quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sexo e Vampirismo no Cinema - Parte 3 (Final)


Foi com desconfiaça, portanto, que assisti Dark Angels (2000), dirigido por Nic Andrews. E confesso que me surpreendi. Produção bem cuidada, efeitos especiais, elenco bonito... e uma narrativa convincente e bem amarrada. Tanto que se esquecermos as cenas de sexo explícito, poderia muito bem passar por um filme de horror B, bem ao estilo de Fred Olen Ray. Dark Angels, que foi eleito em 2001 pela AVN (o Oscar do pornô americano) como melhor filme e também venceu o 9th Erotic Awards 2002, recorre aos clichês que se tornaram lugar comum nos filmes de vampiros a partir dos anos 80. Esbanjando visual moderninho e edição de videoclip, conta a história de uma jovem (Jewel De Nyle – o nome de guerra dela é esse mesmo) que testemunha o assassinato de um homem (o veterano Mike Horner, presença sempre bem vinda) por uma vampira ((Sydnee Steele). Esta, líder de um clã de chupa-sangues, passa a perseguir a pobre moça, que passa a ter sonhos estranhos e sangrentos. Após um desses devaneios, em que se entrega à rainha vampira, repara a marca de mordidas em sua coxa. Socorrida pelo policial (Dillon Day) que investiga os crimes ligados aos mortos-vivos, acaba morrendo na sala de emergência do hospital, retornando como vampira na geladeira do necrotério (onde protagoniza uma seqüência de sexo com o legista). Sabendo estar condenada, sai atrás do grupo de vampiros em busca de vingança.
Esse elemento, do vampiro renegado (ou aspirante recém-transformado), que não quer fazer parte do grupo a que pertence preferindo a morte à eternidade mantida com sangue é bastante comum na reformulação por que passou a mitologia vampiresca nas últimas décadas. São vários os exemplos, desde filmes como Os Garotos Perdidos (The Lost Boys/1987) e Quando Chega a Escuridão (Near Dark, 1987), até séries de tv como as extintas Maldição Eterna (Forever Knight/1992-1996), Buffy – A Caça Vampiros e Angel (este o melhor exemplo por, além de negar a sua espécie graças à “alma” recuperada, caçar e matar os seus semelhantes). Também o visual do filme se adequa ao padrão “neo-gótico” em voga, substituindo as antigas e empoeiradas capas. Usam roupas pretas, acessórios em couro, óculos escuros, piercings e tatuagens, em ampla conexão com o universo fetichista.
A abertura do filme – a meu ver a melhor seqüência – é francamente inspirada no filme de Tony Scott Fome de Viver (ThItálicoe Hunger/1983) e, principalmente, o primeiro Blade (1998). Nesse trecho inicial, passado em um night club onde rola uma rave, seguimos a bonita morena Rachel (Ginger Paige – sim, senhoras e senhores, o ponto alto do vídeo), em busca de companhia. Vale a pena aqui uma nota para quem viu Blade: a seqüência inicial do filme (aqui parcialmente reproduzida) com Wesley Snipes, é protagonizada pela ex-atriz pornô e musa deste modesto escritor, Traci Lords. Em Dark Angels, Rachel encontra um rapaz e, após rápido entendimento, seguem para o banheiro do night club onde fazem sexo. O resultado final é um banho de sangue memorável, com a jovem vampira atacando a dentadas sua vítima.
As cenas de sexo do filme são bastante convencionais, o que pode caracteriza-lo como “filme para casais” – denominação comum para pornôs com história e ousadia limitada para os atos explícitos. Em Dark Angels, seguem inevitavelmente a fórmula garota-chupa-rapaz, rapaz-chupa-garota, penetração frontal. Nada de sadomasoquismo, transa anal, dupla-penetração ou alguma modalidade menos “comportada”. Na verdade, o sexo se integra na narrativa, em nenhum momento se configurando como elemento predominante. Tanto que, como já dissemos, poderia ser suprimido sem prejudicar o filme como um todo.
Vale destacar também as convincentes cenas de ação (como a luta entre o policial e um dos vampiros), os efeitos especiais (ferimentos de bala, a desintegração dos vampiros, as estacas perfurando os corpos e a transformação da rainha vampira em uma morcegona), a trilha sonora (a cargo de Derik Andrews e Inversion 89) e a maquiagem. Os fetichistas de plantão vão delirar com as mulheres do filme, seminuas, ostentando presas pontudas e sangrentas.
Dark Angels não está sozinho nessa onda de filmes que mesclam o velho e bom hardcore ao temas de horror. Outros foram produzidos desde o final dos anos 90 com bons resultados, entre eles Les Vampyres (2000 – com seqüência em 2002), de James Avalon; Pornogothic (1998), de Jonathan Morgan e Skin XVII: Succubus (1999), de Toshi Gold. Dark Angels também gerou uma continuação: Dark Angels 2: Bloodline (2005). Ambos lançados em DVD pelo selo Sexxxy.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sexo e Vampirismo no Cinema - Parte 2


Enquanto a Hammer tirava a roupa de suas atrizes e as colocava em situações insinuantes, nos países da Europa continental – notadamente Espanha, França e Itália -, diretores como o Jesus Franco (Vampyros Lesbos/ 1970, Female Vampire/1973) e Jean Rollin (La Vampire Nue/ 1969, Le Viol du Vampire/ 1967, etc.) colocaram o vampirismo como pano-de-fundo para produções bem mais ousadas. Cenas de nu frontal, sexo simulado e em alguns casos explícito mostravam que em matéria de ousadia, estes realizadores deixavam no chinelo seus colegas britânicos. Talvez por estarem menos sujeitos aos censores de plantão.
A nascente indústria pornô também se inspirou no tema, dando mostras disso ainda no início dos anos 70 em pequenas fitas como Mad Love Life for a Hot Vampire ou Count Erotica, Vampire. Foi no final dessa década, em 1979, que o grande clássico unindo vampirismo e sacanagem foi realizado: Desejos à Primeira Mordida (Lust at First Bite, conhecido primeiramente com o sugestivo título de Dracula Sucks). Lançado em duas versões, com e sem sexo explícito, é uma bem humorada e trash adaptação x-rated do livro de Bram Stoker. Repleto de estrelas do universo hardcore do período (muitos na ativa até hoje), como Anette Haven, John Leslie, Serena, Kay Parker, John Holmes, Paul Thomas e Seka, tem como ponto alto a presença de Jamie Gillis (que antes de ser astro pornô tinha formação de ator) como Drácula.
Não só os vampiros, mas também outros monstros e temas do cinema de horror, se tornaram recorrentes na produção pornô nas décadas seguintes. A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street/1984), de Wes Craven inspirou, por exemplo, A Nightmare on Porn Street (1988); Sangue de Pantera (Cat People/1942) acabou sendo a matriz de A Deliciosa Maldição da Mulher Gato (Curse of the Catwoman/1992). As múmias deram o ar de sua graça no corpo de Nina Hartley em Múmia 1 – A Perdição dos Faraós (Mummy Dearest/1990). Nem mesmo o mascarado Jason escapa, em Sexta-Feira 13 – O Início da Sensualidade (Friday, the 13th: A Nude Beginning/1987). Porém, se a lista é grande, de nenhum modo pode-se dizer que alguma dessas produções mereça lugar de destaque. Principalmente pela tendência a se tratar os temas com escracho e dar duvidoso caráter humorístico – o que raramente é eficaz.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Sexo e Vampirismo no Cinema - Parte 1


Não é novidade a relação entre sexualidade e vampirismo. Muito já se escreveu sobre o assunto, freqüente nas mais diversas manifestações culturais que de algum modo se aventuraram pela mitologia dos vampiros.
No cinema essa interação começou timidamente, de forma um tanto quanto velada. O que, se em parte pode ser explicado como decorrência dos padrões de comportamento e costumes da primeira metade do século XX, também está patente no caráter assexuado e nada estimulante dos protagonistas daquelas produções. Afinal, exige-se um bocado de imaginação, ou mesmo forçada boa vontade, para se deixar seduzir pelos primeiros vampiros que encarnaram nas telas. É interessante pensarmos até, que o feioso Conde Orloff (o não menos sinistro Max Schreck) do Nosferatu de Murnau, tenha mais a ver com o caráter de morbidez e sexualidade perversa inerente à figura do vampiro do que os insípidos e posteriores Bela Lugosi, Lon Chaney Jr e John Carradine, atores que personificaram o Conde Drácula na série de filmes produzidos pela Universal entre os anos 30 e 40. Talvez o que mais possamos destacar dessa sexualidade reprimida tenha sido o sutil desejo lésbico da Condessa Zaleska (Gloria Holden) em um dos melhores momentos da leva, A Filha de Drácula (Dracula’s Daughter/1936).
Foi com a Hammer Films, responsável pelo renascimento do horror em fins dos anos 50, que o caráter sexual dos vampiros e vampiras começou a aflorar. Os novos ares trazidos pelos anos 60 permitiram que, em uma década, o sexo pudesse ser mostrado mais explicitamente e essa exposição evoluísse muito mais do que nos cinqüenta anos anteriores. Vale lembrar que nesse curto período de tempo os decotes foram se ampliando até chegar ao sexo explícito, que saiu dos guetos estabelecendo a pornografia fílmica enquanto indústria.
Ainda conservador por seu caráter dominador masculino, a nova encarnação do conde vampiro, personificado por Christopher Lee, era uma metáfora do predador sexual. Impetuoso e violento, quando mordia suas vítimas femininas, as possuía de corpo e alma. Elas se entregavam sem resistência e sucumbiam, em um misto de terror e volúpia. Ao mesmo tempo em que ele as seduzia, as desprezava. O abraço do vampiro, sua mordida, afirmou-se desse modo como representação da dominação sexual, da penetração e do orgasmo.
Em meio ao fracasso comercial que já espreitava no final dos sixties, a Hammer buscava cada vez mais capitalizar em cima da nudez de seu bem selecionado cast feminino. Os seios acabaram saltando de vez dos decotes. E se mostrar mulher pelada era bom para os negócios, melhor ainda seria se elas interagissem. Desse mergulho da Hammer no sexploitation, surgiu uma modalidade que acabou conhecida como tits-and teeth, representada pela trilogia das vampiras Karnstein (baseada no livro Carmilla, do escritor irlandês Sheridan Le Fanu). Se The Vampire Lovers (1970), Luxúria de Vampiros (Lust for a Vampire/1971) e As Filhas de Drácula (Twins of Evil/1971) não salvaram a Hammer da ruína que encerraria as suas atividades poucos anos depois, serviram para determinar um novo enfoque. Mais do que mostrar peitos se esfregando e a estimulante nudez de Ingrid Pitt, Yutte Stensgaard ou das gêmeas Mary e Madeleine Collinson (que foram coelhinhas da Playboy), assumiam a mulher como protagonista de ações antes reservadas aos vampiros machos. O que não redime esses filmes de seu caráter conservador, pois contrapunham essas femmes fatales às suas vítimas, ingênuas “moças de família” que eram invariavelmente salvas de suas garras pela autoridade masculina responsável pelo re-estabelecimento da ordem. (Continua semana que vem...)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

El Vampiro (1957) - Obra prima do horror mexicano.


Por esses dias revi El Vampiro (1957), que considero a pedra fundamental do ciclo de horror do cinema mexicano iniciado no final da década de 1950. Produzido por Abel Salazar e influenciado pelo Drácula da Universal, El Vampiro obteve bons resultados de público e crítica. O filme, dirigido por Fernando Mendez, mantém elementos recorrentes ao universo criado por Bram Stoker, com a diferença, que o torna bastante singular, da ação deslocada dos Cárpatos e da Londres vitoriana para uma hacienda na remota localidade mexicana de Sierra Negra. A narrativa também inova, com o acréscimo de novos elementos para a manjada trama e alguns artifícios de ambiência gótica mais efetivos do que os utilizados até então. Na trama, a jovem Marta retorna a Sierra Negra para ver a tia adoentada na propriedade rural da família, denominada Los Sicomoros. Lá chegando fica sabendo da morte da mesma, após anos atormentada pela crença de estar sendo perseguida por um vampiro. No decorrer da história ficamos sabendo que este, na verdade, era o vizinho, conde Duval (Germán Robles, um dos primeiros atores a ostentar caninos proeminentes), que com a ajuda da outra tia de Marta, a sexy Eloísa – já vampirizada -, pretendia tomar posse de Los Sicomoros com o intuito de reviver seu irmão, morto cem anos atrás pelos habitantes da região e enterrado na cripta da hacienda. Os cuidados com a produção ficam evidentes na fotografia em preto e branco, que captura muito bem a atmosfera lúgubre, de altos contrastes e brumas; nos enquadramentos e efeitos de luz que reforçam o insólito das seqüências. Como as aparições da tia morta, saída da sepultura agarrada ao grande crucifixo com o qual foi enterrada, e os movimentos da dupla de vampiros: Eloísa e Duval. O que em nada deixam El Vampiro atrás de outras duas produções que, na passagem dos anos 50 para 60 iriam revigorar a temática do vampirismo nas telas: O Vampiro da Noite (Horror of Dracula / 1958), de Terence Fisher – que por sua vez teria se inspirado na produção mexicana (GREENE, 2005, p.8) - e A Máscara de Satã (La Maschera Del Demonio / 1960), de Mario Bava.
O sucesso do filme – inclusive na Europa - levou a ABSA, produtora de Salazar, a investir no filão. Deixou como legado, além da continuação El Ataúd Del Vampiro (1958), títulos como: El Hombre y El Monstruo (1958), El Mundo de los Vampiros (1960), El Espejo de la Bruja (1960), La Cabeza Viviente (1961), La Maldición de la Llorona (1961) e El Barón del Terror (1961).

sábado, 28 de março de 2009

O Exterminador (1980)


Em 1980 as feridas causadas pela guerra do Vietnã ainda estavam doloridas em um país assolado pela crise econômica, reflexo ainda da década anterior. A renda diminuiu, assim como o poder aquisitivo, trazendo com o espectro da recessão não só o aumento da criminalidade quanto um recrudescimento do conservadorismo. O que culminou com a eleição de Ronald Reagan para a presidência, uma interessante metáfora, já que um ex-ator de direita assume o poder ao mesmo tempo que nas telas, novos heróis de caráter conservador (mas de forma alguma atrelados ao poder político, geralmente ineficaz e ganancioso) tentam restabelecer de forma truculenta, solitários, o sonho americano perdido.
Personagens como esses já eram bem conhecidos do público – caráter moldado nos westerns -, sendo os mais emblemáticos até então o policial Harry Callahan (Clint Eastwood) de Perseguidor Implacável (Dirty Harry, com três produções entre 1971 e 1976), e o vigilante Paul Kersey (Charles Bronson) de Desejo de Matar (Death Wish, 1974). Este último mais radical ao tomar para si a execução da justiça frente a inoperância dos poderes estabelecidos, principalmente por não estar submetido – como Harry Callahan – a um código institucionalizado. E é Paul Kersey a inspiração mais direta para John Eastland, personagem principal de O Exterminador (The Exterminator/1980). Produção de 1980 dirigida por James Glickenhaus, que já tinha no currículo o terror B Suicide Cult (1975) e futuro produtor executivo de pérolas como Maniac Cop (1988), Basket Case 2 (1990), e do ótimo Frankenhooker (1990). Autor também da história, Glickenhaus tem a grande sacada de adicionar à trama batida do justiceiro urbano um tempero extra: as agruras dos veteranos do Vietnã lutando para encontrar um lugar na sociedade e lidar com os traumas vivenciados no campo de batalha. Apelo que funciona e dá ao filme um caráter singular, fazendo com que fosse algo mais do que um simples e esquecível filme de ação.
A violenta seqüência de abertura, com um grupo de soldados aprisionados sendo martirizado pelo inimigo vietcong, faz com que lembremos de imediato dos ainda recentes O Franco Atirador (The Deer Hunter/1978), de Michael Cimino e Apocalipse Now (1979), de Francis Coppola. É nesse cenário infernal que a vida do soldado John Eastland é salva por seu colega de farda Michael Jefferson, fazendo surgir uma forte amizade. Ligação interrompida violentamente anos depois, quando os dois ex-combatentes, modestamente empregados, são obrigados a colocar para correr uma gang que roubava o depósito onde trabalhavam. Como vingança, os bandidos atacam Michael, que fica tetraplégico. Inconformado, Eastland massacra o bando e resolve, a partir daí, sair pelas ruas usando suas técnicas militares (um pré-Rambo) para livrar a sociedade dos elementos mais perigosos. Auto-denominado “O Exterminador”, suplicia de forma violenta e criativa (tiros, lança-chamas, etc.) os personagens mais sórdidos, enquanto é procurado por um policial íntegro (o veterano ator Christopher George, figura recorrente nas séries de tv da década de 70) e pelas autoridades ineptas e corruptas. Fica patente o desprezo pelos políticos e órgãos governamentais: o prefeito, preocupado com a reeleição, manda a Cia (sugerindo um conluio com Washington) para caçar o vigilante; e um dos justiçados é senador, nas horas de lazer torturador sexual de jovens em sinistra casa de prostituição.
O Exterminador é uma filme que, mesmo envelhecido esteticamente e com algumas incoerências, merece nossa atenção e funciona. Inclusive na inexpressividade de Robert Ginty para construir um John Eastland apático, mas também calculista e frio. Algumas seqüências são memoráveis: o ataque à casa de prostituição que explorava menores, o confronto com o dobermann ( o cão mais querido do cinema nos anos 80, imagine só...) e a morte do chefão mafioso no moedor de carne industrial. Teve uma continuação medíocre em 1984.

terça-feira, 10 de março de 2009

Casamento Alquímico (Chemical Wedding, 2008) - Aleister Crowley dá as caras em filme de horror inglês.


Em 1947 morria na cidade de Hastngs, Inglaterra, aquele que foi chamado pela imprensa britânica de “o homem mais perverso do mundo”: Edward Alexander Crowley. Conhecido como Aleister Crowley, foi o mais famoso mago contemporâneo, responsável por revolucionar a tradição mágica incorporando particularidades até então impensáveis. Ocultista, artista, charlatão, aventureiro e de brilhante inteligência, pode-se dizer que Crowley foi repudiado pelos seus semelhantes pela ousadia de transgredir as convenções – esotéricas ou não -, e de certa forma, acabou vítima dos próprios excessos, deixando como legado todo um sistema mágico complexo e desafiador.
Tal caráter contracultural não passou despercebido, sendo que após a morte, sua controversa personalidade não só deixou seguidores quanto serviu de base para obras de ficção, seja na literatura – ”O Mago”, de Somersert Maugham - , como na música (inspirando inúmeros roqueiros) e no cinema. O que pode ser conferido já em 1957 na produção A Noite do Demônio (Night of the Demon), de Jacques Tourneur, onde a caracterização do satanista Karswell (Niall MacGinnis) é nitidamente calcada no mago inglês. Também a essa influência podemos associar os diabólicos Mocata de The Devil Rides Out (1968), de Terence Fisher (Hammer) e Adrian Marcato, de O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby / 1968).
Contudo, somente em 2008, sessenta e um anos após sua passagem ao oriente eterno, Aleister Crowley foi personagem de um filme de horror: Casamento Alquímico (Chemical Wedding) dirigido por Julian Doyle a partir de história escrita em parceria com o metaleiro Bruce Dickinson (ex-Iron Maiden) a partir de um de seus álbuns de mesmo nome.
A narrativa começa com os últimos momentos do mago (John Shrapnel, inspiradíssimo), em Hastings, quando é acometido de um colapso enquanto estava na companhia do aprendiz Symons (Paul McDowell) e do incrédulo Alex. Em seguida, desloca-se para a Inglaterra atual, onde conhecemos o proeminente físico norte-americano Dr. Joshua Mathers (Kal Weber), recém-chegado da Cal Tech para trabalhar num experimento sobre realidade virtual em Cambridge. No caso a interação de um traje especial (um tipo de roupa de astronauta) desenvolvido por ele com o supercomputador Z93, que teria como resultado a ligação perfeita entre a máquina e o cérebro humano. O problema é que o programador da máquina, o perturbado Dr. Victor Neuman (Jud Charlton), tinha segundas intenções. Seguidor da doutrina de Crowley, convertera seus ritos e cerimônias para linguagem de máquina e os armazenou dentro do Z93, usando como cobaia na experiência seu cúmplice, o desajeitado professor de literatura Oliver Haddo (Simon Callow). Algo, porém, não sai como esperado. Haddo entra em colapso dentro do traje, voltando transformado. O professor é possuído por Aleister Crowley e passa a escandalizar o corpo docente da universidade – em parte composto de maçons - com seus desvarios e blasfêmias.
Decidido a perpetuar sua obra, Haddo/Crowley pretende realizar um poderoso rito, a geração do demônio enoquiano Choronzon, personificação das forças infernais. Para tal intento se concretizar, seria necessária a união carnal com a bíblica prostituta da Babilônia no que seria o clímax da cerimônia satânica: o casamento alquímico. E recai sobre a jovem estudante Lia (Lucy Cudden), envolvida com o jornal da universidade e interesse romântico do Dr. Mathers, o interesse do bruxo. Ela será a sua “mulher escarlate” no rito supremo e caberá ao físico norte-americano utilizar a tecnologia moderna para salvá-la das garras da “mágicka” arcana de Crowley.
Casamento Alquímico, apesar do roteiro por vezes confuso ao tentar misturar física quântica com bruxaria, tem como grande mérito ser a primeira produção destinada ao grande público (lembrando que o cineasta underground Kenneth Anger já se debruçara sobre o tema com outras intenções) que faz tantas referências ao universo crowleyano. Referências que irão instigar muitos espectadores a conhecerem melhor a obra de Mr. Therion e são facilmente identificáveis pelos adeptos*. Ainda que estes certamente torçam o nariz para algumas liberdades, pela redução ao senso comum de alguns preceitos e a caracterização do personagem principal, enfatizando e exagerando os aspectos mais pérfidos. O que pode ser justificado pelo fato de Casamento Alquímico ser uma produção de horror com elementos sexploitation (algumas pitadas de sadomasoquismo e nudez), em muito lembrando a fase áurea do horror B inglês, especialmente os filmes da Hammer. Uma obra que celebra os excessos e é bastante divertida. Resta saber o que o retratado principal acharia.
"Amor é a lei, amor sob vontade!" (Aleister Crowley (1875-1947)

(*) Algumas dessas referências:
- O sobrenome Mathers, do físico norte-americano, evoca o líder da famosa ordem Golden Dawn, Samuel MacGregor Mathers, que acabou se tornando inimigo de Crowley.
- O personagem Victor Neuman pode ter sido baseado no acólito Victor Neuburg.
- A jovem graduanda Lia Robinson remete a Leah Hirsing, uma das “mulheres escarlates” do mago.
- Há claras referências ao cientista-bruxo Jack Parsons, da Cal Tech, responsável por significativas pesquisas aeroespaciais – foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do programa espacial norte-americano – e líder da organização de Crowley nos Estados Unidos, assim como seu então parceiro L.Ron Hubbard (o criador da cientologia).

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Witchtrap (1989) – Kevin Tenney ataca novamente


Voltando das férias (o que explica a ausência de postagens), recorri à minha videoteca para rever mais um filme do diretor Kevin Tenney, já citado aqui duas vezes como o (ir)responsável pelo delicioso Witchboard (1986) e pelo nem tanto Witchboard 2: Entrada para o Inferno (1993).
Witchtrap trata de um tema recorrente nos filmes de horror: casas mal-assombradas. E é nítida a carona que o diretor-roteirista pega de duas obras-primas do gênero: Desafio do Além (The Haunting / 1963), de Robert Wise (baseado no livro de Shirley Jackson “A Casa da Colina”; e notadamente A Casa da Noite Eterna (The Legend of Hell House / 1973), de John Hough, adaptado por Richard Matheson de sua novela “Hell House”). De modo semelhante, Tenney trata de uma equipe de pesquisadores que vai passar uns dias em uma mansão para investigar supostas ocorrências paranormais, que já teriam causado algumas fatalidades. O grupo é contratado pelo herdeiro da mansão (interpretado pelo próprio Tenney) que acredita serem as perigosas manifestações obra do espírito de seu tio, o ilusionista Avery Lauder, dedicado satanista. Isolados na propriedade, a cientista Agnes Goldberg (Judy Tatum), seu marido e sensitivo Felix (Rob Zapple), a médium Whitney (Kathleen Bailey) e a técnica de vídeo Ginger (a scream queen Linnea Quigley), escoltados por três insuportáveis seguranças – entre eles o ex-policial Tony Vicenti (James W. Quinn) -, são obrigados a enfrentar uma força maligna superior às suas expectativas.
Com poucos momentos memoráveis e um elenco inexpressivo, Witchtrap tem como ponto alto a própria falta de recursos, que dá ao filme o caráter de não se levar a sério. O que fica evidente nas mortes dos membros da equipe pelo fantasma (o mesmo J.P. Luebsen que interpretou o diabólico “Malfeitor” em Witchboard). Com especial destaque para o assassinato da técnica de vídeo (Linnea Quigley, pelada como sempre), abatida quando tomava banho pelo próprio chuveiro que se projeta em sua garganta - só vendo para crer! Indicado para iniciados.