domingo, 23 de janeiro de 2011

Grave of the Vampire (1974): um vampiro das antigas!



Grave of the Vampire (1974) é uma pequena pérola dentre a vasta produção de filmes sobrre vampiros realizados nos Estados Unidos na década de 1970. Pouco lembrado e raramente exibido, apresenta situações interessantes que o distinguem numa época em que os vampiros ainda seguiam o tradicional paradigma do Drácula. Sendo assim, está mais próximo em ousadia de Blácula, o Vampiro Negro (Blacula, 1972) do que dos também contemporâneos Conde Yorga (Count Yorga, Vampire/ 1970) ou o Janos Skorzeny do telefilme The Night Stalker (1972).

Dirigido por John Hayes, especialista em filmes B e exploitation que também foi co-autor do roteiro, compensa com criatividade o baixo orçamento da produção. A trama tem longa introdução anos 40 com o ataque, por um ser das trevas (o eficiente e eterno coadjuvante Michael Pataki), de um improvável casal que está em idílio romântico no cemitério. Após ser despertado em seu caixão e matar o rapaz, o vampiro arrasta a jovem Leslie para uma cova recém aberta e a estupra. Identificado pela polícia como Caleb Croft, um assassino e estuprador morto anos antes em Boston, elimina o detetive que o perseguia. Nove meses depois, Leslie dá à luz em dramática seqüência a um pequeno monstro, um híbrido humano-vampiro, que alimenta com o próprio sangue. Esforço que, com o passar do tempo, esgota suas forças, causando-lhe a morte. O filho, James Eastman (outro astro de filmes baratos, William Smith) passa a ter como objetivo, enquanto luta contra a sede de sangue comendo carne crua, caçar e livrar o mundo do monstro que o gerou. Um dos precursores da figura agora tão comum do “vampiro relutante”.

Fica clara a semelhança com outro famoso vampiro criado pouco antes da realização do filme pelos talentosos Marv Wolfman e Gene Colan para a Marvel Comics: o personagem Blade, lançado na revista em quadrinhos Tomb of Drácula 13 (outubro de 1973). Também híbrido graças ao ataque de uma criatura da noite à sua mãe durante a gestação e, por sua vez, inimigo mortal da espécie.

O reencontro entre pai e filho se dá em tempos atuais (no caso a década de 70), quando Eastman se matricula em um curso de ocultismo – modismo naqueles tempos - ministrado pelo sinistro Adrian Lockwood. A partir daí, repetem-se os clichês habituais de ambiência gótica (como sessões espíritas, possessões), trazendo ecos de outra produção famosa no período: a novela Dark Shadows (1966-1971). Entram na narrativa as amigas Anne Arthur e Anita Jacoby (Lyn Peters e Diane Holden respectivamente, atrizes egressas das séries de televisão). A primeira objeto de desejo do monstro graças à semelhança com sua falecida esposa Sarah, e interesse romântico do mocinho Eastman; a outra uma mística interessada em virar vampira. Anita descobre a verdade sobre Lockwood em um velho livro de ciências ocultas e seu passado não só como o estuprador Caleb Croft, mas como a antigo vampiro Charles Croydon. O que vai desencadear os acontecimentos que levarão ao inevitável desfecho trágico, com o embate final entre duas gerações de vampiros.

Grave of the Vampire, ainda que conte com um roteiro meio apressado e pontuado por incoerências, merece ser conferido, inclusive pela estética tão característica da década de sua produção, tanto nos elementos cenográficos, figurinos e trilha sonora groovy; quanto nos enquadramentos e utilização do zoom. Curiosidade: o ator Michael Pataki interpretou o rei dos vampiros no cultuado Zoltan, o Cão Vampiro de Drácula (Dracula’s Dog / 1978).

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Banquete da Morte (Feast / 1992)



Existem obras cinematográficas que se enquadram perfeitamente na controversa categora dos “melhores dos piores”. Produções que indico somente aos iniciados naquela classe de filmes Z, assim denominados por Michael Weldon, autor das consagradas enciclopédias de filmes “psicotrônicos”, por seu caráter de total inépcia e pobreza na realização. Fatores compensados por recursos apelativos – geralmente envolvendo sexo e violência – que acabam muitas vezes tornando essa tosca filmografia de difícil distribuição e veiculação. E fazendo com que algumas dessas pérolas da criatividade e picaretagem conquistem um número de aficionados que os elevam à categoria de cult. Dentre essas produções, que não recomendo para serem assistidas a dois num encontro regado a pipoca (a não ser que seu interesse romântico também seja afeito a essas coisas estranhas) com o risco de um fenomenal pé-na-bunda, está esse independente Banquete da Morte (Feast/1992).

Dirigido pelo expert em armamentos e efeitos especiais Mike Tristano, que fez carreira prestando serviços para diversos diretores de filmes B e posteriormente se tornou realizador, Banquete da Morte trata com bastante humor de um tema pouco palatável e por isso mesmo recorrente em filmes de horror e exploitation: o canibalismo. Trazendo à memória a forma e conteúdo da “trilogia de sangue” de Herschell Gordon Lewis, sem o mesmo brilhantismo. É protagonizado pela veterana e polêmica pornstar Sharon Mitchell (desde os anos 1970 na indústria x-rated) como Brenda Whitlock, psiquiatra fascinada pelas bizarras fixações de um paciente (Chuck Gavoian). Um serial killer que em parceria com outro tarado (Neil Delama – ator frequente nas produções de Tristano), espalha o terror em Los Angeles. Eles se fingem de produtores e atraem jovens aspirantes a atrizes, que matam e degustam com requintes. Os crimes atraem a atenção da polícia, sendo solicitada a ajuda do antropólogo perito em rituais bizarros Peter Harris. O acadêmico acaba colocando mais lenha na fogueira, alimentando com relatos de canibalismo as fantasias da namorada psiquiatra, cada vez mais obcecada e excitada sexualmente pelas atividades dos assassinos.

Ainda que patente em sua pobreza, Banquete de Morte pode surpreender por apresentar diálogos e uma atuação um pouco acima da média para esse tipo de produção, além de efeitos e maquiagem convincentes nas cenas de sangue-e-tripas. Certamente devido à supervisão da equipe responsável pelo próprio Tristano, que sempre teve como uma de suas metas a confecção de efeitos de qualidade para filmes de baixo orçamento.

Como não poderia deixar de ser, apela para o sexo softcore e explora a nudez das atrizes, não só da sra. Mitchell (ainda dando um caldo aos 36 anos), como de outras pinçadas dos filmes pornô: as também veteranas Veronica Hart e Kelly Nichols. Participações especiais de William Smith, figurinha fácil nos filmes e séries de tv das décadas de 70 e 80, como um detetive; e do notório Ron Jeremy numa ponta.

Banquete da Morte foi lançado aqui em VHS, em meados dos anos 90 por uma tal de Crystal. Viva a falta de critério das velhas e boas distribuidoras de fitas VHS. Saudades!!!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Petter Baiestorf: O Doce Avanço da Faca (2010)



Terminada a ressaca da passagem de ano, nada melhor para começar 2011 do que a nova produção da Canibal O Doce Avanço da Faca, do veterano Petter Baiestorf. Realizador catarinense que venho acompanhando com dedicado interesse desde os anos 1990, sendo sua trajetória – que ousei esmiuçar em capítulo do livro Cinema de Bordas 2 - referência para a geração seguinte de cineastas independentes.

Petter, ainda que continue transitando voluntariamente nas trincheiras do que denominou Kanibaru Cinema, conquistou não só corações e mentes nos circuitos alternativos direcionados às produções underground, mas também reconhecimento em outros segmentos da cinefilia. Mesmo que seu Manifesto Canibal, escrito em parceria com o parceiro de longa data César “Coffin”Souza (RJ: Achiamé, 2004) hoje pareça datado – afinal, nota-se no trabalho do realizador uma evolução e amadurecimento que supera alguns preceitos daquele período -, percebe-se que a essência de sua singular filosofia anárquica e escatológica permanece inalterada. Sendo assim, encontramos um padrão temático e ideológico que atravessa a produção de Petter Baiestorf desde suas experiências iniciais, passando pela fase trash-hardcore que vingou até inicio do novo milênio, e chega à atual etapa, na qual se vêem em termos técnicos e narrativos os resultados de longa prática e aprendizado. Essa assinatura, reconhecível – certamente não vou me deter em discussões bizantinas sobre “cinema de autor” -, não só faz com que o trabalho do cineasta tenha uma identidade própria, mas fornece substrato para que seja inserido na senda do Cinema de Transgressão, sobre o qual discorreu Jack Hunter no seminal Deathripping – The Cinema of Transgression (Creation Books, 1999). Talvez possa inclusive especular se não seria Petter hoje em dia o mais emblemático representante dessa pouco conhecida vertente em terras brasileiras.

O Doce Avanço da Faca (2010), curta metragem gore feminista (de acordo com o próprio realizador), segue a fórmula utilizada nas produções mais recentes da Canibal, principalmente Arrobada – Vou Mijar na Porra do seu Túmulo!!! (2007) e Vadias do Sexo Sangrento (2008), onde a apropriação do universo do cinema (s)exploitation dos anos 1970 e 1980 é a tônica dominante.

O filme conta a trágica história de um desenhista de histórias em quadrinhos pornôs (o sempre divertido Coffin Souza) e sua musa Ana Clara (a novada e tesudíssima Gisele Ferran), aspirante a poetisa com invejável apetite sexual. Casal que, ao fixar moradia em atrasada localidade no interior, desperta a fúria de um grupo de fanáticos religiosos.

Partindo dessa premissa, Petter Baiestorf – que também assina a produção e o roteiro – destila seu veneno com bastante ironia e humor negro contra desafetos habituais: a intolerância e maniqueísmo religioso e o atraso cultural interiorano (retratados em outro contexto no anterior e genial Ninguém Deve Morrer/2009). Criando situações que desencadeiam atos de violência extrema protagonizados pelos religiosos e pela vingadora Ana Clara (que passa a denominar-se Fúria) e servem para a exploração do sangue-e-tripas explícito, com facadas, desmembramentos, corpos explodindo e banhos de sangue.

A escolha de uma protagonista feminina, devo ressaltar, não é gratuita. Como chamou a atenção Bev Zalcock em Renegade Sisters (Creation Books, 1998), nos filmes exploitation é tradicional a inclusão de personagens femininos fortes e atuantes. Acabam se tornando, conforme o escritor, a norma, ao invés da exceção (ao contrário das produções tradicionais) e devido à sua força motriz derivar da sexualidade, elas são quentes, valentes e extremamente perigosas. Como se torna a personagem principal de A Vingança de Jennifer (I Spit on Your Grave, 1978), a One Eye de Thriller: a Cruel Picture (1974), ou mesmo a Noiva de Kill Bill (2003). Papel que é defendido com bastante honestidade por Gisele Ferran, que também mostra desenvoltura nas ousadas cenas de sexo e tem seus detalhes anatômicos enquadrados de forma generosa pela câmera.

Sem me deter muito na narrativa em si para não estragar o divertimento, atenção para a seqüência em que Ana Clara recita uma poesia, enquanto são apresentados na tela os quadrinhos de sacanagem de seu companheiro, na verdade desenhados por Leyla Buk (ver link abaixo). E para o curioso cadáver descarnado crucificado em segundo plano, quando os fanáticos religiosos estão reunidos na floresta.

O Doce Avanço da Faca conta, no elenco, com atores recorrentes da Canibal: o impagável Jorge Timm, Élio Copini, Minuano e Airton Bratz.

Não perca!



Melhor frase do filme, proferida pelo pastor (Timm): “Deus não gosta de putinha!”



Notas sobre a produção:



http://canibuk.wordpress.com/2010/10/14/o-doce-avanco-da-faca/



Desenhos:



http://canibuk.wordpress.com/2010/10/29/desenhos-eroticos-da-buk-no-doce-avanco-da-faca/

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Última postagem do ano: Maria Erótica, livro de Gonçalo Junior


Terminando o ano, lamentando a irregularidade das postagens entre os meses de outubro e dezembro devido a sobrecarga de trabalho, resolvi não abordar nenhum filme. Isso porque estive mergulhado nos últimos dias em um livro que não só atraiu totalmente minha atenção como despertou lembranças de um período do qual me recordo muito bem: Maria Erótica e o Clamor do Sexo: Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar 1964/1985 (SP: Editoractiva, 2010), de Gonçalo Junior.
Aficionado e colecionador de revistas em quadrinhos, tenho especial afeto pelas hqs de terror que comprava na infância e adolescência, ainda que proibidas para menores na época por suas cenas de violência e nudez. Leitor assíduo dos títulos da Edrel e da Taíka (e depois a paranaense Grafipar), principalmente, tive contato com o trabalho de artistas como Nico Rosso, Rodolfo Zalla, Eugenio Colonnese; além das estrelas do livro de Gonçalo Junior: Minami Keizi, Claudio Seto, Pulo I. Fukue e Fernando Ikoma. Através das trajetórias marcadas por muito trabalho, dedicação e desilusões desses que foram responsáveis por uma revolução no quadrinho nacional, o autor desvela em rigorosa e inédita pesquisa o estabelecimento da Censura pela Ditadura Militar e seus desdobramentos. Notadamente no que diz respeito a aspectos de cunho sexual
, com destaque para as publicações de bancas - quadrinhos e revistas masculinas - mas também dando pinceladas , para contextualizar, em outros setores da cultura. Lembrando que para a turma da vigilância, a sacanagem era uma artimanha de Moscou para desestabilizar a Revolução e os valores defendidos pela moral e os bons costumes.
Dividido em 16 capítulos, a extensa obra (são quase 500 páginas) de narrativa fluida e quase impossível parar de ler, é uma viagem no tempo, obrigatória não apenas para aqueles que vivenciaram o período e se deleitavam com as "garotas de papel" que em fotos e desenhos tentavam burlar os censores com um peitinho aqui e uma bundinha ali; mas também para quem quiser saber mais, em tempos de pornografia explícita ao alcance de todos, sobre uma época onde uma minoria encoberta pelas sombras do autoritarismo decidia com critérios duvidosos o que os brasileiros podiam ver, ler e ouvir.
o Livro Maria Erótica (nome de personagem criada por Seto para a Edrel), através do resgate dessa tortuosa aventura protagonizada por editores e artistas, é também um libelo contra a censura. Um ótimo presente de Natal!!!
Até janeiro e Boas Festas!!!!


Vídeo no Youtube sobre o livro:

http://www.youtube.com/watch?v=1XWOZlEzZWw

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Notas sobre o exploitation italiano: Nunsploitation


O que mais me chama atenção em relação ao exploitation italiano é a forma como suas produções, cuja forma foi “tomada emprestada” e re-adaptada, ganharam uma cor local, revestidas pelo contexto sócio-cultural, apresentando características bastante singulares. Durante as décadas de 60 e 70, até meados dos anos 80, proliferaram inúmeros filmes decalcados dos mais variados gêneros, como horror, ficção científica, espionagem ao estilo James Bond e comédias eróticas. Muitas vezes, os produtores italianos se aproveitavam da expectativa em torno do lançamento de um algum filme pelos estúdios de Hollywood, ou mesmo do sucesso deste em bilheteria, e colocavam no mercado vários títulos feitos às pressas com temática semelhante com o óbvio intuito de receber uma fatia dos lucros. Isso ficou mais evidente durante a década de 70, quando o formato da indústria italiana começou a se modificar, enfrentando o afastamento do público das salas e a concorrência da tv. Um bom exemplo são as produções em que a temática é a possessão demoníaca ou diabolismo, em voga na época desde o impacto de O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby/1968) e O Exorcista (The Exorcist/1973). Como O Anticristo (Anticristo,1974), de Alberto De Martino (que já foi tema de postagem). Uma das melhores apropriações das idéias principais contidas nos filmes de Polanski e Friedkin, com o significativo acréscimo de referências ao universo religioso e ao passado marcado pela inquisição e superstições medievais. Elementos que compõem o imaginário católico romano, bastante distintos da versão anglo-saxônica dos fenômenos religiosos-sobrenaturais prevalecente nos filmes norte americanos e ingleses. Dentro dessa perspectiva, posso dizer que foi na Itália onde melhor floresceu uma vertente do cinema exploitation bastante próixima da linha women-in-prison: o nunsploitation (ou nunxploitation, como também é chamado) Subgênero sustentado por uma visão nada ortodoxa do cotidiano das ordens religiosas femininas, em que os desejos reprimidos e a tensão sexual presente fornecem o pretexto para a oportunista exibição de cenas de nudez, lesbianismo, sadomasoquismo e, freqüentemente, satanismo. Essas produções, em geral, tratam de uma jovem noviça que foi encarcerada num convento e lá é submetida a abusos sexuais e torturas, em geral conduzidas pela Madre Superiora perversa. São representativos dessa vertente filmes como A Monja de Monza (La Monaca di Monza, 1968), de Eritando Visconti; Flavia, a Herética (Flavia, La Monaca Musulmana, 1974), de Gianfranco Mingozzi, este último incluindo cenas bastante explícitas de sexo e violência, com orgias de freiras, estupros e o esfolamento em vida da pobre Flávia (a brasileira Florinda Bolkan). Também os sugestivos Le Scomunicate di S. Valentino (1974), de Sergio Grieco; Por Trás dos Muros do Convento (Interno di um Convento, 1977), de Walerian Borowczyc; A Freira Assassina (Suor Omicidi, 1978), de Guilio Berruti, em que a personagem-título, Irmã Gertrude (interpretada por Anita Ekberg) é a Madre Superiora de um sanatório, cujas transgressões vão desde uso de drogas - a irmã é viciada em morfina – até assassinato; e Monjas Pecadoras (La Monaca Del Peccato, 1986), de Aristide Massaccesi (mais conhecido como Joe D’Amato, devotado diretor de filmes de sexo explícito italianos).

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O cinema satânico de Kenneth Anger - Pt. 2


Anger, como praticante de alto nível das ciências ocultas, buscava induzir no espectador um estado hipnótico, que o deixaria mais receptivo aos signos e símbolos ocultos. Podemos considerar Invocation of my Demon Brother a obra da qual ele mais se aproximou desse objetivo. Em sua natureza fragmentada encontramos o carro chefe da força da montagem de Anger em propiciar, como ele mesmo disse, um “ataque aos sentidos”. O que se deve, em parte, à rápida e confusa montagem de imagens desconcertantes, exibidas o mínimo suficiente para que delas se possa tirar algum significado; associadas a um repetitivo e inóspito som da trilha. O que confere um sentido de caos, a perda de um centro de referência e um peso que cai sobre o espectador, entorpecendo os seus sentidos e deixando-o propício à manifestação oculta. Aqui, uma conjuração mágica mais agressiva é posta em prática e à medida que o ritual se desenvolve, progride a abstração e a anamorfose. A imagem se deforma e se multiplica, em efeito caleidoscópio.
Seu filme seguinte pode ser considerado, ao contrário de
Invocation of my Demon Brother, seu trabalho mais acessível. Lucifer Rising (filme que passou por várias dificuldades e levou mais de uma década para ser finalizado) foi realizado com o intuito de operar como um encantamento, invocando sentimentos de ansiedade e trauma na audiência através de uma espécie de livre exercício em imagens oníricas envolvendo tabus. A montagem de símbolos herméticos se apresenta primeiro como em um sonho, em seguida ameaçadora; séculos de pensamento místico são destilados em uma série de fantasias voyeuristicas, um psicodrama perverso. Anger pretendia que Lucifer Rising permanecesse como uma forma de ritual que marcasse a morte das velhas religiões – como o judaísmo e o cristianismo – e a ascensão de uma era mais niilista - a Era de Hórus/Lúcifer. A velha ordem se consumindo e dando lugar à nova ordem que nascia.
Lucifer Rising é um retorno às antigas mitologias, uma celebração, e a invocação do poder da Magia para provocar a manifestação das forças naturais, cujas imagens predominam, em meio a ruínas milenares e a visão de deuses reanimados - Ísis e Osíris, respectivamente Myriam Gibril (linda) e Donald Cammel (diretor de O Maníaco do Olho Branco/White of the Eye/1987, entre outros). Lucifer Rising pode ser considerado o último filme realizado por Anger, que deixou em aberto planos para filmar outro dos rituais de Crowley, uma missa gnóstica. Curiosidades: a cantora Marianne Faithfull interpreta Lilith e Bobby Beausoleil, autor da poderosa trilha sonora e ex-membro da "família" Manson. Foi sentenciado a prisão perpétua pelo assassinato do músico Gary Hinman e desde 1969 vê o sol nascer quadrado.
Atualmente com 83 anos Kenneth Anger vem se dedicando a revisões de seus filmes, re-trabalhando detalhes, remontando, adicionando material extra, como novas trilhas sonoras. Suas produções ganharam com o tempo seguidores, tornando-se em alguns casos objetos de culto. O mais importante: suas técnicas bem apuradas e imagens poderosas vêm influenciando toda uma nova geração de cineastas do chamado cinema independente, como Nick Zedd, Richard Kern, Tommy Turner e Tessa Hughes Freeland.

Sobre Anger recomendo o livro Moonchild: the films of Kenneth Anger, editado por Jack Hunter (London: Creation Books, 2001), utilizado como base e fonte principal para o artigo original (referências e citações no texto original, editados para a postagem).

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O cinema satânico de Kenneth Anger - Pt. 1



Aproveitando o lançamento pela Magnum Opus do DVD Enigmático: Cinema Experimental Volume 3, dedicado ao cineasta underground norte-americano Kenneth Anger, tirei da gaveta uma comunicação apresentada na Unicamp e na Socine anos atrás. Devidamente resumida e editada para esta postagem. O artigo completo se encontra nos anais do V Encontro de Pesquisas em Artes e Multimeios.

Mais do que qualquer outro cineasta de sua geração, Kenneth Anger é reconhecido pelo público como realizador de filmes underground e expoente do cinema experimental. Acredito que isso se deve, em parte, à sua personalidade controversa e ao fato de ser um assumido adepto das artes mágicas que encontrou no cinema o meio e o instrumental cerimonial adequado para seus conjuros e feitiços. Nascido na Califórnia em 1927, sua iniciação no cinema se deu ainda criança, quando atuou em uma versão de Sonho de uma Noite de Verão (1935), dirigida por Max Reinhardt e William Dieterle. Durante a juventude, manifestou interesse por ocultismo, tomando conhecimento do trabalho do ocultista inglês Aleister Crowley. Ele se declara abertamente discípulo de Crowley sendo inclusive afiliado à A.: A.: (Argenteum Astrum), ordem criada em 1907 por seu mentor. Fica claro que quando Anger começou a fazer seus filmes, ainda nos anos 40, ele já planejava com o seu trabalho enfeitiçar a audiência por meio de uma criativa síntese de todos os aspectos que envolvem o processo da produção – filmagem, iluminação, cenografia, figurinos, atuação, montagem, revelação e projeção. A sua intenção por trás de filmes como Inauguration of the Pleasure Dome (1954) era expandir a experiência cinemática a novos níveis de percepção, não atingidos durante a vida cotidiana. A natureza esotérica de seus filmes foi projetada para auxiliar a audiência a alcançar um estado alterado da mente. Inauguration of the Pleasure Dome têm sua origem em um baile de máscaras. Anger prestou atenção ao evento e viu que poderia moldar uma reunião semelhante na forma de uma assembléia de magos fantasiados de figuras da mitologia, no que se inspirava em um dos rituais dramáticos de Aleister Crowley, onde membros do culto assumiam a identidade de um deus ou de uma deusa O filme resultante apresenta dois pontos que merecem destaque. Primeiramente, o caráter bastante pessoal impresso por Anger na escolha das figuras mitológicas que comporiam seu panteão, como por exemplo a Grande Besta (Crowley) e sua Mulher Escarlate; Astarte e Pan; e o sonâmbulo Cesare, de O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene (1922). Em segundo lugar, e talvez até mais importante, o fato de que com esse filme, o trabalho de Anger assume a forma de rituais religiosos. Inauguration of the Pleasure Dome mistura o sagrado e o profano, em uma decadente eucaristia. Ele não utiliza um ritual específico, que seria entoado em palavras. Ao contrário, centraliza suas forças no esplendor visual e na trilha sonora. Ele quer que o espectador esteja preso ao uso progressivo da cor e de uma fantasia que se torna completamente subjetiva.

Em trabalhos posteriores, como Invocation of my Demon Brother (1969) e Lucifer Rising (1970-81) – ambos presentes no DVD da Magnum Opus -, Anger experimentou várias formas de montagem, projeção, sobreposição de imagens e outras formas de experimentações visuais em seu intento de concretizar de forma mais plena a magia esotérica do processo cinematográfico. Para ele, a exibição de seus filmes é um sério e potencialmente perigoso ritual alquímico; uma técnica e hipnótica forma de projeção astral.

Continua na próxima postagem, dia 13/11... Quem estiver em Juiz de Fora (MG) na próxima semana (de 9 a 11) , um programa imperdível é o Bordas Fora 2 - Cinema de Bordas em Juiz de Fora. Está programada uma mostra de filmes de realizadores independentes de várias localidades do Brasil, assim como debates e palestras. As sessões acontecerão no Museu de Arte Murilo Mendes (abertura, dia 9 às 20 hs.) e no Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF (dias 10 e 11, respectivamente às 19 hs. e 17 hs.).