sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Brigitte Lahaie, a Deusa Nórdica de Jean Rollin



Conhecida do público por sua participação nos filmes do diretor francês Jean Rollin, e por ele denominada “deusa nórdica”, Brigitte Lahaie pode ser considerada a principal figura feminina dos filmes B franceses. A carreira de Brigitte Van Meerhaegue (nome de batismo, 1955) começou na década de 1970 em filmes “para adultos”. Produção que, ao contrário de renegar, como é o costume das atrizes que largam o hardcore, ela assume agradecida: “Não me importo em falar sobre esses filmes.” – disse em entrevista – “Foram eles que me fizeram famosa, e seria ridículo negá-los. Fui a primeira sex star francesa, sendo assim, essa reputação me acompanha. Adorei o trabalho, e foi realmente importante para mim. Eu era muito tímida, muito insegura, e fazer esses filmes aumentou minha auto-confiança”. Mas chama a atenção para o fato de ter feito muitas outras coisas, achando estranho as pessoas ainda se interessarem por esse aspecto de sua carreira (imagine!).

Foi durante as filmagens do pornô Vibrations Sexuelles (1977), em que interpretava uma psiquiatra, que Brigitte conheceu Jean Rollin, a cargo da direção. Graças à amizade que surgiu entre os dois, ela participou de seu primeiro filme “sério”: Les Raisins de La Mort (1978), produção de horror sobre uvas envenenadas que transformam os habitantes de um vilarejo em zumbis. No ano seguinte, após mais uma leva de filmes de sexo explícito, larga definitivamente o gênero, passando para o softcore. Trabalha novamente para Rollin em Fascination (1979) e em seguida, La Nuit des Traquées (1980).

A partir de então, Brigitte Lahaie segue a carreira revezando entre filmes eróticos, exploitation e de horror, contabilizando mais de cem filmes no currículo. Destaque para sua colaboração com outro grande tarado do écran: Jess Franco (Jê Brûle de Partout /1979; Faceless / 1987; Dark Mission /1988).

Em 1990 trabalhou em Henry & June, de Phillip Kaufman, como uma prostituta, participando de poucas produções desde então, dentre elas Les Deux Orphelines Vampires (1997) e La Fiancée de Dracula (2002), ambas dirigidas por Rollin.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Antes dos vampiros virarem purpurina: Maldição Eterna (Forever Knight, 1992-1996)


Como os vampiros andam novamente em alta desde que o medonho – no mau sentido, mesmo - Crepúsculo (Twilight, 2008) se tornou inesperado sucesso de bilheteria, e os sanguessugas pululam nos meios de comunicação contando com o fervor de novos e velhos adeptos, me veio à memória uma das melhores séries feitas para a televisão sobre o tema, ainda no início dos anos 1990: Maldição Eterna (Forever Knight, 1992-1996). Se ultimamente tivemos um revival de vampirismo na tv através de programas como Blood Ties (2006) e Moonlight (2007), e as bem sucedidas True Blood (2008) e The Vampire Diaries (2009) - ainda em produção -, naquela época a maré não estava tão promissora: Drácula, a série (Drácula, the Series, 1990), durou apenas uma temporada, e Kindred: The Embraced (1996) idem. Com Maldição Eterna foi diferente. Superior às outras, conseguiu se manter no ar por mais tempo principalmente pela abordagem diferenciada do assunto e a uma bem elaborada mistura de drama policial com sobrenatural. Na onda revisionista dos vampiros, que teve como fontes principais os romances de Anne Rice, apresenta tipos menos estereotipados, com mais personalidade e nuances psicológicas. Até então, nunca o tema fora tratado com tanta seriedade na televisão.

Maldição Eterna se passa em Toronto, que como qualquer outro centro urbano, por trás de seus arranha-céus pontilhados de luzes brilhantes, esconde a realidade dura das ruas. Uma face cruel em que criminosos aguardam suas vítimas nas sarjetas e assassinos matam impiedosamente. Como qualquer cidade Toronto tem seus segredos, seus mistérios e seus...vampiros! A cidade candadense é o habitat de Nicholas “Nick” Knight, o protagonista da série que foi produzida pela Paragon Entertainment e transmitida nos Estados Unidos pela CBS dentro do Crime Time, a programação policial de fim de noite da emissora. Knight é um herói bastante incomum. Na verdade ele é um vampiro com mais de 700 anos, transformado em 1228, quando retornava das cruzadas. Após viver nas sombras durante séculos se alimentando de sangue humano, passa a buscar a redenção e absolvição pelo mal que causou. Isso o levou a ingressar na força policial da cidade como detetive da divisão de homicídios, trabalhando somente no turno da noite, é claro. A cada episódio, o herói usa seus poderes para solucionar crimes, constantemente atormentado pelos fantasmas do passado e buscando reconquistar a humanidade perdida. Deve-se destacar ser Knight, provavelmente, uma das primeiras encarnações do “vampiro relutante” nos meios audiovisuais.

Esse plot não é de primeira mão. A primeira aparição do personagem ocorreu anos antes, em um telefilme de 1989 chamado Nick Knight (lançado em vídeo no Brasil com o título horroroso de Nick, um tira em apuros) e estrelado pelo ex-pop star Rick Springfield. O telefilme tinha a intenção de ser o piloto de uma série para a rede CBS, que seria protagonizada pelo próprio Springfield, mas que não decolou. Quando a canadense Paragon Entertainment tirou o programa da gaveta em 1991, o local da trama foi transferido para Toronto e o papel de Knight foi assumido por Geraint Wyn Davies, um ator com pinta de galã e formação clássica, já conhecido nas telinhas norte-americanas.

Maldição Eterna gira em torno de três personagens: o próprio Knight; Lucien Lacroix (o ótimo Nigel Bennett) - o vampiro maligno que induziu Nick ao vampirismo e o iniciou na Paris medieval; e Janette (Deborah Duchene), uma ex-amante de Nick de muitos séculos que dirige um nightclub chamado Raven, inspirado no Fome de Viver (The Hunger, 1983), de Tony Scott. Diga-se de passagem, outra importante fonte para a onda revisionista, junto aos romances de Anne Rice. Além do trio principal, temos como coadjuvantes o esculachado parceiro de Knight, Schanke (John Kapelos), um reclamão responsável pelos momentos engraçados da série e que desconhece a verdadeira natureza do amigo; e Natalie Lambert (Catherine Disher), a patologista do necrotério que se apaixona pelo pelo protagonista e busca uma cura.

Os dois primeiros episódios, O Senhor das Sombras (parte 1 e 2), são uma refilmagem bastante fiel do antigo piloto. Porém mais amadurecida, melhor trabalhada e com elenco muito superior, além dos flashbacks (baseados em Highlander) que continuariam por toda a série dando maior dimensão aos personagens, construindo aos poucos a sua história passada. Com o passar do tempo, Maldição Eterna se tornou uma jornada pelo lado mais sombrio da cidade, um mundo onde os vampiros existem e convivem, sem serem percebidos pelos criminosos e tiras. E onde os limites entre predador e presa se tornam tão indistintos quanto as fronteiras entre bem e mal. Como fica patente no emblemático nêmesis de Knight, Lacroix, que vestido de preto, cabelos platinados e olhos amarelos brilhantes, atormenta o herói em suas lembranças. Lacroix e Knight, na verdade, são os dois lados da mesma moeda. Quem poderia querer ganhar a imortalidade para simplesmente trabalhar como um tira? Ou iria abrir mão de noites eternas pela busca da absolvição? Lacroix, iniciado no vampirismo em Pompéia, às vésperas da erupção do Vesúvio, deixa clara a sua posição. Ele ama a escuridão, o sangue, a liberdade de abandonar completamente os retraimentos da moralidade convencional e o poder. Lacroix é um deus da escuridão, orgulhoso, vingativo e ao mesmo tempo paternal. Nick é seu filho pródigo, que se afastou e rejeita sua natureza em busca da mortalidade. "Lacroix atravessa a eternidade gostando do que faz, com naturalidade..." - disse Bennett em entrevista sobre o programa - "... e este é seu maior problema e ponto de conflito com Nick Knight. Ele não consegue compreender por que Knight, a quem iniciara na Idade Média, tem tantos problemas com o fato de ser um vampiro". Isso os leva a conflitos e confrontos constantes nas mais diversas épocas, mostrados nos flashbacks.

A série foi feliz ao adequar os elementos de caráter fantástico - sobrenatural aos paradigmas do seriado policial. Na verdade, não fossem esses elementos, seria apenas mais uma série de mocinho e bandido. O fato desse mocinho ser um vampiro cheio de conflitos interiores e que tenta viver e trabalhar como um mortal - o que inevitavelmente resulta em situações bastante originais e leva ao trágico final (Last Knight, 1996) - é que tornou o programa especial.

Maldição Eterna durou três temporadas, sendo as duas primeiras exibidas no Brasil (Record e Sony). Foi lançada na íntegra em DVD nos Estados Unidos.


Confira o trailler abaixo:


http://www.youtube.com/watch?v=yPhIEG3JYtg&feature=fvw

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Skinner (1993) - Traci Lords em thriller trash


Não faz muito tempo postei um curto artigo sobre uma das mais bonitas e lendárias atrizes que vicejaram nos anos 1980: Traci Lords. Não vou, portanto, me deter novamente em detalhes de sua turbulenta carreira, ou da notoriedade que lhe foi conferida pela bombástica saída da indústria do vídeo pornô. Ou mesmo na sua entrada pela porta dos fundos do cinema convencional no qual se estabeleceu e está em atividade até hoje. Convencional, diga-se de passagem, não quer dizer necessariamente mainstream. No caso de Traci, significa que ela utiliza outros atributos (além de sua beleza, é claro) que não os genitais dos primeiros anos de carreira. Sobre isso vale uma nota: entre 1984, quando debutou em Night of Loving Dangerously até Traci I Love You (1987), quando largou a sacanagem, ela participou de 72 filmes de sexo explícito. Quase o mesmo número de produções em que atuou (73, somando séries de televisão e longametragens) de 1988 a 2009. O convencional de Traci acabou sendo na linha de filmes B ou mesmo no âmbito dos trash movies , com participação em obras de figuras como Roger Corman (que produziu O Vampiro das Estrelas com direção de Jim Wynorski), John Waters e mais recentemente Kevin Smith. Nicho cinematográfico do qual não se libertou, certamente devido ao seu passado, mas que contribuiu para alçá-la ao status de atriz cult.

De sua filmografia irregular, destaco Skinner (1993), um título que poderia, numa análise apressada, concorrer a lugar privilegiado na seleta lista dos piores filmes de todos os tempos. Porém, como gosto de tirar leite de pedra, assistir Skinner de forma alguma foi completa perda de tempo e alguns pontos a favor fazem valer a indicação para uma olhada descompromissada.

Produção de baixíssimo orçamento dirigida por Ivan Nagy, tem na presença de Ted Raimi (irmão de Sam Raimi, diretor da trilogia Evil Dead (1981 – 1987 – 1992) e dos filmes do Homem Aranha) a sua força. Ele carrega o filme nas costas, interpretando o psicopata Dennis Skinner, que vaga pelos Estados Unidos deixando vítimas por onde passa. De aparência pacata e inofensiva, aluga um quarto na casa da jovem Kerry (a gordinha Ricki Lake, que já trabalhara com Traci Lords no Cry Baby /1990 de John Waters) e seu marido, o caminhoneiro Geoff. Durante sua estadia, o maluco comete vários crimes, sendo perseguido e confrontado pela sinistra Heidi (Lords), uma ex-vítima que tem o corpo coberto por horríveis cicatrizes e planeja vingar-se. Personagem relativamente bem delineado, Skinner incorpora os clichês do serial killer cinematográfico: problemas com a mãe, surtos de insanidade intercalados com momentos de bom mocismo, desvios sexuais, etc. Clichês que ganham credibilidade na composição de Raimi, que incorpora um indivíduo que luta para manter o controle, uma panela de pressão pronta para explodir. Vitimando geralmente as prostitutas que atrai, as mortes são mostradas em rápidos flashes, com exceção de uma, sem dúvida o ponto alto do filme (e que deveria figurar em qualquer antologia de cinema slasher), quando todos os detalhes são explicitados de modo a embrulhar os estômagos mais fracos. O assassino está ao lado do cadáver ensangüentado de uma mulher nua. Ele esfola as costas do corpo, levantando com o facão as beiradas da pele, que se solta. Em seguida, puxando, arranca como uma roupa a pele da falecida, que veste como uma macabra fantasia. Referência explícita a um dos assassinos em série mais queridos do cinema (Ed Gein, 1906 - 1984), que já inspirou Alfred Hitchcock (Psicose, 1960), Tobe Hooper (O Massacre da Serra Elétrica, 1974) e Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes, 1991).

Traci Lords, ainda em início de carreira, faz feio com caras e bocas, se esforçando sem muito resultado. Em parte culpa do roteiro esburacado, que não ajuda na composição de Heidi, da qual pouco se sabe. Sua relação anterior com o assassino e seu desejo de vingança são pouco explorados, ficando vagas as suas motivações. Além disso, passa todo o filme com um chapéu cobrindo metade da cabeça e do rosto, e um sobretudo preto, parecendo a versão feminina do Sombra, aquele justiceiro das histórias em quadrinhos. Sobretudo que tira em breves momentos mostrando seu corpo escultural vestindo calcinha e sutiã pretos.

Ricki Lake também não faz feio, sendo instigante e pouco explorada a relação de sua Kerry, uma esposa negligenciada, com o problemático inquilino.

Talvez o mais complicado em Skinner sejam os furos da narrativa e alguns momentos que não são mostrados e poderiam render boas seqüências (contenções orçamentárias?). Por exemplo, a morte de Earl, colega de trabalho que inferniza Dennis Skinner, provavelmente o melhor exemplo de como não se deve efetuar um corte, resultando numa elipse mal feita. Em determinada cena vemos o brutamontes ameaçando o personagem principal, que tinha feito uma piada sobre seu corte de cabelo. Logo em seguida, o psicopata sai de um galpão já vestindo a pele do malfadado Earl. Até pensei que fosse alguma barbeiragem da Band, que reduzia sem a menor cerimônia ou tato os filmes que passavam no extinto Cine Trash, de onde gravei essa pérola, para encaixar na programação vespertina e provavelmente adequar à faixa etária desse período do dia. Consegui comparar depois com a versão integral, que apesar de mais completa, ainda deixava muito a desejar. Quem sabe alguma coisa tenha ficado pelo chão da sala de montagem de Ivan Nagy, o inepto diretor?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Notas sobre o Nazi Exploitation - Parte 2.


O segundo momento para o nazi-exploitation se deu na Itália, país onde se desenvolvia, desde a segunda metade da década de 50, uma grande produção de filmes de horror e exploitation. Podemos considerar a versão italiana ainda mais cruel do que seus predecessores norte-americanos. A pedra fundamental para essa versão do nazi-exploitation foram três filmes, os dois primeiros produzidos com objetivos bastante opostos ao negócio dos filmes de exploração. Um deles foi a produção dirigida por Liliana Cavani, O Porteiro da Noite (ll Portieri di notte, 1974), relatando os jogos de dominação-submissão entre a sobrevivente de um campo de concentração e seu antigo algoz, um ex-oficial nazista (agora porteiro noturno de um hotel vienense), alguns anos após o fim da guerra. Outro foi o polêmico SalóOs 120 Dias de Sodoma (Salò o le 120 Gionarte di Sodoma, 1975), de Pasolini, na verdade um libelo anti-fascista que, de forma crua e chocante, transpõe para o cenário da decadente Itália de Mussolini o universo do Marquês de Sade. Saló relata as degradações sofridas por um grupo misto de jovens nas mãos de representantes dos poderes estabelecidos em um castelo. Lá são confinados e submetidos a toda sorte de humilhações e torturas físicas, sendo estuprados, cortados, queimados, obrigados a ingerir excrementos e mortos.

O terceiro é Salon Kitty (1976), de Tinto Brass, co-produção italiana, alemã e francesa, que buscou inspiração nos míticos bordéis destinados aos oficiais e soldados da Alemanha nazista, palco para tramas conspiratórias e perversões sexuais. Filme que já se aproxima do conceito de nazi-exploitation e figurar entre os demais produzidos no período, relacionados rapidamente a seguir:

SS Experiment Camp (1976), de Sergio Garrone, apresenta todos os clichês desse tipo de filme (a carcereira lésbica, os guardas sádicos, os trabalhos forçados), além de uma inusitada tentativa do transplante dos testículos removidos de um prisioneiro para o comandante do campo. As Condenadas (L’Última Orgia Del lll Reich, também conhecido com Calígula Reincarnated as Hitler ou Gestapo’s Last Orgy, 1976), de Cesare Canevari, descreve as humilhações por que passam as prisioneiras judias com requintes de sadomasoquismo, em cenas inspiradas por O Porteiro da Noite. Em Le Deportate della Sezione Speciale SS (1976), de Rino Di Silvestro, repetem-se as seqüências de lesbianismo e estupros. A mais evidente apropriação de Saló pode ser vista em Le Lunghe notti della Gestapo (1977), de Fabio De Agostini, em que doze personalidades do reich são entretidos por doze garotas treinadas para satisfazê-los sexualmente, terminando em violenta orgia. As Garotas da SS (Casa Privata per le SS, 1977), de Bruno Mattei, é uma cópia de Salon Kitty; e La Svastica nel Ventre (1977) de Mario Caiano, um dos menos inspirados, novamente tratando de jovens judias sendo prostituídas pelos nazistas. La Bestia in Calore, do mesmo ano, dirigido por Luigi Batzella, representa bem a característica híbrida dos filmes de exploração italianos, misturando w.i.p. (women in prison – vertente do exploitation) com filme de monstro, ao contar as atrocidades cometidas pela dirigente de um campo de concentração (no mesmo estilo de Ilsa, a Guardiã Perversa da SS) que faz das prisioneiras cobaias de suas experiências.

Certamente essa vertente não estava preocupada em evidenciar o quão baixo o ser humano poderia descer ao infligir sofrimentos aos seus semelhantes, mas pelo contrário, explorar as suas imagens. E se esses filmes não eram muito originais em termos de roteiro, promovendo um canibalismo mútuo constante, em alguns momentos eram bastante criativos ao explorar o triângulo nudez-sexo-violência. Todos buscando evidenciar a idéia do terceiro reich como um grande bordel, regido por devassos e sádicos. Para os diretores do cinema exploitation italiano, que passavam de gênero para gênero sem o menor pudor, de acordo com as tendências do mercado, os estigmas do nazismo, com evidente destaque para o holocausto nos campos de concentração e as tristemente famosas experiências médicas, eram temas mais do que adequados aos seus objetivos.

sábado, 3 de julho de 2010

Notas sobre o Nazi Exploitation - Parte 1.


Trecho de artigo apresentado no VI Encontro da Socine e publicado na íntegra no livro Estudos de Cinema Ano IV(Socine) - São Paulo: Editora Panorama, 2003.

Os filmes nazi-exploitation configuram, provavelmente, a vertente do cinema exploitation que melhor se insere em um universo fetichista. Certamente por evidenciarem claramente um padrão de tendência sadomasoquista através da exploração de cenas de encarceramento, submissão, humilhações, torturas e homossexualismo feminino. Seqüências temperadas por nudez e sexo simulado, tendo como cenário ideal os nefastos campos de concentração. Deve-se ressaltar que a utilização do tema nazismo é mero pretexto para cenas de sexo e violência, sem nenhuma pretensão de trabalhar essa temática dentro de um contexto histórico-social ou manifestar algum tipo de crítica. Podemos considerar os filmes nazi-exploitation em dois momentos.

No primeiro, fruto de cinema exploitation norte-americano que teve seu apogeu entre as décadas de 50 e 70, podemos destacar duas produções representativas da evolução do tema.

Love Camp 7 (1968) pode ser considerado o principal precursor do que viria a ser a vertente do nazi-exploitation. Seu propósito principal era exibir a nudez – inclusive frontal – das prisioneiras e toda uma série de torturas sexuais. Contudo, Love Camp 7 ainda é tímido ao não mostrar mutilações, resultados de experiências médicas (elas são citadas de passagem) e torturas mais explícitas (introduções de objetos, utilização de instrumentos como ferros em brasa, alicates, etc., que já eram comuns em filmes exploitation).

Essa contenção não é compartilhada pelo filme Ilsa, Guardiã perversa da SS (Ilsa, She-Wolf of the SS), de 1974. Estrelado pela loira Dyanne Thorne, vai mais fundo na explicitação das barbaridades protagonizadas pela autoritária personagem título, comandante e médica-chefe do fictício stalag 9, inspirada na criminosa de guerra Ilse Koch, “a cadela de Buchenwald”, mulher do comandante do campo de concentração de mesmo nome.

Ilsa conduz experimentos com as prisioneiras, submetendo-as a torturas e inoculando em seus corpos virulentas moléstias, fazendo com que literalmente apodrecessem em vida. A sorte dos homens é diferente, porém não menos cruel. Ilsa têm o hábito de levar para cama os prisioneiros que, invariavelmente, não conseguem aplacar o seu apetite sexual, recebendo como punição a morte ou a amputação de seus órgãos genitais. Todos os clichês dos filmes de nazistas pérfidos são explorados nesta produção, em uma trama exagerada, com personagens estereotipados e frases de efeito. Especial atenção é dada para o fetichismo vinculado aos uniformes e botas, no caso a indumentária negra da SS. O resultado final do filme Ilsa é uma coletânea de atrocidades com toques de bizarria tão extrema para a época que fizeram o produtor David Friedman desvincular-se da produção.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Pasteleiro: sangue-e-tripas nas telas brasileiras.


Um dos mais expressivos exemplares da explosiva combinação entre sexploitation e horror produzidos no Brasil é O Pasteleiro, produção de cerca de 40 minutos incluída no longa Aqui, Tarados (1980). Realizado pela Dacar, companhia do ex-galã e ex- rei da pornochanchada David Cardoso, foi dirigido pelo mesmo a partir de argumento e roteiro do grande Ody Fraga, tendo como protagonista o diretor sino-brasileiro John Doo.
Injustamente esquecido, certamente por suas cenas violentas e temática amoral e controversa (é um dos únicos exemplares dessa série de filmes da Dacar que aninda não ganhou exibição no Canal Brasil, por que será?), O Pasteleiro trata de um assassino em série, tema não muito comum na cinematografia brazuca, ainda que tenhamos os nossos Chico Picadinho, Maníaco do Parque, e outros de trágica lembrança. Mas não é só isso. O filme de Cardoso é ainda a maior aproximação do cinema nacional do sangue-e-tripas, subgênero do horror notório pela explicitação de mutilações, entranhas e desmembramentos. O que faz com maestria, coroando uma narrativa de desenvolvimento exemplar, apoiada por personagens muito bem construídos dramaticamente. O que se estabelece pelos diálogos entre o pasteleiro e a prostituta Florinda, que vão dando o direcionamento da trama, enriquecidos pelas inspiradas interpretações de John Doo e da belíssima Alvamar Taddei.
A história gira em torno de um pasteleiro que abastece com seus pastéis os botecos da noite paulistana. Seus produtos de excelente paladar levam um inusitado recheio, que tem como matéria prima as mulheres que ele leva para casa e mata, após seviciá-las sexualmente.
As cenas de sexo beiram o explícito, já aproveitando o abrandamento da censura e a inevitável liberação do hardcore. Mas com uma levada pesada, trazendo para as telas temas tabus como sadismo e necrofilia.
Violento, não se furta a mostrar membros arrancados e eviscerações, lembrando em alguns momentos a obra prima de Herschell Gordon Lewis, o famigerado Banquete de Sádicos (Blood Feast /1963). Só que O Pasteleiro é muito melhor.
Leia mais sobre este filme que me deixou besta quando o descobri durante as pesquisas para a minha dissertação de mestrado no capítulo O Pasteleiro: um exercício de sexo e horror no cinema brasileiro, que escrevi para o livro Cinema de Bordas (Ed. à Lápis, 2006), nas melhores livrarias (ou clicando na capinha ao lado, para ser direcionado para o site da Livraria Cultura).

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Caroline Munro - Bonita e perigosa!


Esta postagem é dedicada a uma das atrizes mais bonitas da década de 1970 e que pode, seguramente, não só figurar no panteão das femmes fatales que assombraram as telas na época, mas também se destacar na galeria de beldades que ornamentavam as produções da lendária Hammer Films.
A cultuada Caroline Munro nasceu em 1949 em Windsor, Inglaterra, sendo educada em um colégio de freiras. Após posar para revistas de moda e anuúncios publicitários, iniciou no cinema em pequenos papéis, tendo maior relevãncia a sua participação na primeira versão de Cassino Royale (Casino Royale, 1966). A estréia no cinema de horror foi curiosa. Ela encarnava a falecida esposa de Vincent Price, Victoria Phibes, no divertido O Abominável Dr. Phibes (The Abominable Dr. Phibes /1971). Porém, sua presença se resumia a uma foto em preto e branco. Em 1972, repete a dose em A Câmara dos Horrores do Abominável Dr. Phibes (Dr. Phibes Rises Again), mas é no controveso Drácula no Mundo da Minissaia (Dracula A.D. 1972), da Hammer Films, que realmente chama a atenção com seus longos cabelos castanhos, corpo longilíneo e rosto perfeito. No filme, que traz o conde vampiro de Christopher Lee para a Swinging London, Caroline interpreta Laura Bellows, uma das jovens do grupo hippie que ressuscita Drácula. Este, que não é bobo nem nada, faz de Laura a sua primeira vítima. Posteriormente, em 1974, desfila em trajes sumários na produção As Novas Viagens de Sinbad (The Golden Voyage of Sinbad) e em outra pérola da Hammer, Captain Kronos - Vampire Hunter (como a lânguida cigana Carla). Em 1977 é escalado como a perigosa Bond Girl Naomi (que tenta matar James Bond atirando de um helicóptero) em O Espião que me Amava (The Spy Who Loved Me), que poderia ser um ponto alto em sua carreira. Mas apesar disso, acabou no ano seguinte como protagonista do trash espacial Starcrash (também conhecido como The Adventures of Stella Star /1978), consolidando-se no âmbito dos filmes de baixo orçamento. Resultando no envolvimento com uma pequena obra prima do horror, o filme Maniac (1980), de William Lustig, e trabalhos com diretores como Jess Franco e Paul Naschy. Na geladeira desde meados da década de 1990, Caroline Munro retorna em 2003 no filme Carne para o Demônio (Flesh for the Beast).

Curiosidade: Nunca posou nua, recusando oferta da Playboy. Também não aceitou papéis em filmes que exigiam que aparecesse pelada.

Filmografia selecionada:
O Abominável Dr. Phibes (The Abominable Dr. Phibes, 1971), A Câmara dos Horrores do Abominável Dr. Phibes (Dr. Phibes Rises Again, 1972), Drácula no Mundo da Minissaia (Dracula A.D. 1972), As Novas Viagens de Sinbad (The Golden Voyage of Sinbad, 1974), Captain Kronos - Vampire Hunter (1974), The Devil Within Her (1975), O Espião que me Amava (The Spy Who Loved Me, 1977), Starcrash (1978), Maniac (1980), The Last Horror Film (1982), Faceless (de Jess Franco, 1987), El Aullido del Diablo (de Paul Naschy, 1987), Demons ¨: De profunids (de luigi Cozzi, 1989), Carne para o Demônio (Flesh for the Beast, 2003).