sábado, 29 de agosto de 2009

O Renascimento do Horror Gótico, Parte 1: Hammer.


No final dos anos 1950 e durante toda a década seguinte, o cinema de horror foi atraído para diversas direções, entre elas a evolução do novo cinema gótico, representado principalmente pela britânica Hammer Films e a americana A.I.P. (destacando-se o ciclo de filmes de Roger Corman adaptados da obra de Edgar Allan Poe).
Pequena companhia, a Hammer conheceu o sucesso comercial com algumas produções de ficção científica bem acima da média do que se fazia no período. Graças ao sucesso de Terror que Mata (The Quatermass Xperiment/19555) a Hammer direcionou a sua produção para os filmes de terror, revitalizando Itáliconas telas os velhos monstros da Universal, iniciando com A Maldição de Frankenstein (The Curse of Frankenstein/1957) e O Vampiro da Noite (Dracula/1958). A diferença, porém, é que o horror antes sugerido ficou maise explícito, com a abundância do vermelho technicolor do sangue.
É interessante perceber em como, em tão pouco tempo, o gênero se modificou – resultado claro de uma nova forma de abordagem por parte de novos diretores, assim como de segmentos da indústria e as novas tendências do público.. O fato é que após sua estréia triunfal no final dos anos 1950, inaugurando o filão do horror britânico nas telas, a Hammer atravessou as décadas seguintes em processo de morte lenta.
A Hammer fez escola à partir de sua revisão dos monstros da Universal. Sua Maldição de Frankenstein possui todos os elementos já conhecidos da história. O problema é que até hoje, nenhum filme sobre a criatura conseguiu se aproximar da obra de James Whale, com sua fotografia em branco e preto, cenografia de influência expressionista e um monstro que passou a fazer parte do imaginário coletivo. A Maldição de Frankenstein, sucesso de público na Inglaterra e EUA, após ser distribuído pela Warner, já mostrava as sementes do que se tornaria uma estética: mais dinamismo, violência explícita, mulheres insinuantes e erotismo, além de sets reproduzindo com material barato as aldeias e vilas da Europa Central do século XIX, com castelos, carruagens e tavernas. A diferença mais marcante no Frankenstein da Hammer foi a inversão de enfoque, priorizando o cientista e deixando a criatura em segundo plano.
O Vampiro da Noite, feito em seguida, é superior ao Drácula de Tod Browning. E Christopher Lee, seu intérprete, mais aterrador e sensual do que poderia sugerir a inexpressiva figura de Bela Lugosi, com seus gestos teatrais. O Vampiro da Noite foi a consolidação financeira e de público da Hammer. Diferente do filme de Browning, o enfoque é carregado de sexualidade. O Drácula de Lee encarna a própria maldade e perversão, ostentando lascivo grandes presas pontudas. Suas vítimas femininas, vestidas em corpetes decotados que deixavam os seios quase a mostra, morrem ofegantes, com erótico entusiasmo durante a mordida fatal, numa personificação de eros e thanatos: o orgasmo na hora da morte, tema que se tornaria recorrente nos filmes de horror.

Continua...

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Um filme muito estranho: O Dia em que Marte Invadiu a Terra (1963).


Nos anos 1950, em plena guerra fria e sob a ameaça do átomo, os medos e paranóias da sociedade norte-americana foram traduzidas pelos estúdios de cinema principalmente através dos filmes de ficção científica. Monstros gerados pela radiação, discos voadores e invasores alienígenas estavam na ordem do dia. Todos dispostos a escravizar ou aniquilar os habitantes do planeta, aterrorizando com suas formas monstruosas e poderes devastadores. Filmes como A Guerra dos Mundos (War of the Worlds / 1953), O Monstro do Mar Revolto (It Came from Beneath the Sea / 1955), A Invasão dos Discos Voadores (Earth vs. The Flying Saucers / 1956), 20 Milhões de Milhas da Terra (20 Million Miles to Earth / 1957) e A Bolha Assassina (The Blob / 1958) são apenas alguns exemplares das ameaças que nosso pobre planeta enfrentou naqueles “anos dourados”.
Na década seguinte uma injeção de seriedade deu novo direcionamento para essa vertente do cinema fantástico, sendo que em 1963, uma das mais atípicas e estranhas produções de ficção científica do período foi rodada, com direção de Maury Dexter: O Dia em que Marte Invadiu a Terra (The Day Mars Invaded Earth). Recentemente exibido no canal a cabo Telecine Cult, o filme conta a história do Dr. David Fielding (o mal sucedido galã Kent Taylor), um chato responsável pelo envio de uma sonda-robô à Marte. Aproveitando uma folga no projeto, após receber os registros enviados pela máquina na superfície do planeta, o cientista vai passar uns dias com a família numa mansão isolada, para tentar salvar o casamento. O que ele não sabe é que seria acompanhado por invasores marcianos. Vindos em forma de energia através das transmissões da sonda, tinham o poder de se materializarem como simulacros de Fielding, de sua mulher e filhos para substituí-los (tal qual os alienígenas de Vampiros de Almas – Invasion of the Body Snatchers / 1956) e iniciar a invasão da Terra.
A narrativa é desenvolvida de forma lenta, realçada pelos cenários labirínticos da propriedade e enquadramentos que sugerem uma atmosfera onírica, certamente influenciada pelo enigmático O Ano Passado em Marienbad (L’Année Dernière à Marienbad /1961), de Alain Resnais (seguramente o maior filme-cabeça de todos os tempos). Partindo de uma premissa científica, O Dia em que Marte Invadiu a Terra aproxima-se do cinema de horror pelo modo como alguns paradigmas do gênero são utilizados na construção de uma trama que se furta a explicar alguns acontecimentos e por vezes parece confusa. Tanto que um espectador desavisado poderia supor tratar-se de mais um filme de casa mal assombrada, sendo os alienígenas os espíritos inquietos (ou duplos fantasmagóricos dos protagonistas) que vagam pela mansão da propriedade e por seus sinistros jardins. Para o que contribui a fotografia em preto e branco, que intensifica o suspense até o final pessimista e contrário às regras que regiam essas produções. Antecipando os novos ares que sopravam para o cinema em uma década de profundas mudanças nos corações e mentes.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O dia em que Chapeuzinho Vermelho encontrou Zé do Caixão.


Uma surpresa atrás da outra. É o que espera quem, como eu, se lança na tarefa árdua – mas também bastante divertida - de pesquisar pérolas da cinematografia que pouco (ou nada) condizem com o que se convencionou chamar bom gosto ou mesmo consideradas relevantes aos estudos de cinema. É o caso desse Chapeuzinho Vermelho (também conhecido como A Gula Sexual), comédia erótica com elementos fantásticos de 1981 escrita e dirigida por Marcelo Motta.
Sério candidato ao posto de “pior filme de todos os tempos” e rodado na transição da pornochanchada para o sexo explícito, não tem nada a ver com o conto-de-fadas homônimo.
Trata da história do jovem Hércules (Oásis Minitti, um dos mais assíduos e incansáveis atores do pornô brasileiro dos anos 1980), um voyeur contumaz que não consegue ir para a cama com nenhuma mulher. Apenas se satisfaz observando, através de buracos que faz nas paredes da casa, a intimidade da prima casada e da irmã. O que preocupa seus pais, um casal de velhos italianos, e faz dele motivo de chacota dos amigos, do primo mulherengo Gavião e das garotas. Até o dia em que o pai, com medo de que o filho se tornasse (nas próprias palavras) “ou tarado ou bicha”, arruma uma prostituta para curá-lo. Fazendo-se passar por empregada, ela ataca Hércules que, sem fugir à regra, nada consegue. É quando surge, sem nenhuma explicação, um boné vermelho com poderes mágicos. Ao colocá-lo, o impotente rapaz ganha inesperada virilidade, fazendo com que se torne o garanhão do pedaço, causando inveja no primo.
Dizer que Chapeuzinho Vermelho é um filme tosco é pouco. Elenco feio, diálogos ridículos, trilha inacreditável e personagens caricatos são apenas alguns atributos que, se recorrentes em boa parte da produção da Boca do Lixo do período, são exacerbados nessa obra paupérrima, mas muito engraçada.
Destaque para a presença de José Mojica Marins numa inusitada aparição como Zé do Caixão. Ele surge num sonho em que o personagem principal estava cercado de mulheres nuas. Com seu olhar penetrante e poderes sobrenaturais, o coveiro faz desaparecer todas elas. Deixa uma mensagem, na linha das filosofias mojicanas, que dá novo sentido à vida do apavorado Hércules e prenuncia o final moralista:
- “O homem só é homem no dia em que ele provar que veio nessa dimensão terrena para ser homem!”.
Só vendo para crer!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Bruxaria no Cinema - Parte 3


Nesse cenário vem à luz o mais importante filme sobre o tema já feito: O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1968), de Roman Polanski. Nenhum filme capturou tão bem o que podemos chamar de “atmosfera satânica”quanto essa produção que tratava de temas importantes como sexo e feminilidade, integrados a momentos de horror e tensão psicológica. Anton Szandor La Vey, criador da Igreja do Diabo, foi um dos consultores (não creditado) do filme. Ambientado na Nova York de então, conta a história de uma típica garota americana que é entregue pelo marido (que conspira com uma sociedade de bruxos) ao Coisa-Ruim, para que nela coloque a sua semente durante uma cerimônia. Seqüência que é, por sinal, a mais memorável entre todas as já feitas envolvendo missas negras, copiada descaradamente em O Anticristo (L'anticristo / 1974), de Alberto de Martino. O coven de bruxos se reúne ao redor de Rosemary. Todos estão despidos e dois participantes amarram as pernas da jovem abertas, para facilitar o trabalho da criatura que surge e da qual só vemos as mãos em garras agarrando-se a Rosemary, enquanto copula com ela. Polanski, agnóstico confesso, não tinha nenhum pendor pelo religioso ou oculto. Muito menos acreditava no poder do Diabo ou de Deus como encarnações do Bem e do Mal. E é esse diferencial que empresta ao filme a sua ambigüidade prevalecente: será mesmo que Rosemary passou por todas aquelas experiências sobrenaturais, ou tudo não passava de fantasias de uma mente perturbada, filtradas para nós através de sua subjetividade?
Poucos anos depois, em 1973, George Romero, diretor do cultuado A Noite dos Mortos Vivos (The Night of the Living Dead, 1968), dá uma boa visão das práticas da Wicca em Temporada das Bruxas (Season of the Witch). Denso psicologicamente e um tanto quanto lento, é um competente trabalho do diretor e seu manifesto feminista. Conta a história de Jan White, uma mulher de meia idade oprimida pelo casamento e frustrada pelos sinais dos anos, fator realçado pela jovialidade da filha, que inveja tanto quanto o despojamento e naturalidade com que a nova geração se entrega ao sexo. Jan vai reafirmar a sua feminilidade através da Wicca, aprendendo os seus rituais – pela primeira vez descritos de modo mais próximo à realidade – e assumindo-se bruxa. Os wiccans reclamaram do filme, na época, por referências feitas ao Diabo, já que nesta religião ele não é cultuado. Apesar desse início promissor, os anos 70 e 80 trouxeram com eles ares conservadores e pouca coisa pode ser destacada entre as produções que reproduziam os velhos embates entre satanistas “do mal” e as forças do bem. Foram as décadas em que chegaram às telas O Exorcista (The Exorcist, 1973) e A Profecia (The Omen, 1976), que transitavam entre propaganda da Igreja e a narrativa tradicional do filme de horror, típica dos grandes estúdios. Tanto em um sentido, como em outro, ambos os filmes se saíram muito bem.
A bruxaria só iria recuperar alguma credibilidade no final do século XX, talvez pelo novo boom de interesse que o oculto vem despertando e o crescente número de novos adeptos às práticas mágicas e religiões pagãs. E com duas obras que seguem em direções completamente opostas, como o horror-teen Jovens Bruxas (The Craft, 1996) e a volta do diretor Roman Polanski ao gênero que o consagrou com o intrincado O Último Portal (The Ninth Gate, 1999). O primeiro, que pode servir como metáfora para a busca de auto-afirmação de quatro adolescentes, de certo modo se aproxima do filme de Romero, mas com bem menos brilhantismo e uma boa dose de maniqueísmo. Vale mais pela descrição de alguma ritualística do que pela narrativa, de encaminhamento conservador. Apesar de certamente ter ajudado a Wicaa a se popularizar entre os jovens. Já O Último Portal é um filme bem mais complexo e rebuscado. Trata de um livreiro (Johnny Depp), contratado por um milionário de Nova York (o sempre bem vindo Frank Langella) para encontrar um velho grimório. Este, segundo a lenda, teria em suas gravuras a chave para invocar o Diabo e abrir os portais que dariam acesso ao inferno. O filme peca pelos excessos do diretor, que poderia ter sido mais econômico em termos narrativos. Mas ganha força quando analisamos com boa vontade os elementos místicos que traz à tona. E é na construção dessa atmosfera sobrenatural que se encontra a força de um filme incompreendido e que precisa ser visto mais de uma vez.
Como podemos ver, bruxas e demônios estão presentes nas telas desde os tempos do “primeiro cinema” e, certamente, ainda continuarão nos dando arrepios e seduzindo. Afinal, eles estão ligados aos aspectos “noturnos” de nossa personalidade e aos nossos instintos básicos; à aspiração pela liberdade individual, ao conhecimento interior e rompimento das amarras que nos foram impostas. Nada mais transgressor do que isso. Nos despedimos lembrando de Raul Seixas no “Rock do Diabo”: Enquanto Freud explica as coisas, o Diabo fica dando os toques.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Bruxaria no Cinema - Parte 2.


Os anos 50 trazem duas obras importantes, bem distintas uma da outra, abordando novamente Crowley. A primeira, realizada pelo diretor underground Kenneth Anger em 1954, The Inauguration of the Pleasure Dome, é uma recriação dos rituais do ocultista, à luz da cultura beatnik do período. Já prenunciava outras imersões do diretor na “magia thelêmica”, que se materializariam nos curtas The Invocation of My Demon Brother (1969) e Lucifer Rising, feito entre 1970 e 1980. Anger deu outra dimensão à bruxaria cinematográfica ao transpor para a película rituais mágicos, superando o suporte (película e tela) em concreta invocação.
O segundo filme do período, e de grande importância, por ser o que consideramos a conquista da maturidade dessa vertente do horror é A Noite do Demônio (Curse of the Demon, 1957), de Jacques Tourneur, baseado no romance Casting the Runes, de Montague R. James. Crowley serve de inspiração para o ocultista Dr. Julian Karswell, líder de um culto satânico que se torna alvo das investigações de um cético psicanalista, interpretado pelo ator Dana Andrews. Niall McGinnis dá grande dimensão ao personagem Karswell, revestindo-o de periculosidade e uma certa imaturidade para convocar as forças das trevas. Uma forma velada de corroborar a idéia de Crowley como “o pior homem de todos os tempos” e os relatos sensacionalistas que o pintavam como um satanista desregrado viciado em drogas. Na verdade Aleister Crowley nunca foi satanista, se formos fiéis à concepção da palavra. Ele desenvolveu um sistema próprio de ritualística e tinha concepções bastante originais sobre magia (a que se referia como magick), o que não o isenta de alguns excessos que certamente contribuíram para a imagem que lhe impuseram. A Noite do Demônio é sutil no que se refere às práticas mágicas de Karswell, o que não diminui o impacto de sua atmosfera mística. Isso apesar da gigantesca figura do Diabo que o produtor Hal E. Chester incluiu à revelia do diretor.
Os anos 60 foram particularmente propícios para a bruxaria nas telas. A American International Pictures (AIP), responsável pelo renascimento do horror gótico nas telas americanas com o ciclo de filmes inspirados no escritor Edgar Allan Poe. Roger Corman, usa a bruxaria como tempero para dois grandes filmes: O Castelo Assombrado (The Haunted Palace, 1963) e Orgia da Morte (The Masque of the Red Death, 1964). O primeiro, pouco tem de Poe, sendo mais uma adaptação da obra de outro autor, o também norte-americano Howard Phillip Lovecraft, intitulada The Case of Charles Dexter Ward. Vincent Price é Ward, que retorna à mansão de seus ancestrais para ser possuído pelo espírito do tataravô, o bruxo Joseph Curwen. Atmosférico, culmina com um ritual de magia negra, celebrado nas masmorras do castelo. Já Orgia da Morte é o retorno ao universo de Poe e um dos melhores do ciclo. Seria também bastante fiel ao conto original, não tivesse Corman incluído doses de satanismo. Vincent Price, memorável protagonista de todos os filmes da série, interpreta o Príncipe Próspero, um devotado adorador do Diabo. Auxiliado por uma adepta, Juliana (a diabolicamente adorável Hazel Court), tenta converter às artes negras uma jovem aldeã que aprisionara em seu castelo. As sugestivas cenas de adoração ao Demônio, impregnadas de contexto sexual, foram censuradas na Inglaterra.
A Hammer Films também não ficou de fora da onda satânica da época com um dos melhores filmes sobre o assunto: As Bodas de Satã (The Devil Rides Out, 1968), dirigido por Terence Fisher e baseado em história do autor especializado em romances ocultistas, Dennis Wheatley, inspirado em Aleister Crowley. Christopher Lee é um expert em demonologia que descobre uma conspiração satânica liderada por Mocata, o sumo sacerdote de uma sociedade secreta. O filme é bastante rico em referências, ainda que estas se perdem para os não familiarizados com ocultismo, já que estão relacionadas ao universo das várias vertentes do que se convencionou chamar de Tradição Mágica Ocidental. O grande destaque, além das encenações dos rituais, vai para a aparição do Demônio, caracterização bastante fiel à figura do “Bode de Mendes”, desenhada no século XIX pelo mago Eliphas Levi, uma adaptação do Baphomet dos templários.
É importante termos em mente que, na turbulenta virada que foi a transição dos anos 60 para 70, o oculto estava em alta. Reflexo da insatisfação com as estruturas vigentes e do ressurgimento, por um lado, das práticas pagãs com a Wicca - reabilitada a partir do trabalho de Gerald Gardner e levada para os Estados Unidos pelo casal Buckland - , e por outro, da ascensão do satanismo. Este último tendo como arauto o ex-artista de circo Anton La Vey, fundador da igreja de Satã em São Francisco.O Diabo vai perdendo o seu caráter alegórico original, transformando-se em um ícone da contracultura, da insatisfação contra os modelos sociais e liberação sexual. As bruxas, do mesmo modo, passavam a fazer seus sortilégios à luz do dia, deixando para trás o estereótipo da velha feia e enrugada, cheia de verrugas, tradicional das narrativas populares e contos-de-fadas.

Continua...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Bruxaria no Cinema - Parte 1


Aproveitando as férias, e para não ficar sem postar, resolvi re-publicar uma matéria que escrevi há alguns anos para uma revista que acompanhava um DVD desses de banca. Divirtam-se.
O caráter mais espetacular do cinema, desde os tempos dos primeiros realizadores, foi a capacidade de levar às telas o fantástico, configurado então - e de modo surpreendente, se nos deslocarmos para o final do século XIX e início do XX – pela exibição e manipulação de imagens em movimento. Os nascentes truques, hoje simples, conferiam uma aura mágica e passaram a ser explorados pelos pioneiros de então, revestindo essas técnicas de significado. Não demorou para que as criaturas sobrenaturais, habitantes do imaginário coletivo, fossem incorporadas e exploradas, pela compreensível adequação ao novo meio. E para que a principal dentre as entidades que sempre atemorizaram o homem ganhasse corpo nas telas: Satã. Figura controversa pela própria capacidade de causar terror enquanto cativa, ganha corpo em filme através da genialidade de Georges Méliès em Le Manoir du Diable (1896).
As primeiras representações do Diabo no cinema, como não poderiam deixar de ser, estavam impregnadas do imaginário cristão, eternizadas a partir da Idade Média através da iconografia, tanto em seu aspecto mais aterrador como uma mistura de bode e homem – apropriação do Pan das florestas pagãs – como na forma sinistra e por vezes debochada de um homem alto, de bigodes pontudos, algumas vezes ostentando chifres, como nos velhos espetáculos itinerantes ao estilo da Commedia dell’ Arte. E se Satã, em seu sentido mais senso comum, passou a freqüentar as telas, o que dizer então de seus principais agentes - também bastante arraigados na cultura popular e narrativas ficcionais: as bruxas e feiticeiros?
É bom lembrarmos que a bruxaria é tão antiga quanto a humanidade e só passou a ser vinculada ao Diabo por obra e graça do Cristianismo. S. Paulo já identificava os deuses pagãos greco-romanos com demônios, alertando contra associações com esses seres. O que foi aceito como verdade incontestável pela nascente religião e acabou, séculos mais tarde, culminando nas perseguições, torturas e assassinatos perpetrados pela Santa Inquisição. Isso deu margem a todo um manancial de lendas e crendices sobre as praticantes dos antigos cultos, que ganharam corpo devido à fértil imaginação dos relatores e clérigos do período. Essa alegoria personificada por bruxas e demônios pode ser vista já em 1921 na obra prima do dinamarquês Benjamin Christensen, Häxan (1). O diretor recria, através de episódios entrelaçados e estilo semi-documental, o que seria a história da feitiçaria. Através de poderosas e arquetípicas imagens, Christensen retrata todo um universo folclórico de diabos chifrudos, bruxas voando em vassouras, preparando sortilégios ou reunidas em sabbaths. O alto teor de sexualidade inerente a estas fantasias está presente – um positivo libelo de rebeldia contra a repressão sexual da Igreja -, assim como um retrato nada abonador do clero, com seus padres obtusos e freiras facilmente desencaminhadas, todos alvo fácil para as artimanhas do Demo. Não é para menos que o caráter anti-clerical de Häxan tenha escandalizado a platéia na época de seu lançamento e fosse reabilitado durante a contracultura dos anos 60, principalmente por seu conteúdo contestador e pelas mais significativas representações de bruxaria nas telas, ainda hoje insuperáveis. Infelizmente, a maior parte das produções que se seguiram nas décadas posteriores, se rendeu ao senso comum e ao maniqueísmo da luta das forças do bem (representando o lado mais conservador da sociedade) contra o mal (aspectos desagregadores, e por que não, contra o status quo dominante). Como o nosso espaço é limitado, vamos nos deter em alguns filmes que consideramos significativos para uma visão geral do tema.
A primeira cerimônia satânica filmada vêm à luz ainda nos anos 30, na produção da Universal O Gato Preto (The Black Cat/1934), dirigida por Edgar Ulmer e repleta de referências ao cinema alemão, que já flertara com o satanismo com as duas versões de O Estudante de Praga (Der Student von Prag, 1913, 1926) e Fausto (Faust, 1926), de F.W.Murnau. Ulmer dirige Boris Karloff e Bela Lugosi no auge de suas carreiras. O primeiro interpreta um veterano da Primeira Guerra, Hjalmar Poelzig, que vive em um palacete (nítida influência expressionista), onde dá abrigo a um casal americano de férias e a um antigo desafeto e ex-comandado, o Dr. Vitus Werdegast (Lugosi). Na verdade, Poelzig é o sumo sacerdote de uma seita diabólica e seus planos incluíam sacrificar a jovem americana durante um ritual. A estilizada missa negra se realiza nos porões da mansão, onde o personagem de Karloff entoa cânticos e balbucia expressões em latim, entre acólitos vestidos cerimonialmente. O Gato Preto também foi em parte inspirado no polêmico ocultista inglês Aleister Crowley (1875-1947), que antes já servira de molde para The Magician (1926), de Rex Ingram, adaptado da obra de Somerset Maugham.

Continua...
(1) Sobre Häxan, recomendo a leitura de meu artigo na publicação "Cadernos da Pós-Graduação" do Instituto de Artes da Unicamp, ano 8, vol. 3, n. 3 - 2006.

Trecho de Häxan:

terça-feira, 14 de julho de 2009

O novo formato do horror.


Não é novidade o cinema de horror ser o meio por excelência para novos cineastas desenvolverem projetos ousados de forma independente. Conseqüentemente, é pelas mãos desses intrépidos diretores que o gênero se desenvolve e se renova. Foi assim nos anos 1960 e 1970, com Corman e Lewis, seguidos por Romero, Hooper e Craven; na década de 1980 (e seguinte), com John MacNaughton (do assustador Henry: Retrato de um Assassino / Henry: Portrait of a Serial Killer), os delírios de Charles Band (Full Moon), Stuart Gordon, Sam Raimi e Brian Yuzna; etc... Essa turma influenciou de maneira decisiva a nova geração, que cresceu com o videocassete e adentrou no milênio dando novo fôlego ao horror cinematográfico com uma estética que não só refletia os avanços no aparato técnico – edição, iluminação, fotografia (graças aos recursos das tecnologias mais recentes) -, como elevava os níveis de picardia e violência dos antecessores. A popularização dessa tecnologia, com a redução dos custos, tornou possível a produção de uma obra audiovisual com acabamento bastante profissional, bem distante das pioneiras e toscas experimentações pioneiras em VHS. Mais do que a evolução das câmeras, é importante ressaltar, o uso do computador e softwares de edição, (alguns com recursos bem avançados) foram elementos decisivos. Nesse universo, um meio de divulgação também interferiu no modo de produção: a Internet, que não só alavancou a publicidade dos títulos através dos websites e comunidades de aficionados, mas também permitiu a exibição dos mesmos, desprezando os tradicionais intermediários: distribuidores e salas de exibição comprometidos com as grandes produções. É o caso dos sites que permitem que usuários disponibilizem, compartilhem e assistam vídeos em formato digital e atualmente hospedam milhares de produções de todos os tipos, dos quais o grande destaque é o You Tube. Vale a pena, portanto, perdermos algum tempo garimpando por títulos que, de outro modo, dificilmente teríamos acesso. Em nosso caso específico, recomendo a série da Hammer (isso mesmo, a velha companhia inglesa renascendo das cinzas através da web) Beyond the Rave (2008), uma história de vampiros em vinte episódios. Conta a história de Ed, um soldado prestes a embarcar para o Iraque que passa a sua última noite em busca da namorada desaparecida, vista pela última vez em uma rave muito estranha. Bastante interessante (para quem curte um trash) é When Evil Calls (2006), divulgado como a primeira série de horror feita para celular. Se passa em um internato, onde simples mensagens de texto tornam realidade os desejos de quem as recebe, desencadeando uma seqüência de acontecimentos bizarros. A tranqueira lembra aquelas produções dos anos 1980, com muitas cenas de nudez e sangueira.

Beyond the Rave – Trailler: http://www.youtube.com/watch?v=V3y1cpsQbrQ
Beyond the Rave – Episódio 1: http://www.youtube.com/watch?v=epQytGiyRGo
When Evil Calls – Trailler: http://www.youtube.com/watch?v=ebCCo0i2s44

Outros que assisti recentemente e devem ser conferidos são:

Morsure
http://www.youtube.com/watch?v=qvFAy_NSncg&feature=fvst - produção francesa de 2007 dirigida por David Morlet, sobre uma praga que transforma as pessoas em uma espécie de zumbis mutantes.
Skeletons in the Closet / Skeletti i Garderoben
http://www.youtube.com/watch?v=gEdwi7XfdMk&feature=featured - do sueco Ulrik Friberg (2008), onde um casal acorda no chão de um apartamento decadente sem nenhuma lembrança de quem são ou do que estão fazendo ali.
Spider
http://www.youtube.com/watch?v=Zdj9vMH4BfQ&feature=channel - horrível e divertido curta de Nash Edgerton (2007).
Boas férias!!!!