, Minuano e Airton Bratz.

Não perca!



Melhor frase do filme, proferida pelo pastor (Timm): “Deus não gosta de putinha!”



Notas sobre a produção:



http://canibuk.wordpress.com/2010/10/14/o-doce-avanco-da-faca/



Desenhos:



http://canibuk.wordpress.com/2010/10/29/desenhos-eroticos-da-buk-no-doce-avanco-da-faca/

2 comentários:

intransgressivo disse...

Alo mano véio. quer ver um filminho fast motion? o link tá aqui. são em duas partes.http://www.youtube.com/watch?v=t9TpoOKuwYc

intransgressivo disse...

Os nomes são: O maníaco das facas - fast motion, e: O maníaco das facas - final