segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Última postagem do ano: Maria Erótica, livro de Gonçalo Junior


Terminando o ano, lamentando a irregularidade das postagens entre os meses de outubro e dezembro devido a sobrecarga de trabalho, resolvi não abordar nenhum filme. Isso porque estive mergulhado nos últimos dias em um livro que não só atraiu totalmente minha atenção como despertou lembranças de um período do qual me recordo muito bem: Maria Erótica e o Clamor do Sexo: Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar 1964/1985 (SP: Editoractiva, 2010), de Gonçalo Junior.
Aficionado e colecionador de revistas em quadrinhos, tenho especial afeto pelas hqs de terror que comprava na infância e adolescência, ainda que proibidas para menores na época por suas cenas de violência e nudez. Leitor assíduo dos títulos da Edrel e da Taíka (e depois a paranaense Grafipar), principalmente, tive contato com o trabalho de artistas como Nico Rosso, Rodolfo Zalla, Eugenio Colonnese; além das estrelas do livro de Gonçalo Junior: Minami Keizi, Claudio Seto, Pulo I. Fukue e Fernando Ikoma. Através das trajetórias marcadas por muito trabalho, dedicação e desilusões desses que foram responsáveis por uma revolução no quadrinho nacional, o autor desvela em rigorosa e inédita pesquisa o estabelecimento da Censura pela Ditadura Militar e seus desdobramentos. Notadamente no que diz respeito a aspectos de cunho sexual
, com destaque para as publicações de bancas - quadrinhos e revistas masculinas - mas também dando pinceladas , para contextualizar, em outros setores da cultura. Lembrando que para a turma da vigilância, a sacanagem era uma artimanha de Moscou para desestabilizar a Revolução e os valores defendidos pela moral e os bons costumes.
Dividido em 16 capítulos, a extensa obra (são quase 500 páginas) de narrativa fluida e quase impossível parar de ler, é uma viagem no tempo, obrigatória não apenas para aqueles que vivenciaram o período e se deleitavam com as "garotas de papel" que em fotos e desenhos tentavam burlar os censores com um peitinho aqui e uma bundinha ali; mas também para quem quiser saber mais, em tempos de pornografia explícita ao alcance de todos, sobre uma época onde uma minoria encoberta pelas sombras do autoritarismo decidia com critérios duvidosos o que os brasileiros podiam ver, ler e ouvir.
o Livro Maria Erótica (nome de personagem criada por Seto para a Edrel), através do resgate dessa tortuosa aventura protagonizada por editores e artistas, é também um libelo contra a censura. Um ótimo presente de Natal!!!
Até janeiro e Boas Festas!!!!


Vídeo no Youtube sobre o livro:

http://www.youtube.com/watch?v=1XWOZlEzZWw

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Notas sobre o exploitation italiano: Nunsploitation


O que mais me chama atenção em relação ao exploitation italiano é a forma como suas produções, cuja forma foi “tomada emprestada” e re-adaptada, ganharam uma cor local, revestidas pelo contexto sócio-cultural, apresentando características bastante singulares. Durante as décadas de 60 e 70, até meados dos anos 80, proliferaram inúmeros filmes decalcados dos mais variados gêneros, como horror, ficção científica, espionagem ao estilo James Bond e comédias eróticas. Muitas vezes, os produtores italianos se aproveitavam da expectativa em torno do lançamento de um algum filme pelos estúdios de Hollywood, ou mesmo do sucesso deste em bilheteria, e colocavam no mercado vários títulos feitos às pressas com temática semelhante com o óbvio intuito de receber uma fatia dos lucros. Isso ficou mais evidente durante a década de 70, quando o formato da indústria italiana começou a se modificar, enfrentando o afastamento do público das salas e a concorrência da tv. Um bom exemplo são as produções em que a temática é a possessão demoníaca ou diabolismo, em voga na época desde o impacto de O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby/1968) e O Exorcista (The Exorcist/1973). Como O Anticristo (Anticristo,1974), de Alberto De Martino (que já foi tema de postagem). Uma das melhores apropriações das idéias principais contidas nos filmes de Polanski e Friedkin, com o significativo acréscimo de referências ao universo religioso e ao passado marcado pela inquisição e superstições medievais. Elementos que compõem o imaginário católico romano, bastante distintos da versão anglo-saxônica dos fenômenos religiosos-sobrenaturais prevalecente nos filmes norte americanos e ingleses. Dentro dessa perspectiva, posso dizer que foi na Itália onde melhor floresceu uma vertente do cinema exploitation bastante próixima da linha women-in-prison: o nunsploitation (ou nunxploitation, como também é chamado) Subgênero sustentado por uma visão nada ortodoxa do cotidiano das ordens religiosas femininas, em que os desejos reprimidos e a tensão sexual presente fornecem o pretexto para a oportunista exibição de cenas de nudez, lesbianismo, sadomasoquismo e, freqüentemente, satanismo. Essas produções, em geral, tratam de uma jovem noviça que foi encarcerada num convento e lá é submetida a abusos sexuais e torturas, em geral conduzidas pela Madre Superiora perversa. São representativos dessa vertente filmes como A Monja de Monza (La Monaca di Monza, 1968), de Eritando Visconti; Flavia, a Herética (Flavia, La Monaca Musulmana, 1974), de Gianfranco Mingozzi, este último incluindo cenas bastante explícitas de sexo e violência, com orgias de freiras, estupros e o esfolamento em vida da pobre Flávia (a brasileira Florinda Bolkan). Também os sugestivos Le Scomunicate di S. Valentino (1974), de Sergio Grieco; Por Trás dos Muros do Convento (Interno di um Convento, 1977), de Walerian Borowczyc; A Freira Assassina (Suor Omicidi, 1978), de Guilio Berruti, em que a personagem-título, Irmã Gertrude (interpretada por Anita Ekberg) é a Madre Superiora de um sanatório, cujas transgressões vão desde uso de drogas - a irmã é viciada em morfina – até assassinato; e Monjas Pecadoras (La Monaca Del Peccato, 1986), de Aristide Massaccesi (mais conhecido como Joe D’Amato, devotado diretor de filmes de sexo explícito italianos).

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O cinema satânico de Kenneth Anger - Pt. 2


Anger, como praticante de alto nível das ciências ocultas, buscava induzir no espectador um estado hipnótico, que o deixaria mais receptivo aos signos e símbolos ocultos. Podemos considerar Invocation of my Demon Brother a obra da qual ele mais se aproximou desse objetivo. Em sua natureza fragmentada encontramos o carro chefe da força da montagem de Anger em propiciar, como ele mesmo disse, um “ataque aos sentidos”. O que se deve, em parte, à rápida e confusa montagem de imagens desconcertantes, exibidas o mínimo suficiente para que delas se possa tirar algum significado; associadas a um repetitivo e inóspito som da trilha. O que confere um sentido de caos, a perda de um centro de referência e um peso que cai sobre o espectador, entorpecendo os seus sentidos e deixando-o propício à manifestação oculta. Aqui, uma conjuração mágica mais agressiva é posta em prática e à medida que o ritual se desenvolve, progride a abstração e a anamorfose. A imagem se deforma e se multiplica, em efeito caleidoscópio.
Seu filme seguinte pode ser considerado, ao contrário de
Invocation of my Demon Brother, seu trabalho mais acessível. Lucifer Rising (filme que passou por várias dificuldades e levou mais de uma década para ser finalizado) foi realizado com o intuito de operar como um encantamento, invocando sentimentos de ansiedade e trauma na audiência através de uma espécie de livre exercício em imagens oníricas envolvendo tabus. A montagem de símbolos herméticos se apresenta primeiro como em um sonho, em seguida ameaçadora; séculos de pensamento místico são destilados em uma série de fantasias voyeuristicas, um psicodrama perverso. Anger pretendia que Lucifer Rising permanecesse como uma forma de ritual que marcasse a morte das velhas religiões – como o judaísmo e o cristianismo – e a ascensão de uma era mais niilista - a Era de Hórus/Lúcifer. A velha ordem se consumindo e dando lugar à nova ordem que nascia.
Lucifer Rising é um retorno às antigas mitologias, uma celebração, e a invocação do poder da Magia para provocar a manifestação das forças naturais, cujas imagens predominam, em meio a ruínas milenares e a visão de deuses reanimados - Ísis e Osíris, respectivamente Myriam Gibril (linda) e Donald Cammel (diretor de O Maníaco do Olho Branco/White of the Eye/1987, entre outros). Lucifer Rising pode ser considerado o último filme realizado por Anger, que deixou em aberto planos para filmar outro dos rituais de Crowley, uma missa gnóstica. Curiosidades: a cantora Marianne Faithfull interpreta Lilith e Bobby Beausoleil, autor da poderosa trilha sonora e ex-membro da "família" Manson. Foi sentenciado a prisão perpétua pelo assassinato do músico Gary Hinman e desde 1969 vê o sol nascer quadrado.
Atualmente com 83 anos Kenneth Anger vem se dedicando a revisões de seus filmes, re-trabalhando detalhes, remontando, adicionando material extra, como novas trilhas sonoras. Suas produções ganharam com o tempo seguidores, tornando-se em alguns casos objetos de culto. O mais importante: suas técnicas bem apuradas e imagens poderosas vêm influenciando toda uma nova geração de cineastas do chamado cinema independente, como Nick Zedd, Richard Kern, Tommy Turner e Tessa Hughes Freeland.

Sobre Anger recomendo o livro Moonchild: the films of Kenneth Anger, editado por Jack Hunter (London: Creation Books, 2001), utilizado como base e fonte principal para o artigo original (referências e citações no texto original, editados para a postagem).

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O cinema satânico de Kenneth Anger - Pt. 1



Aproveitando o lançamento pela Magnum Opus do DVD Enigmático: Cinema Experimental Volume 3, dedicado ao cineasta underground norte-americano Kenneth Anger, tirei da gaveta uma comunicação apresentada na Unicamp e na Socine anos atrás. Devidamente resumida e editada para esta postagem. O artigo completo se encontra nos anais do V Encontro de Pesquisas em Artes e Multimeios.

Mais do que qualquer outro cineasta de sua geração, Kenneth Anger é reconhecido pelo público como realizador de filmes underground e expoente do cinema experimental. Acredito que isso se deve, em parte, à sua personalidade controversa e ao fato de ser um assumido adepto das artes mágicas que encontrou no cinema o meio e o instrumental cerimonial adequado para seus conjuros e feitiços. Nascido na Califórnia em 1927, sua iniciação no cinema se deu ainda criança, quando atuou em uma versão de Sonho de uma Noite de Verão (1935), dirigida por Max Reinhardt e William Dieterle. Durante a juventude, manifestou interesse por ocultismo, tomando conhecimento do trabalho do ocultista inglês Aleister Crowley. Ele se declara abertamente discípulo de Crowley sendo inclusive afiliado à A.: A.: (Argenteum Astrum), ordem criada em 1907 por seu mentor. Fica claro que quando Anger começou a fazer seus filmes, ainda nos anos 40, ele já planejava com o seu trabalho enfeitiçar a audiência por meio de uma criativa síntese de todos os aspectos que envolvem o processo da produção – filmagem, iluminação, cenografia, figurinos, atuação, montagem, revelação e projeção. A sua intenção por trás de filmes como Inauguration of the Pleasure Dome (1954) era expandir a experiência cinemática a novos níveis de percepção, não atingidos durante a vida cotidiana. A natureza esotérica de seus filmes foi projetada para auxiliar a audiência a alcançar um estado alterado da mente. Inauguration of the Pleasure Dome têm sua origem em um baile de máscaras. Anger prestou atenção ao evento e viu que poderia moldar uma reunião semelhante na forma de uma assembléia de magos fantasiados de figuras da mitologia, no que se inspirava em um dos rituais dramáticos de Aleister Crowley, onde membros do culto assumiam a identidade de um deus ou de uma deusa O filme resultante apresenta dois pontos que merecem destaque. Primeiramente, o caráter bastante pessoal impresso por Anger na escolha das figuras mitológicas que comporiam seu panteão, como por exemplo a Grande Besta (Crowley) e sua Mulher Escarlate; Astarte e Pan; e o sonâmbulo Cesare, de O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene (1922). Em segundo lugar, e talvez até mais importante, o fato de que com esse filme, o trabalho de Anger assume a forma de rituais religiosos. Inauguration of the Pleasure Dome mistura o sagrado e o profano, em uma decadente eucaristia. Ele não utiliza um ritual específico, que seria entoado em palavras. Ao contrário, centraliza suas forças no esplendor visual e na trilha sonora. Ele quer que o espectador esteja preso ao uso progressivo da cor e de uma fantasia que se torna completamente subjetiva.

Em trabalhos posteriores, como Invocation of my Demon Brother (1969) e Lucifer Rising (1970-81) – ambos presentes no DVD da Magnum Opus -, Anger experimentou várias formas de montagem, projeção, sobreposição de imagens e outras formas de experimentações visuais em seu intento de concretizar de forma mais plena a magia esotérica do processo cinematográfico. Para ele, a exibição de seus filmes é um sério e potencialmente perigoso ritual alquímico; uma técnica e hipnótica forma de projeção astral.

Continua na próxima postagem, dia 13/11... Quem estiver em Juiz de Fora (MG) na próxima semana (de 9 a 11) , um programa imperdível é o Bordas Fora 2 - Cinema de Bordas em Juiz de Fora. Está programada uma mostra de filmes de realizadores independentes de várias localidades do Brasil, assim como debates e palestras. As sessões acontecerão no Museu de Arte Murilo Mendes (abertura, dia 9 às 20 hs.) e no Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF (dias 10 e 11, respectivamente às 19 hs. e 17 hs.).


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Convicts Women / Bust Out (1970)


Harry H. Novak, legendário produtor e distribuidor de filmes exploitation foi responsável por levar às telas, através de sua Boxoffice International Pictures uma significativa leva de títulos. Muitos dos quais se tornaram relevantes para o estabelecimento de um gênero e suas diversas ramificações. Assim como aconteceu com seus colegas David Friedman e Russ Meyer, o período áureo da Boxoffice International foram as décadas de 1960 e 1970, quando estimulados pelos novos ventos libertários, forçavam os limites do que era permitido mostrar antes da liberação da pornografia que ocorreria em 1972 com Garganta Profunda (Deep Throat). Dentre a vasta produção da companhia, que encerraria suas atividades no final da década de 1970 para dar lugar à Valiant International, destinada a filmes de sexo explícito, selecionei este Convicts Women (também conhecido como Bust Out). Título que agrega os principais elementos do sexploitation com notável presença de nudez (inclusive frontal) e sexo simulado. Convicts Women foi dirigido por John Hayes, especializado no gênero, e conta a história de um casal de meia idade (Myron Griffin e a bem fornida Candy Samples) e suas alunas de uma escola católica. O líder do grupo, Brown, tem como objetivo um aprazível piquenique no campo, onde discutiriam questões teológicas e comportamentais. Mas as garotas, ao que tudo indica, estão com outras idéias, começando pela astuciosa Darlene (René Bond, figurinha fácil nas produções hardcore do início dos anos 70), que dá uma escapulida para transar com o namorado (Steven Sommers). Para complicar, dois prisioneiros foragidos (Ralph Wain e Ric Lutze - que formaria uma duradoura parceria com René Bond dentro e fora das telas) aparecem se passando por geólogos e são recebidos por Brown, integrando-se ao pequeno grupo. Após forçarem as garotas ao sexo, os bandidos tornam todos reféns e os levam para uma cidade fantasma. São perseguidos pelo namorado de Darlene, que os confronta e elimina a tiros de espingarda.
Convicts Women, apesar de sua produção paupérrima e interpretações canhestras - principalmente do histriônico Myron Griffin - cumpre o que promete: belas mulheres sem roupa e muitas seqüências de sexo beirando o explícito (algumas tão convincentes que ficamos em dúvida). Alfineta a moral cristã em uma épca de embates entre caretas e desbundados evidenciando o caráter lúbrico do santarrão Brown e a vontade de dar das meninas, que logo se entregam às várias formas de jogos sexuais promovidos pelos bandidos. Destaque para a esperada e sempre bemvinda nudez de Candy Samples, com seus gigantescos atributos.
Lançado em vídeo nos Estados Unidos pela Something Weird.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Nas bordas do cinema argentino


Aproveitanda minha última viagem à capital portenha na semana passada (o que justifica a ausência de postagem), tentei unir o útil ao agradável, buscando aprofundar um pouco mais meu conhecimento do universo cinematográfico argentino voltado ao horror e exploitation. Ou seja, buscando algo além do "cine de terror" de Emilio Vieyra (Extraña invasiion/1965; Sangre de Virgenes/1967) e Enrique Carreras (Obras Maestras del Terror/1960), dos peitos de Isabel Sarli ou de women in prison como Atrapadas (1984), de Anibal Di Salvo. Produção ao que tudo indica escassa, apesar de ainda não ter me debruçado com maior profundidade sobre o assunto. Principalmente face a falta de material bibliográfico ou mesmo disponibilidade de títulos em DVD. Foram longas andanças percorrendo as livrarias e sebos de Buenos Aires, que são inúmeros (principalmente na calle Corrientes) - especialmente as das redes El Ateneo (que também vendem CDs e DVDs) e Musimundo (grande acervo de música e filmes).
A grande recompensa dessa peregrinação foi descobrir que no cinema argentino, se renovando desde 1995 (o chamado Nuevo Cine) com obras de teor dramático e político, vem surgindo aos poucos obras voltadas para o horror e o suspense como Visitante de Invierno (2007), com co-produção espanhola; o thriller de horror Aparecidos (2007); e a comédia sobrenatural Fantasma de Buenos Aires (2008). Fora isso, o que realmente deu alento foi saber que, como no Brasil, é pela iniciativa de jovens independentes que títulos de contexto horrorífico e bizarro vão se proliferando. Distribuídos no circuito alternativo (lojas especializadas em vídeos e internet), apresentam as mesmas características de nossos filmes de bordas (denominação que remete à professora e pesquisadora Bernadette Lyra - para se inteirar melhor, leia os livros de nosso grupo de pesquisa clicando nas capinhas ao lado).
Produção que remonta a 1997, com o filme de zumbis Plaga Zombie (de Pablo Parés e Hernán Sáez (que ganhou continuação em 2001 - Plaga Zombie: Zona Mutante). Confirmando os zumbis como queridinhos da turma do horror alternativa. Seguindo essa tendência, foram rodados Mi Suegra és un Zombie (2001), Contagio (2005), Rigor Mortis (2006) e Un Cazador de Zombies (2008). Mas não versam somente sobre zumbis essa vertente da cinematografia argentina. Os vampiros dão as caras em Eklipsa Dana Vampir (2007); maldições e bruxarias em El Marfil (2004), baseado em A Pata do Macaco de W.W. Jacobs; o bizarro em Recortadas (2009) e Sed - Enemigo del Aire (2004); e a violência explícita em Sadomaster (2005), Habitaciones para Turistas (2004), No Moriré Sola (2008) - considerado o I Spit in your Grave/A Vingança de Jennifer argentino - e 36 Pasos (2006).
Essa amostragem é incompleta. Apeanas uma primeira aproximação de assunto ao qual pretendo dedicar mais atenção e espaço. Aceito sugestões e colaborações, com indicações de novos títulos e dicas de como adquiri-los ou baixá-los.
Na foto acima detalhe da fachada do Cine Monumental, cinema na calle Lavalle, uma das principais artérias do centro de Buenos Aires, que cruza a famosa calle Florida, reduto da turistada brasileira.

sábado, 11 de setembro de 2010

Caçadas Eróticas (1984)


Na primeira metade da década de 1980, a DaCar, bem sucedida produtora cinematográfica do galã David Cardoso enveredava na produção de filmes em episódios. Empolgado com a vitoriosa bilheteria de A Noite das Taras (1980), composto por três dramas eróticos com cenas de sexo quase explícitas, a empresa investiu em mais quatro títulos seguindo essa linha: Aqui, Tarados! (1980), Pornô (1981), A Noite das Taras 2 (1982) e Caçadas Eróticas (1984). Todos seguindo a mesma abordagem: ousadas narrativas sustentadas pelos afiados diálogos do argumentista e também diretor Ody Fraga, eficiência técnica, mulheres bonitas (Matilde Mastrangi, Alvamar Taddei, Sônia Garcia, Zaira Bueno, Zélia Diniz, Patrícia Scalvi) e muita nudez e sacanagem. Filmes que revi para comunicação a ser apresentada no próximo encontro da Socine, que ocorrerá no próximo mês em Recife.

Caçadas Eróticas, alardeado como o primeiro filme de sexo explícito de David Cardoso, é o último e o menos inspirado da série. Não só porque já evidenciava o cansaço da fórmula, mas também porque prenunciava o canto do cisne da empresa que logo após tentaria capitalizar em cima do hardcore e fecharia as portas em 1987. Também é o menos badalado, justificativa para essa postagem.

Contudo, ainda traz a maestria de Ody como roteirista e as características principais do cinema produzido pela Dacar em três episódios irregulares. Chama a atenção que Caçadas Eróticas foge do padrão das produções anteriores por não apresentar nenhuma história de fundo dramático, com pano de fundo policial ou sobrenatural, dando preferência somente à comédia erótica. Afinal, um dos grandes diferenciais dessa linha de filmes era dosar episódios mais leves, mais próximos ao que se convencionou chamar de pornochanchada, com tramas construídas sobre elementos narrativos mais pesados. Por exemplo, o sangrento O Pasteleiro de Aqui Tarados!, ou o violinista psicopata de Solo de Violino, presente em A Noite das Taras 2.

Caçadas Eróticas abre com A Espiã Portuguesa, episódio cômico na mesma linha de A Guerra da Malvina (de A Noite das Taras 2) e O Prazer da Virtude (de Pornô), repetindo a parceria entre David Cardoso e a voluptuosa e sempre linda Matilde Mastrangi. Dirigido pelo próprio ator, conta a história de um empresário que, durante estadia em Portugal, passa a ser perseguido por bandidos e encontra misteriosa mulher com quem se envolve. Na verdade, uma vigarista que acaba lhe passando a perna. A Espiã Portuguesa brinca com a imagem do ator, ao mesmo tempo que serve de veículo para exibir seus dotes físicos. Longas seqüências de sexo simulado que valem, como de costume, para nos deliciarmos com as formas de Matilde Mastragi – notadamente o derrière famoso.

A segunda história, sem título, é a melhor do filme. Dirigida por Cláudio Portiolli é a mais divertida da série no quesito sacanagem, sendo superada somente por A Tia de André (de Aqui, Tarados!). Conta as desventuras de um casal separado, em pé de guerra, circulando pela cidade em busca de novos parceiros. A mulher (a bela Sônia Garcia, mais rechonchuda) conhece um rapaz num bar, enquanto o homem se insinua para uma jovem na rua. Ambos acabam no mesmo apartamento, anteriormente reservado para seus encontros amorosos. Não vale a pena comentar o final inusitado (e atrevido) para não estragar a surpresa.

Punks é o último episódio, com direção de Cardoso, e o mais fraco de Caçadas Eróticas. Já flertando com o sexo explícito, se inspira no ótimo Júlio e o Paraíso, de A Noite das Taras. Mostra uma gang de garotas punks, escondidas em local abandonado na periferia de São Paulo, vivendo de furtos e prostituição. Elas acabam seqüestrando um jovem e dois executivos que, dominados sexualmente, acabam despojados de todos os seus pertences, inclusive as roupas.

Vale a conferida numa próxima exibição no Canal Brasil!