segunda-feira, 16 de novembro de 2020

 Olá a todos.

O Cinema Poeira está de cara nova.

Agradeço a todos que prestigiaram o blog, e convido para acompanharem as novas postagens.

https://cinemapoeira.com.br/



terça-feira, 5 de maio de 2020



Não creu neu, se finou-se...vampiros no audiovisual brasileiro

O isolamento social necessário fez com que adiássemos as próximas entrevistas do canal Mondo Darko. Sendo assim, com o apoio dos amigos Leandro Caraça e Laura Canepa, que pesquisaram o assunto e desenvolveram o texto, e Felipe Braga que deu voz à narração, apresentamos esse breve e inicial relato sobre os vampiros no audiovisual brasileiro. Divirtam-se. Aproveitem e se inscrevam no canal.


segunda-feira, 23 de março de 2020

São Cipriano no reino dos exus

O Livro de São Cipriano é um conhecido grimório que há décadas vem sendo vendido nos mais variados formatos, por diversas editoras, em pontos de venda diversificados, desde casas de umbanda até livrarias sofisticadas. Seus conjuros, receitas mágicas e orações, para inúmeros fins, foram adaptados e incorporados a outros livros de magia popular.
Neste novo episódio de Mondo Darko, o pesquisador Leopoldo Tauffenbach, fala sobre este “alamanaque mágico”, assim como sua repercussão e absorção pela umbanda e quimbanda. Além disso, faz novas asserções sobre os exus e pombagiras, sua especialidade.


Acesse a página do Mondo Darko, assista este e os outros vídeos do canal e se inscreva para receber notificações.





Também aproveite e veja outro video que postamos com o Leopoldo, especificamente sobre Exus, em nosso antigo canal, o Fora de Sintonia.



sábado, 1 de fevereiro de 2020

Novo episódio de Mondo Darko no ar: Famigerado! O Bandido da Luz Vermelha.
Com Gonçalo Junior.

O catarinense João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha, é o criminoso mais famoso da crônica policial brasileira. Tanto que seus feitos serviram de inspiração para uma obra-prima cinematográfica batizada com a alcunha do meliante e dirigida por Rogério Sganzerla, conterrâneo de João Acácio. O jornalista Gonçalo Junior teve acesso a mais de 20 mil páginas de mais de 80 processos criminais movidos contra João Acácio em São Paulo, entre 1967 e 1975, e escreveu o livro "Famigerado! - A História de Luz Vermelha, o Bandido que Aterrorizou São Paulo nos Anos de 1960".


segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Fora de Sintonia apresenta: Alfredo Sternheim

O canal Fora de Sintonia, no início de 2018, apresentou um episódio especial dividido em duas partes, sobre a trajetória do cineasta Alfredo Sternheim, falecido em dezembro do ano passado. 
Na primeira parte, Alfredo relembra o início de sua carreira cinematográfica, quandocomeçou a trabalhar no início dos anos 60 como assistente do diretor Walter Hugo Khouri nos filmes "A Ilha" (1963) e "Noite Vazia" (1964). Depois dessa experiência, Alfredo realizou 25 filmes e se tornou um dos diretores mais importantes das produções que eram realizadas na chamada Boca do Lixo, na região central de São Paulo. O cineasta fala nesta primeira parte sobre seus primeiros seis trabalhos: "Paixão na Praia" (1972), estrelado pelos atores Ewerton de Castro e Norma Bengell, "Anjo Loiro" (1973), com Vera Fisher e Mario Benvenutti, "Pureza Proibida" (1974), com Rossana Ghessa e Zózimo Bulbul, "Lucíola, o Anjo Pecador" (1975), com Rossana Ghessa e Carlo Mossy, "Mulher Desejada" (1978), com Kate Hansen e Eduardo Tornaghi, e "Herança dos Devassos" (1979), com Sandra Bréa e Roberto Maya.
Na segunda parte da entrevista, o cineasta comenta sobre os sete filmes que dirigiu nos anos 80, antes de o cinema da Boca ser dominado pelo sexo explícito: "Corpo Devasso" (1980), com David Cardoso e Neide Ribeiro, "Violência na Carne" (1980), com Helena Ramos e Neide Ribeiro, o episódio "Gatas no Cio" do filme "Sacanagem" (1981), com Neide Ribeiro e Elisabeth Hartmann, "Amor de Perversão" (1982), com Paulo Guarnieri e Alvamar Taddei, "As Prostitutas do Dr. Alberto" (1981), com Meiry Vieira e Serafim Gonzalez, "Brisas do Amor" (1982), com Sandra Graffi e Sônia Mamede, e "Tensão e Desejo" (1983), com Sandra Graffi, Zilda Mayo e Zélia Diniz. Alfredo ainda dirigiu 13 filmes de sexo explícito nos anos 80, pois era a única forma de continuar fazendo cinema, já que os exibidores só queriam obras do gênero para passar nas telas. O cineasta preferiu não usar pseudônimo e acabou enfrentando problemas por causa disso. Dessa fase, destacam-se os filmes "O Sexo dos Anormais" (1984), com Cláudia Wonder e Sandra Midori, "Borboletas e Garanhões" (1985), com Débora Muniz e Sandra Midori, e "Corpos Quentes" (1987), com Ludmila Batalov e Elias Breda. Alfredo também fala sobre sua atuação como consultor da série "Magnífica 70", lançada na TV a cabo pela HBO Brasil em 2015. O cineasta comenta ainda sobre seu retorno à direção em 2014, quando foi responsável por um dos episódios do filme "Memórias da Boca", lançado em 2015, e que contou com a participação de duas de suas estrelas preferidas: Elisabeth Hartmann e Neide Ribeiro.

Assine os canais Fora de Sintonia e Mondo Darko para ser avisado de nossas próximas atrações.



Parte 1:





Parte 2:



sexta-feira, 22 de novembro de 2019



Joelma 23° Andar, um filme catástrofe espírita

O incêndio no Edifício Joelma foi uma das maiores catástrofes registradas no Brasil. A tragédia, ocorrida em São Paulo no dia 1º de fevereiro de 1974, deixou 187 mortos e mais de 300 feridos. O incêndio foi tema do filme "Joelma 23º Andar" (1980), que tem uma abordagem espírita por ser baseado no livro "Somos Seis", obra psicografada pelo médium Chico Xavier. O diretor Clery Cunha e a pesquisadora Laura Canepa falam sobre os bastidores do "disaster movie" brasileiro.
Assista ao vídeo no canal Mondo Darko e se inscreva.



quarta-feira, 20 de novembro de 2019


Filmes Malditos


Realmente existem filmes amaldiçoados? Ou seriam apenas lendas urbanas envolvendo certas produções cinematográficas? O pesquisador de cinema de horror Carlos Primati fala sobre obras do cinema norte-americano, italiano e brasileiro que foram marcadas por tragédias no set de filmagem ou fora dele.

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terça-feira, 19 de novembro de 2019


De volta com novidades (espero conseguir manter uma regularidade maior daqui pra frente).

Desde a última postagem muita coisa aconteceu. Desde um pós-doutorado, até uma investida em novas atividades. Entre elas, a produção de vídeos para o Youtube. Atividade que se tornou com o tempo bastante prazerosa, não só pelos temas abordados como pelos entrevistados. 
O Canal Fora de Sintonia foi o primeiro, iniciado em 2016, com 30 programas na rede. 31, se contarmos um que foi censurado (isso é outra história).
O Fora de Sintonia tem como proposta entrevistas de cunho cultural, mostrando de forma diversificada o inusitado, tanto nas atividades dos entrevistados como em vídeos temáticos, postados em edições especiais.
Bastante abrangente - de vampiros a produções da Boca do Lixo -, este canal serviu de base para experimentações e aprimoramento técnico em uma área incialmente nova.
Atualmente, o Canal Fora de Sintonia abriu espaço para um irmão mais novo: o Mondo Darko. Com equipe mais enxuta, tem um recorte mais específico: o horror. Investindo, como diria Jack Palance na abertura do extinto "Acredite se Quiser", no estranho, bizarro e inesperado.

Nas próximas postagens uma seleção das entrevistas mais emblemáticas dos canais, iniciando com o primeiro episódio do Mondo Darko.

E para quem não quer esperar, seguem os links para os canais no Youtube.
Se inscrevam em ambos, para serem notificados de novas postagens.

Fora de Sintonia



Mondo Darko





quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A bruxa estava solta em 1996: "Jovens Bruxas" e "A Maldição das Bruxas".




Quase vinte anos depois revi Jovens Bruxas (The Craft, 1996) e continuo gostando do filme. Sendo assim pensei em escrever algumas linhas sobre ele, relembrando alguns aspectos interessantes e que foram melhor observados com o distanciamento.
Dirigido por Andrew Fleming, que não tem grandes coisas em seu currículo, o filme se enquadra primeiramente na leva de filmes adolescentes da década de 1990. E como tal, reproduz um dos paradigmas mais recorrentes de todos os sub-gêneros que compõem essa categoria: do jovem que não se enquadra nos padrões de seu grupo, sofre rejeição, e busca meios de ser aceito e/ou revidar as tribulações sofridas. 
Jovens Bruxas se atrela, desse modo, a um dos mais populares desses sub-gêneros: o terror “adolescente” ou “jovem” (prefiro essa denominação). Linha de filmes que remete aos “delinquentes” anos 1950 de I was a teenage werewolf (1957) e A bolha assassina (The Blob, 1958), passa pelos 1960 e se estabelece nos decênios seguintes (1970-1980) com uma leva de filmes em que jovens envolvidos em seus conflitos pessoais ou coletivos eram as vítimas preferenciais. Foi assim com Sexta-Feira 13 (Friday, the 13h, 1980), A Hora dos Pesadelo (Nightmare on Elm Street, 1984), A Hora do Espanto (Fright Night, 1985), e muitos, muitos outros.
O terror jovem ganha novo fôlego nos anos 1990, especialmente em filmes como Buffy, a caça-vampiros (Buffy, the vampire slayer, 1992), Pânico (Scream, 1996), Eu sei o que vocês fizeram no verão passado (I know what you did last summer, 1997), Prova Final (The Faculty, 1998), Comportamento Suspeito (Disturbing Behavior, 1998), e A Mão Assassina (Idle Hands, 1999). No quadro geral, esta década foi bastante interessante para o cinema de horror, com uma renovação nas tendências anteriores do gênero e novas investidas, inclusive com novos personagens emblemáticos (Candyman, o Djinn de O Mestre dos Desejos, o Ghostface de Pânico) se juntando aos estabelecidos nas décadas anteriores. 



O filme Jovens Bruxas, além de estar inserido neste contexto, apresenta outro aspecto interessante: está alinhado ao que convencionou-se chamar de Nova Era (New Age), movimento espiritual alternativo que ganhou força e foi assim denominado a partir dos anos 1980. Na verdade uma continuação das idéias esotéricas que remontam da contracultura dos anos 1960, alavancadas desde meados dos anos 1950 pelo renascimento da feitiçaria promovido por Gerald Gardner e sua propagação nos Estados Unidos na década de 1960 pelo casal Raymond e Rosemary Buckland. Também encontramos no filme ecos de um segmento feminista da tradição que passou a vigorar a partir do início dos 1970, chamado “diânico”. Vale ressaltar que o termo Wicca, ao que parece, foi cunhado ainda nos anos 1950 para denominar as práticas pagãs, passando a ser usado regularmente, não sem controvérsias entre os adeptos, na década seguinte. 
A história acompanha a trajetória de Sarah Bailey (Robin Tunney), jovem problemática que carrega o fardo de ter perdido a mãe ao nascer, tendo inclusive tentado suicídio. Sarah se muda para Los Angeles com o pai e a madrasta, passando a estudar em uma escola católica, onde conhece três meninas desajustadas e marginalizadas praticantes de bruxaria, Bonnie (Neve Campbell), Rochelle (Rachel True) e Nancy (Fairuza Balk). Cada uma buscando nas artes mágicas uma forma de ter poder, mas também lidar com as suas mazelas e problemas de ajuste social e familiar: as horríveis marcas de queimaduras de Bonnie, as humilhações racistas a que se submete Rochelle e o padrasto abusivo e mãe alcoólatra de Nancy. O trio, que venera um “deus todo-poderoso” chamado Manon, percebe que Sarah tem um dom natural para a magia, e que seria uma aquisição de peso para o grupo, que carecia de uma quarta pessoa para oficializarem seus rituais. Após uma cerimônia realizada na praia, o poder desencadeado de Manon concretiza os desejos das jovens, mas também causa o desequilíbrio entre elas, colocando Bonnie, Rochelle e Nancy, que abusam do poder que lhes foi conferido sem ligar para as consequências, contra a arrependida Sarah. O que vai culminar no embate de bruxas que vai coroar o filme.



O filme apresenta como ponto principal o conflito das garotas que, por serem consideradas “diferentes” não são aceitas em seu meio (o colégio), a busca e conquista de poder através da bruxaria e as consequências desse despertar mágico, rito de passagem pelo qual nenhuma passou ilesa. Se inicialmente brincam com as possibilidades dos poderes adquiridos, esses vão as corrompendo progressivamente, na medida em que começam a usá-los para o mal, colocando umas contra as outras. Especialmente Sarah, arrependida e temerosa, que confronta Nancy, a líder do grupo e a que passa a usar a magia em seu benefício, mesmo que signifique ferir e matar pessoas.
As cenas de cerimônias são bastante convincentes (notadamente a da praia), ainda que, conforme Pat Devin, sacerdotisa contratada como consultora, não seguem nenhum rito estabelecido. Essas sequências foram criadas de forma genérica para não melindrar os reais praticantes e também impedir jovens impetuosos, influenciados pelo filme, de repeti-las. Motivos que também levaram à invenção do nome da deidade “Manon”. De acordo com Devin, seria para evitar que alguém invocasse uma entidade real. Curiosamente, existe um demônio chamado “Mammon” ou “Mamon”, que segundo rápida e nada aprofundada pesquisa, foi assim denominado na escolástica medieval e nos escritos de Agrippa de Nettesheim como personificação de palavra originária do aramaico como personificação da riqueza e de lucros injustos. Seria o demônio da avarice, riquezas e iniquidades.



Jovens Bruxas ajudou a popularizar a Wicca entre os jovens a partir de meados da década de 1990 (movimento teen wicca), transformando a prática mágica em fenômeno pop, atrelado ao mercado consumidor e por sua vez influenciando tendências de comportamento e a mídia. Séries de televisão como Sabrina, a aprendiz de feiticeira (Sabrina, the teenage witch, 1996 - 2003), Buffy, a caça-vampiros (Buffy, the vampire slayer, 1997 - 2003) e principalmente Charmed (1998 - 2006), abordaram de formas diferentes esse universo, assim como diversas publicações foram editadas tendo como alvo o público jovem. É o caso dos livros de Silver Ravenwolf, autora de Teen witch: Wicca for a new generation (1998) e do Kit de magia para jovens: tudo o que você precisa para fazer magia (Editora Pensamento).
Mas se em Jovens Bruxas havia uma preocupação com uma abordagem mais próxima do universo da bruxaria e o horror servir de pano de fundo para os dilemas da adolescência, o mesmo não se pode dizer de A Maldição das Bruxas (Little Witches), dirigido por uma insignificante Jane Simpson e realizado com baixo orçamento no mesmo ano (em apenas duas semanas). Ao que tudo indica buscando capitalizar em cima do sucesso do filme de Andrew Fleming, sendo lançado um mês depois.



A trama apresenta elementos comuns ao de Jovens Bruxas: um grupo de estudantes desajustadas de uma escola católica ficam internadas durante o recesso da Páscoa, entre elas Faith (Mimi Reichmeister) - órfã de pai, deixada sozinha no feriado pela mãe omissa - e Jamie (Sheeri Rappaport) , vítima de pai abusivo e de comportamento revoltado e promíscuo. Elas e outras meninas descobrem um antigo livro de feitiços nas ruínas de um templo satânico encontrado em escavações no subterrâneo da escola, e acabam conjurando um demônio. Jamie e Faith acabam em lados opostos, com a primeira assumindo o comando do grupo com a intenção de trazer o demônio de volta para conquistar poder, e Faith tentando impedir que isso aconteça.



Em um primeiro momento a trama parece promissora e até interessante pela inserção de elementos mais comuns aos filmes de horror: o local maldito -   o templo subterrâneo -; a maldição ancestral - a cerimônia de magia negra sendo interrompida por frades encapuzados, com jovens desnudas sendo impedidas de consumar um sacrifício humano e invocar as forças do mal - ; o objeto de poder -  velho grimório, livro de feitiços escrito em latim;  o monstro - o demônio encerrado nas profundezas aguardando despertar -; etc. Porém, o enredo se perde no roteiro mal amarrado, na falta de pontos de virada e um clímax satisfatório e na conclusão fraca e precipitada. Os personagens também são mal desenvolvidos: a heroína Faith não convence em sua conversão para o bem, muito menos sendo uma aplicada conhecedora de latim, do mesmo modo como a vilã Jamie, de uma hora para a outra se torna prolixa nesse idioma e capaz de praticar feitiços avançados.  Diferente das personagens Sarah e Nancy, de Jovens Bruxas, que se modificam gradualmente e de forma coerente com o andamento e as prospecções do filme. Também a figura da Madre Guardiã, interpretada pela simpática baixinha Zelda Rubinstein (a médium de Poltergeist, o Fenômeno, 1982), não diz muito porque que foi inserida. Por outro lado, Maldição as Bruxas foge do pudor das produções de terror mainstream dos anos 1990,  com maior apelo sexual nos diálogos e nas cenas de nudez das atrizes, especialmente da linda Sheeri Rappaport em dois momentos: quando se excita ao relatar suas aventuras amorosas para o padre no confessionário da escola, e no striptease improvisado na janela do alojamento. O que não enaltece o filme, pois as belas formas da atriz servem para uma visão conservadora da sexualidade, reforçando o caráter conservador do filme ao apresentar esses elementos vinculados ao mal a ser derrotado pela heroína virtuosa e virgem.




Se Jovens Bruxas tenta apresentar uma visão menos preconceituosa da religião neo-pagã, sendo mesmo assim criticado por parte dos praticantes, Maldição das Bruxas reforça os estereótipos que cercam as práticas mágicas como maléficas e enaltece a moral conservadora cristã. 


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Black Power Jones (2013)



Na década de sessenta do século passado, após importantes mudanças na legislação referentes ao racismo e a mobilização dos negros norte-americanos na segunda metade dos anos 1950, as manifestações pelos direitos civis ganharam força. Resultando na aprovação da lei que proibia qualquer forma de discriminação baseada em cor ou raça. Mas apesar disso, as coisas esquentaram, com a radicalização do movimento e violentos confrontos, culminado em crimes de morte - como os assassinatos do líder radical Malcolm X e do pacifista Martin Luther King - e a criação do grupo Panteras Negras. Nesse cenário, embalado pela música soul e pelo que ficou conhecido como movimento Black Power (de ampla abrangência artística, cultural e ideológica), surge uma nova tendência cinematográfica denominada blaxploitation. Fusão óbvia das palavras black e exploitation (como eram chamados os filmes produzidos à margem do código de ética cinematográfico em vigor desde a década de 1930, que exploravam temas não permitidos nas produções dos grandes extúdios), o filão tem como início – ou pelo menos existe um consenso sobre isso – o independente  Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971), de Melvin Van Peebles. Produção que, segundo Todd Boyd “mesclou o modernismo europeu e o avant garde com as demandas urgentes do movimento negro que ecoavam sentimentos semelhantes aqueles articulados nas ruas dos Estados Unidos dos anos 1970”[1]. Por outro lado, no mesmo ano, a major MGM lançou Shaft, dirigido por Gordon Parks, com Richard Roundtree no papel título, deflagrando uma série de produções que, a partir dos paradigmas estabelecidos pelo filme de Peebles, se imiscuíram nos mais diversos gêneros cinematográficos, como comédia, horror, artes marciais, etc. Os filmes blaxploitation tiveram seu período áureo na primeira metade dos anos 70 angariando defensores e detratores, dentre esses últimos as próprias instituições representativas do movimento negro, que os acusavam de caça-níqueis que perpetuavam os estereótipos estabelecidos pelos brancos acerca dos negros. Contudo, é inegável a influência desses filmes em produções mais recentes, além de constatar, com o afastamento de quatro décadas, as qualidades de muitos deles.


Black Power Jones (2013), produzido e roteirizado por Geraldo Lima e Igor Simões Alonso (New Hope Produções), que também dirigiu, bebe nessa fonte e vai além. Conta a história de um violento bando criminoso, liderado pelo facínora Block (Geraldo Lima), que vive de golpes e extorsão. Em uma tentativa de manipular a seu favor os resultados de lutas de boxe clandestinas, entram em confronto com o boxeador Jones (Francisco Soares), enquanto sobre eles fecha o cerco uma dupla de policiais (Silvana Veloso e Igor Simões). O filme é rico em referências cinematográficas, começando pelo título que remete a Jones, o Faixa Preta (Black Belt Jones, 1974), blaxploitation de artes marciais estrelado por Jim Kelly. Também a ambientação setentista, criada de forma criteriosa através dos cenários, figurinos e objetos de cena são fundamentais para a construção da atmosfera, valorizada pela iluminação e fotografia de Geraldo Lima, elementos responsáveis por realçarem as cores e tornar consistentes os ambientes onde se desenrola a trama. Vale destacar o trabalho dos atores, alguns profissionais, mas a maioria deles amadores arregimentados pelos produtores, em caracterizações marcantes como André Chechinel (o capanga de Block, Capeta), Silvana Veloso (a delegada Rochelle) -  lembrando a musa black Pam Grier -, entre outros. As interpretações, exageradas e em certos momentos caricatas, acabam se revelando oportunas.


 Aliadas aos diálogos dão à narrativa um saboroso ar nonsense que em muito lembra, por um lado, as histórias em quadrinhos do período, como por outro, arremedam a estética camp. Dando ao filme um eficiente ar de brasilidade brega (notadamente nas cenas do bilhar) que o articula aos policias baratos rodados na Boca do Lixo nos anos 1970 por diretores como Francisco Cavalcanti e Toni Vieira. É essa mistura estética, de blaxploitation com Boca do Lixo, que dá Black Power Jones uma inegável vitalidade. Produzido de forma independente, com pouquíssimos recursos, é mais uma prova de que é possível criar obras audiovisuais no país com qualidade, sem apelar para a salvaguarda do rótulo “trash”.


Maiores informações sobre o filme e o DVD:



segunda-feira, 28 de março de 2011

O Feiticeiro (Necromancy/The Witching, 1972)



No início dos anos 1970 vários produtores e diretores pegaram carona no sucesso de O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby / 1968) se aproveitando do momento histórico em que bruxas e demônios estavam na ordem do dia sob os auspícios da tão propalada Era de Aquário.


Podemos afirmar que Satã estava na ordem do dia naqueles idos, tanto como arauto de uma nova ordem onde o homem se libertaria dos grilhões do conservadorismo e da caretice, quanto como deflagrador de atos de violência. A resposta do status quo não tardaria com O Exorcista (The Exorcist/1973). Filme que por sua vez iniciaria uma nova onda, com um caráter cristão mais exacerbado.


Antes de Linda Blair ensinar nas telas um uso pouco ortodoxo para o crucifixo, o diretor Bert I. Gordon, que tem no currículo desde clássicos da ficção científica barata dos anos 1950 como The Amazing Colossal Man (1957) e pérolas da fantasia como A Espada Mágica (The Magic Sword/ 1962), resolveu dar sua contribuição para o horror e faturar uma graninha com a onda do momento. O resultado: Necromancy (1972), uma narrativa de horror gótico que, apesar de ser centrada em elementos claramente inspirados no filme de Polanski, possui interessante premissa.


Conta a história da jovem Lori (Pamela Franklin, de Todas as Noites às Nove / Our Mother’s House /1967 e A Casa da Noite Eterna / The Legend of Hell House / 1973) que após aborto, muda-se para a sinistra cidade de Lilith. Lá conhece o empregador de seu marido Frank (Michael Ontkean), o enigmático Sr. Cato (o grande Orson Welles, 1915 - 1985), um satanista convicto que é dono da cidade e seus habitantes. Aos poucos, Lori vai conhecendo as peculiaridades locais: não existem crianças, os moradores estão proibidos de procriar e a religião oficial é a bruxaria. Logo Frank se alia aos feiticeiros, ficando Lori sozinha em meio às adversidades da comunidade, à qual não se integra.


Acaba descobrindo que não está ali por acaso, mas foi atraída através das forças sobrenaturais desencadeadas por Cato, para com seus poderes sobrenaturais latentes –sobretudo a necromancia que dá título ao filme - trazer o filho do bruxo de volta à vida.


Infelizmente para nós, espectadores, o que promete ser uma narrativa envolvente do old school gótico que permeou o cinema de horror das décadas de 1960 e 70, se perde no andamento truncado e lapsos que deixam muitas questões em aberto: por exemplo, quem é claramente a mulher que aparece nos sonhos de Lori alertando-a para o perigo. Ficam apenas suposições, assim como o final não convincente e alguns acontecimentos repentinos demais.


Talvez a explicação seja que Necromancy teria sofrido vários cortes e ganhado diversas versões (sendo inclusive conhecido como Rosemary’s Disciples). A que me chegou às mãos, em cópia muito ruim, é uma reedição de 1981 (intitulada The Witching) lançada em VHS por aqui pela saudosa Look Vídeo como O Feiticeiro, onde se notam claramente os cortes. Ao que parece, não se tem notícia da tal versão integral. Vale uma busca mais minuciosa na internet.


De qualquer forma, vale a pena assistir. Não só pela atmosfera que o baixo orçamento não prejudicou totalmente, mas pela a recriação meia-boca das cerimônias satânicas (que misturam elementos da Wicca e do Satanismo). Cenas que tiveram consultoria técnica do famoso bruxo e escritor Raymond Buckland, com muita nudez para apimentar – especialmente de Franklin – e algum sexo simulado.

quinta-feira, 10 de março de 2011

A Reencarnação de Peter Proud (1975)



De bode na quarta-feira de cinzas, escolhi na prateleira o DVD recém lançado pela Versátil do drama sobrenatural A Reencarnação de Peter Proud (The Reincarnation of Peter Proud /1975). Ao que tudo indica, a orientação espírita dessa empresa, ao lançar programas gravados sobre Chico Xavier e cia., também acaba colocando no mercado produções bastante singulares como o docudrama oportunista de Clery Cunha Joelma 23º Andar (1980) e esta pérola da década de 1970.

Estrelada pelo canadense Michael Sarrazin (conhecido pela sua interpretação do monstro em A Verdadeira História de Frankenstein /Frankenstein: The True Story, 1973), explora um tema intrigante e por sua vez em voga naquela época: a reencarnação. Vale ressaltar que o esoterismo, assim como sua abordagem mais “científica”, a parapsicologia, eram bastante populares nos anos setenta, reflexo da busca espiritual da geração paz-e-amor com seus iogues, bruxas e maharishis.

Dirigido pelo prolífico J. Lee Thompson a partir do romance de Max Ehrlich, A Reencarnação de Peter Proud conta a história do personagem título, um professor universitário atormentado por vívidos e recorrentes pesadelos. Em busca de uma solução, consulta médicos e parapsicólogos, concluindo que a origem de seus males está em outra vida. O ponto alto do filme, assim como da construção do suspense da trama, está na procura de Peter, que vai coletando evidências, conseguindo passo a passo descobrir não só sua identidade na encarnação passada (o mau caráter Jeff Curtis), como trazer à luz mistérios ocorridos quarenta anos antes em remota cidade da Nova Inglaterra. Localidade em que reencontra a esposa da vida pregressa e responsável por seu assassinato, Marcia, e a filha Ann, de quem se enamora. Respectivamente interpretadas por Margot Kidder e a lindíssima Jennifer O’Neill (a Dorothy de Summer of 42). Curiosidade: as duas tinham a mesma idade na época.

Ainda que datado em alguns aspectos – estéticos inclusive -, A Reencarnação de Peter Proud é um filme intrigante, de solidez narrativa e abordagem séria, que pode ainda suscitar algumas discussões. O DVD da Versátil apresenta imagem regular, aparentando qualidade VHS. Algumas discretas cenas de nudez das atrizes (Cornelia Sharpe, que faz a namorada de Peter, e Margot Kidder) e de sexo, com a representação de um violento estupro.

Como extras do disco encontramos alguns esclarecimentos acerca da reencarnação sob a ótica espírita, mas que só devem interessar aos adeptos da doutrina kardecista.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Freiras Nuas com Armas Grandes (2010)



Se existe um santo padroeiro das coisas mal feitas, sem dúvida foi ele que me levou a, entre milhares de envelopinhos plásticos exibindo diversos exemplares pirateados da sétima arte, pinçar o desconhecido (para mim pelo menos) Freiras Nuas com Armas Grandes (Nude Nuns with Big Guns/2010). A capinha impressa em jato de tinta no fundo de algum quintal mostra uma jovem freira de perfil, pensativa, com uma pistola pendendo na cintura em meio aos rosários de contas e empunhando enorme metralhadora apontada para cima, apoiada na testa. A imagem me fisgou logo de cara, remetendo à iconografia religiosa, notadamente os famosos santinhos que circulam nas igrejas e são distribuídos por penitentes e professores de catecismo. Sua pose reflexiva, quase uma prece ancorada por potente arma, pede forças pra enfrentar algum sacrifício. Num impulso, juntei aos outros exemplares do “leve quatro por dez” e corri da banca do camelô (alguém duvida do sortimento dessa turma, de fazer inveja à Fnac?) louco para colocar no player o que poderia ser tanto um novo exemplar do nunsploitation quanto alguma pérola perdida da era de ouro do exploitation.

Confesso que não é uma coisa nem outra, mas bebe dessas fontes à exaustão. Freiras Nuas com Armas Grandes poderia ser um puta filme se não fosse tosco demais. O que de fato não o desmerece, apenas o coloca em seu devido lugar. Depois que engrena e entramos na construção narrativa do diretor Joseph Guzman, torna-se bastante divertido. Blasfemo, mostra a Igreja como uma organização criminosa que lucra com o tráfico e a prostituição. Tal organização possui uma hierarquia encabeçada por um cardeal, e logo abaixo os padres, que são os gerentes, que supervisionam o empacotamento da droga a cargo das freiras. Função que exercem despidas, certamente para não desviarem nem um grama do precioso pó branco e também por ser um filme de sexploitation, ora bolas!

Essa coca é vendida para Los Muertos, uma gang de motoqueiros sádicos e estupradores liderada pelo cruel Chavo (David Castro, uma mistura de Harry Reems com Charles Manson). O sumiço de um pacote da substância é o pretexto para a trama. Envolvida injustamente no roubo, a Irmã Sarah (a expressiva Asun Ortega) é aprisionada em um bordel, onde sob efeito constante de drogas era oferecida aos clientes. Espancada quase até a morte por um padre tarado que pagou pelos seus serviços, é salva por um curandeiro, tendo uma revelação do Altíssimo: tornar-se um arauto da vingança, um braço armado destinado a varrer da face da Terra os pecadores e malfeitores. Claro que seu alvo principal são os causadores de sua ruína: o clero e a gang de Chavo. Auxiliada por sua amante, Irmã Angelina (Aycil Yeltan), e com um arsenal invejável, Irmã Sarah parte para o ataque.

A produção tenta emular a estética de filmes como Kill Bill (2003/2004) e Prova de Morte (Death Proof/2007), inspirados nas produções B dos anos 70. Tarantino de segunda mão, Guzman se aproxima de um western moderno, com um visual sujo e ambientação rural. Para sua composição, ele não só faz uso de cenografia, trilha sonora e efeitos visuais (como legendas com os nomes dos personagens) coerentes com essa abordagem, como atira para todos os lados ao colocar em Freiras Nuas com Armas Grandes boa parte do vasto repertório de temas freqüentes do exploitation: freiras, motoqueiros selvagens, puteiros de fim de mundo com go-go dancers, violência explícita, muita mulher pelada e alguma sacanagem – inclusive sexo entre mulheres.

Destaco a cena em que Irmã Sarah, de hábito branco, se paramenta com seu arsenal e parte para o confronto final. Para assistir rezando.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"Video Nasties" de A a Z

Na falta de tempo para preparar um texto para nova postagem nessa semana, mas de modo a não deixar o blog parado, segue um vídeo do You Tube com uma seleção de de filmes considerados ofensivos por seu conteúdo sexual ou de violência explícita. Produções que chegaram a ser proibidos em alguns países, notadamente a Inglaterra. Vale como dica para garimpo. Muitos deles já circulam por aqui há anos nos circulos de aficionados, seja em cópias alternativas ou versões VHS lançadas oficialmente por selos de caráter duvidos... Divirtam-se.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Grave of the Vampire (1974): um vampiro das antigas!



Grave of the Vampire (1974) é uma pequena pérola dentre a vasta produção de filmes sobrre vampiros realizados nos Estados Unidos na década de 1970. Pouco lembrado e raramente exibido, apresenta situações interessantes que o distinguem numa época em que os vampiros ainda seguiam o tradicional paradigma do Drácula. Sendo assim, está mais próximo em ousadia de Blácula, o Vampiro Negro (Blacula, 1972) do que dos também contemporâneos Conde Yorga (Count Yorga, Vampire/ 1970) ou o Janos Skorzeny do telefilme The Night Stalker (1972).

Dirigido por John Hayes, especialista em filmes B e exploitation que também foi co-autor do roteiro, compensa com criatividade o baixo orçamento da produção. A trama tem longa introdução anos 40 com o ataque, por um ser das trevas (o eficiente e eterno coadjuvante Michael Pataki), de um improvável casal que está em idílio romântico no cemitério. Após ser despertado em seu caixão e matar o rapaz, o vampiro arrasta a jovem Leslie para uma cova recém aberta e a estupra. Identificado pela polícia como Caleb Croft, um assassino e estuprador morto anos antes em Boston, elimina o detetive que o perseguia. Nove meses depois, Leslie dá à luz em dramática seqüência a um pequeno monstro, um híbrido humano-vampiro, que alimenta com o próprio sangue. Esforço que, com o passar do tempo, esgota suas forças, causando-lhe a morte. O filho, James Eastman (outro astro de filmes baratos, William Smith) passa a ter como objetivo, enquanto luta contra a sede de sangue comendo carne crua, caçar e livrar o mundo do monstro que o gerou. Um dos precursores da figura agora tão comum do “vampiro relutante”.

Fica clara a semelhança com outro famoso vampiro criado pouco antes da realização do filme pelos talentosos Marv Wolfman e Gene Colan para a Marvel Comics: o personagem Blade, lançado na revista em quadrinhos Tomb of Drácula 13 (outubro de 1973). Também híbrido graças ao ataque de uma criatura da noite à sua mãe durante a gestação e, por sua vez, inimigo mortal da espécie.

O reencontro entre pai e filho se dá em tempos atuais (no caso a década de 70), quando Eastman se matricula em um curso de ocultismo – modismo naqueles tempos - ministrado pelo sinistro Adrian Lockwood. A partir daí, repetem-se os clichês habituais de ambiência gótica (como sessões espíritas, possessões), trazendo ecos de outra produção famosa no período: a novela Dark Shadows (1966-1971). Entram na narrativa as amigas Anne Arthur e Anita Jacoby (Lyn Peters e Diane Holden respectivamente, atrizes egressas das séries de televisão). A primeira objeto de desejo do monstro graças à semelhança com sua falecida esposa Sarah, e interesse romântico do mocinho Eastman; a outra uma mística interessada em virar vampira. Anita descobre a verdade sobre Lockwood em um velho livro de ciências ocultas e seu passado não só como o estuprador Caleb Croft, mas como a antigo vampiro Charles Croydon. O que vai desencadear os acontecimentos que levarão ao inevitável desfecho trágico, com o embate final entre duas gerações de vampiros.

Grave of the Vampire, ainda que conte com um roteiro meio apressado e pontuado por incoerências, merece ser conferido, inclusive pela estética tão característica da década de sua produção, tanto nos elementos cenográficos, figurinos e trilha sonora groovy; quanto nos enquadramentos e utilização do zoom. Curiosidade: o ator Michael Pataki interpretou o rei dos vampiros no cultuado Zoltan, o Cão Vampiro de Drácula (Dracula’s Dog / 1978).

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Banquete da Morte (Feast / 1992)



Existem obras cinematográficas que se enquadram perfeitamente na controversa categora dos “melhores dos piores”. Produções que indico somente aos iniciados naquela classe de filmes Z, assim denominados por Michael Weldon, autor das consagradas enciclopédias de filmes “psicotrônicos”, por seu caráter de total inépcia e pobreza na realização. Fatores compensados por recursos apelativos – geralmente envolvendo sexo e violência – que acabam muitas vezes tornando essa tosca filmografia de difícil distribuição e veiculação. E fazendo com que algumas dessas pérolas da criatividade e picaretagem conquistem um número de aficionados que os elevam à categoria de cult. Dentre essas produções, que não recomendo para serem assistidas a dois num encontro regado a pipoca (a não ser que seu interesse romântico também seja afeito a essas coisas estranhas) com o risco de um fenomenal pé-na-bunda, está esse independente Banquete da Morte (Feast/1992).

Dirigido pelo expert em armamentos e efeitos especiais Mike Tristano, que fez carreira prestando serviços para diversos diretores de filmes B e posteriormente se tornou realizador, Banquete da Morte trata com bastante humor de um tema pouco palatável e por isso mesmo recorrente em filmes de horror e exploitation: o canibalismo. Trazendo à memória a forma e conteúdo da “trilogia de sangue” de Herschell Gordon Lewis, sem o mesmo brilhantismo. É protagonizado pela veterana e polêmica pornstar Sharon Mitchell (desde os anos 1970 na indústria x-rated) como Brenda Whitlock, psiquiatra fascinada pelas bizarras fixações de um paciente (Chuck Gavoian). Um serial killer que em parceria com outro tarado (Neil Delama – ator frequente nas produções de Tristano), espalha o terror em Los Angeles. Eles se fingem de produtores e atraem jovens aspirantes a atrizes, que matam e degustam com requintes. Os crimes atraem a atenção da polícia, sendo solicitada a ajuda do antropólogo perito em rituais bizarros Peter Harris. O acadêmico acaba colocando mais lenha na fogueira, alimentando com relatos de canibalismo as fantasias da namorada psiquiatra, cada vez mais obcecada e excitada sexualmente pelas atividades dos assassinos.

Ainda que patente em sua pobreza, Banquete de Morte pode surpreender por apresentar diálogos e uma atuação um pouco acima da média para esse tipo de produção, além de efeitos e maquiagem convincentes nas cenas de sangue-e-tripas. Certamente devido à supervisão da equipe responsável pelo próprio Tristano, que sempre teve como uma de suas metas a confecção de efeitos de qualidade para filmes de baixo orçamento.

Como não poderia deixar de ser, apela para o sexo softcore e explora a nudez das atrizes, não só da sra. Mitchell (ainda dando um caldo aos 36 anos), como de outras pinçadas dos filmes pornô: as também veteranas Veronica Hart e Kelly Nichols. Participações especiais de William Smith, figurinha fácil nos filmes e séries de tv das décadas de 70 e 80, como um detetive; e do notório Ron Jeremy numa ponta.

Banquete da Morte foi lançado aqui em VHS, em meados dos anos 90 por uma tal de Crystal. Viva a falta de critério das velhas e boas distribuidoras de fitas VHS. Saudades!!!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Petter Baiestorf: O Doce Avanço da Faca (2010)



Terminada a ressaca da passagem de ano, nada melhor para começar 2011 do que a nova produção da Canibal O Doce Avanço da Faca, do veterano Petter Baiestorf. Realizador catarinense que venho acompanhando com dedicado interesse desde os anos 1990, sendo sua trajetória – que ousei esmiuçar em capítulo do livro Cinema de Bordas 2 - referência para a geração seguinte de cineastas independentes.

Petter, ainda que continue transitando voluntariamente nas trincheiras do que denominou Kanibaru Cinema, conquistou não só corações e mentes nos circuitos alternativos direcionados às produções underground, mas também reconhecimento em outros segmentos da cinefilia. Mesmo que seu Manifesto Canibal, escrito em parceria com o parceiro de longa data César “Coffin”Souza (RJ: Achiamé, 2004) hoje pareça datado – afinal, nota-se no trabalho do realizador uma evolução e amadurecimento que supera alguns preceitos daquele período -, percebe-se que a essência de sua singular filosofia anárquica e escatológica permanece inalterada. Sendo assim, encontramos um padrão temático e ideológico que atravessa a produção de Petter Baiestorf desde suas experiências iniciais, passando pela fase trash-hardcore que vingou até inicio do novo milênio, e chega à atual etapa, na qual se vêem em termos técnicos e narrativos os resultados de longa prática e aprendizado. Essa assinatura, reconhecível – certamente não vou me deter em discussões bizantinas sobre “cinema de autor” -, não só faz com que o trabalho do cineasta tenha uma identidade própria, mas fornece substrato para que seja inserido na senda do Cinema de Transgressão, sobre o qual discorreu Jack Hunter no seminal Deathripping – The Cinema of Transgression (Creation Books, 1999). Talvez possa inclusive especular se não seria Petter hoje em dia o mais emblemático representante dessa pouco conhecida vertente em terras brasileiras.

O Doce Avanço da Faca (2010), curta metragem gore feminista (de acordo com o próprio realizador), segue a fórmula utilizada nas produções mais recentes da Canibal, principalmente Arrobada – Vou Mijar na Porra do seu Túmulo!!! (2007) e Vadias do Sexo Sangrento (2008), onde a apropriação do universo do cinema (s)exploitation dos anos 1970 e 1980 é a tônica dominante.

O filme conta a trágica história de um desenhista de histórias em quadrinhos pornôs (o sempre divertido Coffin Souza) e sua musa Ana Clara (a novada e tesudíssima Gisele Ferran), aspirante a poetisa com invejável apetite sexual. Casal que, ao fixar moradia em atrasada localidade no interior, desperta a fúria de um grupo de fanáticos religiosos.

Partindo dessa premissa, Petter Baiestorf – que também assina a produção e o roteiro – destila seu veneno com bastante ironia e humor negro contra desafetos habituais: a intolerância e maniqueísmo religioso e o atraso cultural interiorano (retratados em outro contexto no anterior e genial Ninguém Deve Morrer/2009). Criando situações que desencadeiam atos de violência extrema protagonizados pelos religiosos e pela vingadora Ana Clara (que passa a denominar-se Fúria) e servem para a exploração do sangue-e-tripas explícito, com facadas, desmembramentos, corpos explodindo e banhos de sangue.

A escolha de uma protagonista feminina, devo ressaltar, não é gratuita. Como chamou a atenção Bev Zalcock em Renegade Sisters (Creation Books, 1998), nos filmes exploitation é tradicional a inclusão de personagens femininos fortes e atuantes. Acabam se tornando, conforme o escritor, a norma, ao invés da exceção (ao contrário das produções tradicionais) e devido à sua força motriz derivar da sexualidade, elas são quentes, valentes e extremamente perigosas. Como se torna a personagem principal de A Vingança de Jennifer (I Spit on Your Grave, 1978), a One Eye de Thriller: a Cruel Picture (1974), ou mesmo a Noiva de Kill Bill (2003). Papel que é defendido com bastante honestidade por Gisele Ferran, que também mostra desenvoltura nas ousadas cenas de sexo e tem seus detalhes anatômicos enquadrados de forma generosa pela câmera.

Sem me deter muito na narrativa em si para não estragar o divertimento, atenção para a seqüência em que Ana Clara recita uma poesia, enquanto são apresentados na tela os quadrinhos de sacanagem de seu companheiro, na verdade desenhados por Leyla Buk (ver link abaixo). E para o curioso cadáver descarnado crucificado em segundo plano, quando os fanáticos religiosos estão reunidos na floresta.

O Doce Avanço da Faca conta, no elenco, com atores recorrentes da Canibal: o impagável Jorge Timm, Élio Copini, Minuano e Airton Bratz.

Não perca!



Melhor frase do filme, proferida pelo pastor (Timm): “Deus não gosta de putinha!”



Notas sobre a produção:



http://canibuk.wordpress.com/2010/10/14/o-doce-avanco-da-faca/



Desenhos:



http://canibuk.wordpress.com/2010/10/29/desenhos-eroticos-da-buk-no-doce-avanco-da-faca/

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Última postagem do ano: Maria Erótica, livro de Gonçalo Junior


Terminando o ano, lamentando a irregularidade das postagens entre os meses de outubro e dezembro devido a sobrecarga de trabalho, resolvi não abordar nenhum filme. Isso porque estive mergulhado nos últimos dias em um livro que não só atraiu totalmente minha atenção como despertou lembranças de um período do qual me recordo muito bem: Maria Erótica e o Clamor do Sexo: Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar 1964/1985 (SP: Editoractiva, 2010), de Gonçalo Junior.
Aficionado e colecionador de revistas em quadrinhos, tenho especial afeto pelas hqs de terror que comprava na infância e adolescência, ainda que proibidas para menores na época por suas cenas de violência e nudez. Leitor assíduo dos títulos da Edrel e da Taíka (e depois a paranaense Grafipar), principalmente, tive contato com o trabalho de artistas como Nico Rosso, Rodolfo Zalla, Eugenio Colonnese; além das estrelas do livro de Gonçalo Junior: Minami Keizi, Claudio Seto, Pulo I. Fukue e Fernando Ikoma. Através das trajetórias marcadas por muito trabalho, dedicação e desilusões desses que foram responsáveis por uma revolução no quadrinho nacional, o autor desvela em rigorosa e inédita pesquisa o estabelecimento da Censura pela Ditadura Militar e seus desdobramentos. Notadamente no que diz respeito a aspectos de cunho sexual
, com destaque para as publicações de bancas - quadrinhos e revistas masculinas - mas também dando pinceladas , para contextualizar, em outros setores da cultura. Lembrando que para a turma da vigilância, a sacanagem era uma artimanha de Moscou para desestabilizar a Revolução e os valores defendidos pela moral e os bons costumes.
Dividido em 16 capítulos, a extensa obra (são quase 500 páginas) de narrativa fluida e quase impossível parar de ler, é uma viagem no tempo, obrigatória não apenas para aqueles que vivenciaram o período e se deleitavam com as "garotas de papel" que em fotos e desenhos tentavam burlar os censores com um peitinho aqui e uma bundinha ali; mas também para quem quiser saber mais, em tempos de pornografia explícita ao alcance de todos, sobre uma época onde uma minoria encoberta pelas sombras do autoritarismo decidia com critérios duvidosos o que os brasileiros podiam ver, ler e ouvir.
o Livro Maria Erótica (nome de personagem criada por Seto para a Edrel), através do resgate dessa tortuosa aventura protagonizada por editores e artistas, é também um libelo contra a censura. Um ótimo presente de Natal!!!
Até janeiro e Boas Festas!!!!


Vídeo no Youtube sobre o livro:

http://www.youtube.com/watch?v=1XWOZlEzZWw

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Notas sobre o exploitation italiano: Nunsploitation


O que mais me chama atenção em relação ao exploitation italiano é a forma como suas produções, cuja forma foi “tomada emprestada” e re-adaptada, ganharam uma cor local, revestidas pelo contexto sócio-cultural, apresentando características bastante singulares. Durante as décadas de 60 e 70, até meados dos anos 80, proliferaram inúmeros filmes decalcados dos mais variados gêneros, como horror, ficção científica, espionagem ao estilo James Bond e comédias eróticas. Muitas vezes, os produtores italianos se aproveitavam da expectativa em torno do lançamento de um algum filme pelos estúdios de Hollywood, ou mesmo do sucesso deste em bilheteria, e colocavam no mercado vários títulos feitos às pressas com temática semelhante com o óbvio intuito de receber uma fatia dos lucros. Isso ficou mais evidente durante a década de 70, quando o formato da indústria italiana começou a se modificar, enfrentando o afastamento do público das salas e a concorrência da tv. Um bom exemplo são as produções em que a temática é a possessão demoníaca ou diabolismo, em voga na época desde o impacto de O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby/1968) e O Exorcista (The Exorcist/1973). Como O Anticristo (Anticristo,1974), de Alberto De Martino (que já foi tema de postagem). Uma das melhores apropriações das idéias principais contidas nos filmes de Polanski e Friedkin, com o significativo acréscimo de referências ao universo religioso e ao passado marcado pela inquisição e superstições medievais. Elementos que compõem o imaginário católico romano, bastante distintos da versão anglo-saxônica dos fenômenos religiosos-sobrenaturais prevalecente nos filmes norte americanos e ingleses. Dentro dessa perspectiva, posso dizer que foi na Itália onde melhor floresceu uma vertente do cinema exploitation bastante próixima da linha women-in-prison: o nunsploitation (ou nunxploitation, como também é chamado) Subgênero sustentado por uma visão nada ortodoxa do cotidiano das ordens religiosas femininas, em que os desejos reprimidos e a tensão sexual presente fornecem o pretexto para a oportunista exibição de cenas de nudez, lesbianismo, sadomasoquismo e, freqüentemente, satanismo. Essas produções, em geral, tratam de uma jovem noviça que foi encarcerada num convento e lá é submetida a abusos sexuais e torturas, em geral conduzidas pela Madre Superiora perversa. São representativos dessa vertente filmes como A Monja de Monza (La Monaca di Monza, 1968), de Eritando Visconti; Flavia, a Herética (Flavia, La Monaca Musulmana, 1974), de Gianfranco Mingozzi, este último incluindo cenas bastante explícitas de sexo e violência, com orgias de freiras, estupros e o esfolamento em vida da pobre Flávia (a brasileira Florinda Bolkan). Também os sugestivos Le Scomunicate di S. Valentino (1974), de Sergio Grieco; Por Trás dos Muros do Convento (Interno di um Convento, 1977), de Walerian Borowczyc; A Freira Assassina (Suor Omicidi, 1978), de Guilio Berruti, em que a personagem-título, Irmã Gertrude (interpretada por Anita Ekberg) é a Madre Superiora de um sanatório, cujas transgressões vão desde uso de drogas - a irmã é viciada em morfina – até assassinato; e Monjas Pecadoras (La Monaca Del Peccato, 1986), de Aristide Massaccesi (mais conhecido como Joe D’Amato, devotado diretor de filmes de sexo explícito italianos).