sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Caçador de Bruxas (1968), de Michael Reeves.


Como sabemos, a década de 1960 foi determinante para uma mudança de rumos que iria se cristalizar nos anos 70 em todos os setores da sociedade. Que refletiu no cinema, com maior explicitação nas cenas de sexo e violência e abordagem mais crua de temas adultos e controversos. Temas até então tratados com cuidado e de forma velada, graças inclusive à política interna dos próprios estúdios. Nesse sentido, foi no âmbito das produções de horror que as experiências mais radicais ganharam corpo, sendo o emblemático o ano de 1968 o momento crucial para a redefinição do gênero através de filmes que ditariam novos paradigmas e serviriam de guia para as décadas seguintes, como A Noite dos Mortos Vivos (The Night of the Living Dead), de George Romero e O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby), de Roman Polanski.
Bastante significativo foi um filme realizado e exibido modestamente: O Caçador de Bruxas (The Witchfinder General), de Michael Reeves, lançado nos Estados Unidos como The Conqueror Worm. Vincent Price interpreta com singular recolhimento – irreconhecível até, se compararmos com os personagens que encarnou nos filmes de Roger Corman (a famosa série baseada em Edgar Allan Poe) - Matthew Hopkins, um histórico e implacável caçador de bruxas que viaja através da Inglaterra medieval executando supostas bruxas e enriquecendo às custas disso. Reeves, na verdade, não queria Price no papel principal. Achava a sua atuação por demais caricata, considerando que o consagrado ator sempre se mostrava exagerado por detrás dos personagens, o que muitas vezes os tornava histriônicos. O diretor preferia em seu lugar o ator britânico Donald Pleasence. Sendo assim desenvolveu-se uma relação bastante conflituosa entre Reeves e Vincent Price, impedido de usar seus maneirismos. Contudo, O Caçador de Bruxas acabou tornando-se o veículo para a melhor atuação do ator, que nunca esteve tão contido, sério e assustador.
O interessante é que essa produção de baixo orçamento co-produzida na Inglaterra pela Tigon, uma companhia de filmes baratos, e a AIP, que vendeu o filme como mais um do ciclo Poe (daí o título americano The Conqueror Worm), não era, na verdade, um filme que utilizasse elementos fantásticos. Não dá nenhuma evidência de que as bruxas, perseguidas sem trégua, realmente tivessem poderes sobrenaturais. Mas as mostra como vítimas de um destino controlado pela autoridade constituída, perdidas e sem defesa ante o inevitável sofrimento. Empenhado em retratar o sadismo de Hopkins (metáfora para a corrupção do poder) o diretor foi mais longe do que outros antes dele ao mostrar vários tipos de brutalidade na tela. Afinal, Hopkins enforca, afoga, queima e enfia agulhas em suas vítimas, reforçado pela interpretação impassível e fria de Price. Sem o sangue-e-tripas que já dava sinais nas telas, ele valoriza a dor real em seu aspecto mais cru e violento, retratando sombriamente a corrupção e a degradação da alma humana.

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