quinta-feira, 7 de maio de 2009

Sexo e Vampirismo no Cinema - Parte 1


Não é novidade a relação entre sexualidade e vampirismo. Muito já se escreveu sobre o assunto, freqüente nas mais diversas manifestações culturais que de algum modo se aventuraram pela mitologia dos vampiros.
No cinema essa interação começou timidamente, de forma um tanto quanto velada. O que, se em parte pode ser explicado como decorrência dos padrões de comportamento e costumes da primeira metade do século XX, também está patente no caráter assexuado e nada estimulante dos protagonistas daquelas produções. Afinal, exige-se um bocado de imaginação, ou mesmo forçada boa vontade, para se deixar seduzir pelos primeiros vampiros que encarnaram nas telas. É interessante pensarmos até, que o feioso Conde Orloff (o não menos sinistro Max Schreck) do Nosferatu de Murnau, tenha mais a ver com o caráter de morbidez e sexualidade perversa inerente à figura do vampiro do que os insípidos e posteriores Bela Lugosi, Lon Chaney Jr e John Carradine, atores que personificaram o Conde Drácula na série de filmes produzidos pela Universal entre os anos 30 e 40. Talvez o que mais possamos destacar dessa sexualidade reprimida tenha sido o sutil desejo lésbico da Condessa Zaleska (Gloria Holden) em um dos melhores momentos da leva, A Filha de Drácula (Dracula’s Daughter/1936).
Foi com a Hammer Films, responsável pelo renascimento do horror em fins dos anos 50, que o caráter sexual dos vampiros e vampiras começou a aflorar. Os novos ares trazidos pelos anos 60 permitiram que, em uma década, o sexo pudesse ser mostrado mais explicitamente e essa exposição evoluísse muito mais do que nos cinqüenta anos anteriores. Vale lembrar que nesse curto período de tempo os decotes foram se ampliando até chegar ao sexo explícito, que saiu dos guetos estabelecendo a pornografia fílmica enquanto indústria.
Ainda conservador por seu caráter dominador masculino, a nova encarnação do conde vampiro, personificado por Christopher Lee, era uma metáfora do predador sexual. Impetuoso e violento, quando mordia suas vítimas femininas, as possuía de corpo e alma. Elas se entregavam sem resistência e sucumbiam, em um misto de terror e volúpia. Ao mesmo tempo em que ele as seduzia, as desprezava. O abraço do vampiro, sua mordida, afirmou-se desse modo como representação da dominação sexual, da penetração e do orgasmo.
Em meio ao fracasso comercial que já espreitava no final dos sixties, a Hammer buscava cada vez mais capitalizar em cima da nudez de seu bem selecionado cast feminino. Os seios acabaram saltando de vez dos decotes. E se mostrar mulher pelada era bom para os negócios, melhor ainda seria se elas interagissem. Desse mergulho da Hammer no sexploitation, surgiu uma modalidade que acabou conhecida como tits-and teeth, representada pela trilogia das vampiras Karnstein (baseada no livro Carmilla, do escritor irlandês Sheridan Le Fanu). Se The Vampire Lovers (1970), Luxúria de Vampiros (Lust for a Vampire/1971) e As Filhas de Drácula (Twins of Evil/1971) não salvaram a Hammer da ruína que encerraria as suas atividades poucos anos depois, serviram para determinar um novo enfoque. Mais do que mostrar peitos se esfregando e a estimulante nudez de Ingrid Pitt, Yutte Stensgaard ou das gêmeas Mary e Madeleine Collinson (que foram coelhinhas da Playboy), assumiam a mulher como protagonista de ações antes reservadas aos vampiros machos. O que não redime esses filmes de seu caráter conservador, pois contrapunham essas femmes fatales às suas vítimas, ingênuas “moças de família” que eram invariavelmente salvas de suas garras pela autoridade masculina responsável pelo re-estabelecimento da ordem. (Continua semana que vem...)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

El Vampiro (1957) - Obra prima do horror mexicano.


Por esses dias revi El Vampiro (1957), que considero a pedra fundamental do ciclo de horror do cinema mexicano iniciado no final da década de 1950. Produzido por Abel Salazar e influenciado pelo Drácula da Universal, El Vampiro obteve bons resultados de público e crítica. O filme, dirigido por Fernando Mendez, mantém elementos recorrentes ao universo criado por Bram Stoker, com a diferença, que o torna bastante singular, da ação deslocada dos Cárpatos e da Londres vitoriana para uma hacienda na remota localidade mexicana de Sierra Negra. A narrativa também inova, com o acréscimo de novos elementos para a manjada trama e alguns artifícios de ambiência gótica mais efetivos do que os utilizados até então. Na trama, a jovem Marta retorna a Sierra Negra para ver a tia adoentada na propriedade rural da família, denominada Los Sicomoros. Lá chegando fica sabendo da morte da mesma, após anos atormentada pela crença de estar sendo perseguida por um vampiro. No decorrer da história ficamos sabendo que este, na verdade, era o vizinho, conde Duval (Germán Robles, um dos primeiros atores a ostentar caninos proeminentes), que com a ajuda da outra tia de Marta, a sexy Eloísa – já vampirizada -, pretendia tomar posse de Los Sicomoros com o intuito de reviver seu irmão, morto cem anos atrás pelos habitantes da região e enterrado na cripta da hacienda. Os cuidados com a produção ficam evidentes na fotografia em preto e branco, que captura muito bem a atmosfera lúgubre, de altos contrastes e brumas; nos enquadramentos e efeitos de luz que reforçam o insólito das seqüências. Como as aparições da tia morta, saída da sepultura agarrada ao grande crucifixo com o qual foi enterrada, e os movimentos da dupla de vampiros: Eloísa e Duval. O que em nada deixam El Vampiro atrás de outras duas produções que, na passagem dos anos 50 para 60 iriam revigorar a temática do vampirismo nas telas: O Vampiro da Noite (Horror of Dracula / 1958), de Terence Fisher – que por sua vez teria se inspirado na produção mexicana (GREENE, 2005, p.8) - e A Máscara de Satã (La Maschera Del Demonio / 1960), de Mario Bava.
O sucesso do filme – inclusive na Europa - levou a ABSA, produtora de Salazar, a investir no filão. Deixou como legado, além da continuação El Ataúd Del Vampiro (1958), títulos como: El Hombre y El Monstruo (1958), El Mundo de los Vampiros (1960), El Espejo de la Bruja (1960), La Cabeza Viviente (1961), La Maldición de la Llorona (1961) e El Barón del Terror (1961).

sábado, 28 de março de 2009

O Exterminador (1980)


Em 1980 as feridas causadas pela guerra do Vietnã ainda estavam doloridas em um país assolado pela crise econômica, reflexo ainda da década anterior. A renda diminuiu, assim como o poder aquisitivo, trazendo com o espectro da recessão não só o aumento da criminalidade quanto um recrudescimento do conservadorismo. O que culminou com a eleição de Ronald Reagan para a presidência, uma interessante metáfora, já que um ex-ator de direita assume o poder ao mesmo tempo que nas telas, novos heróis de caráter conservador (mas de forma alguma atrelados ao poder político, geralmente ineficaz e ganancioso) tentam restabelecer de forma truculenta, solitários, o sonho americano perdido.
Personagens como esses já eram bem conhecidos do público – caráter moldado nos westerns -, sendo os mais emblemáticos até então o policial Harry Callahan (Clint Eastwood) de Perseguidor Implacável (Dirty Harry, com três produções entre 1971 e 1976), e o vigilante Paul Kersey (Charles Bronson) de Desejo de Matar (Death Wish, 1974). Este último mais radical ao tomar para si a execução da justiça frente a inoperância dos poderes estabelecidos, principalmente por não estar submetido – como Harry Callahan – a um código institucionalizado. E é Paul Kersey a inspiração mais direta para John Eastland, personagem principal de O Exterminador (The Exterminator/1980). Produção de 1980 dirigida por James Glickenhaus, que já tinha no currículo o terror B Suicide Cult (1975) e futuro produtor executivo de pérolas como Maniac Cop (1988), Basket Case 2 (1990), e do ótimo Frankenhooker (1990). Autor também da história, Glickenhaus tem a grande sacada de adicionar à trama batida do justiceiro urbano um tempero extra: as agruras dos veteranos do Vietnã lutando para encontrar um lugar na sociedade e lidar com os traumas vivenciados no campo de batalha. Apelo que funciona e dá ao filme um caráter singular, fazendo com que fosse algo mais do que um simples e esquecível filme de ação.
A violenta seqüência de abertura, com um grupo de soldados aprisionados sendo martirizado pelo inimigo vietcong, faz com que lembremos de imediato dos ainda recentes O Franco Atirador (The Deer Hunter/1978), de Michael Cimino e Apocalipse Now (1979), de Francis Coppola. É nesse cenário infernal que a vida do soldado John Eastland é salva por seu colega de farda Michael Jefferson, fazendo surgir uma forte amizade. Ligação interrompida violentamente anos depois, quando os dois ex-combatentes, modestamente empregados, são obrigados a colocar para correr uma gang que roubava o depósito onde trabalhavam. Como vingança, os bandidos atacam Michael, que fica tetraplégico. Inconformado, Eastland massacra o bando e resolve, a partir daí, sair pelas ruas usando suas técnicas militares (um pré-Rambo) para livrar a sociedade dos elementos mais perigosos. Auto-denominado “O Exterminador”, suplicia de forma violenta e criativa (tiros, lança-chamas, etc.) os personagens mais sórdidos, enquanto é procurado por um policial íntegro (o veterano ator Christopher George, figura recorrente nas séries de tv da década de 70) e pelas autoridades ineptas e corruptas. Fica patente o desprezo pelos políticos e órgãos governamentais: o prefeito, preocupado com a reeleição, manda a Cia (sugerindo um conluio com Washington) para caçar o vigilante; e um dos justiçados é senador, nas horas de lazer torturador sexual de jovens em sinistra casa de prostituição.
O Exterminador é uma filme que, mesmo envelhecido esteticamente e com algumas incoerências, merece nossa atenção e funciona. Inclusive na inexpressividade de Robert Ginty para construir um John Eastland apático, mas também calculista e frio. Algumas seqüências são memoráveis: o ataque à casa de prostituição que explorava menores, o confronto com o dobermann ( o cão mais querido do cinema nos anos 80, imagine só...) e a morte do chefão mafioso no moedor de carne industrial. Teve uma continuação medíocre em 1984.

terça-feira, 10 de março de 2009

Casamento Alquímico (Chemical Wedding, 2008) - Aleister Crowley dá as caras em filme de horror inglês.


Em 1947 morria na cidade de Hastngs, Inglaterra, aquele que foi chamado pela imprensa britânica de “o homem mais perverso do mundo”: Edward Alexander Crowley. Conhecido como Aleister Crowley, foi o mais famoso mago contemporâneo, responsável por revolucionar a tradição mágica incorporando particularidades até então impensáveis. Ocultista, artista, charlatão, aventureiro e de brilhante inteligência, pode-se dizer que Crowley foi repudiado pelos seus semelhantes pela ousadia de transgredir as convenções – esotéricas ou não -, e de certa forma, acabou vítima dos próprios excessos, deixando como legado todo um sistema mágico complexo e desafiador.
Tal caráter contracultural não passou despercebido, sendo que após a morte, sua controversa personalidade não só deixou seguidores quanto serviu de base para obras de ficção, seja na literatura – ”O Mago”, de Somersert Maugham - , como na música (inspirando inúmeros roqueiros) e no cinema. O que pode ser conferido já em 1957 na produção A Noite do Demônio (Night of the Demon), de Jacques Tourneur, onde a caracterização do satanista Karswell (Niall MacGinnis) é nitidamente calcada no mago inglês. Também a essa influência podemos associar os diabólicos Mocata de The Devil Rides Out (1968), de Terence Fisher (Hammer) e Adrian Marcato, de O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby / 1968).
Contudo, somente em 2008, sessenta e um anos após sua passagem ao oriente eterno, Aleister Crowley foi personagem de um filme de horror: Casamento Alquímico (Chemical Wedding) dirigido por Julian Doyle a partir de história escrita em parceria com o metaleiro Bruce Dickinson (ex-Iron Maiden) a partir de um de seus álbuns de mesmo nome.
A narrativa começa com os últimos momentos do mago (John Shrapnel, inspiradíssimo), em Hastings, quando é acometido de um colapso enquanto estava na companhia do aprendiz Symons (Paul McDowell) e do incrédulo Alex. Em seguida, desloca-se para a Inglaterra atual, onde conhecemos o proeminente físico norte-americano Dr. Joshua Mathers (Kal Weber), recém-chegado da Cal Tech para trabalhar num experimento sobre realidade virtual em Cambridge. No caso a interação de um traje especial (um tipo de roupa de astronauta) desenvolvido por ele com o supercomputador Z93, que teria como resultado a ligação perfeita entre a máquina e o cérebro humano. O problema é que o programador da máquina, o perturbado Dr. Victor Neuman (Jud Charlton), tinha segundas intenções. Seguidor da doutrina de Crowley, convertera seus ritos e cerimônias para linguagem de máquina e os armazenou dentro do Z93, usando como cobaia na experiência seu cúmplice, o desajeitado professor de literatura Oliver Haddo (Simon Callow). Algo, porém, não sai como esperado. Haddo entra em colapso dentro do traje, voltando transformado. O professor é possuído por Aleister Crowley e passa a escandalizar o corpo docente da universidade – em parte composto de maçons - com seus desvarios e blasfêmias.
Decidido a perpetuar sua obra, Haddo/Crowley pretende realizar um poderoso rito, a geração do demônio enoquiano Choronzon, personificação das forças infernais. Para tal intento se concretizar, seria necessária a união carnal com a bíblica prostituta da Babilônia no que seria o clímax da cerimônia satânica: o casamento alquímico. E recai sobre a jovem estudante Lia (Lucy Cudden), envolvida com o jornal da universidade e interesse romântico do Dr. Mathers, o interesse do bruxo. Ela será a sua “mulher escarlate” no rito supremo e caberá ao físico norte-americano utilizar a tecnologia moderna para salvá-la das garras da “mágicka” arcana de Crowley.
Casamento Alquímico, apesar do roteiro por vezes confuso ao tentar misturar física quântica com bruxaria, tem como grande mérito ser a primeira produção destinada ao grande público (lembrando que o cineasta underground Kenneth Anger já se debruçara sobre o tema com outras intenções) que faz tantas referências ao universo crowleyano. Referências que irão instigar muitos espectadores a conhecerem melhor a obra de Mr. Therion e são facilmente identificáveis pelos adeptos*. Ainda que estes certamente torçam o nariz para algumas liberdades, pela redução ao senso comum de alguns preceitos e a caracterização do personagem principal, enfatizando e exagerando os aspectos mais pérfidos. O que pode ser justificado pelo fato de Casamento Alquímico ser uma produção de horror com elementos sexploitation (algumas pitadas de sadomasoquismo e nudez), em muito lembrando a fase áurea do horror B inglês, especialmente os filmes da Hammer. Uma obra que celebra os excessos e é bastante divertida. Resta saber o que o retratado principal acharia.
"Amor é a lei, amor sob vontade!" (Aleister Crowley (1875-1947)

(*) Algumas dessas referências:
- O sobrenome Mathers, do físico norte-americano, evoca o líder da famosa ordem Golden Dawn, Samuel MacGregor Mathers, que acabou se tornando inimigo de Crowley.
- O personagem Victor Neuman pode ter sido baseado no acólito Victor Neuburg.
- A jovem graduanda Lia Robinson remete a Leah Hirsing, uma das “mulheres escarlates” do mago.
- Há claras referências ao cientista-bruxo Jack Parsons, da Cal Tech, responsável por significativas pesquisas aeroespaciais – foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do programa espacial norte-americano – e líder da organização de Crowley nos Estados Unidos, assim como seu então parceiro L.Ron Hubbard (o criador da cientologia).

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Witchtrap (1989) – Kevin Tenney ataca novamente


Voltando das férias (o que explica a ausência de postagens), recorri à minha videoteca para rever mais um filme do diretor Kevin Tenney, já citado aqui duas vezes como o (ir)responsável pelo delicioso Witchboard (1986) e pelo nem tanto Witchboard 2: Entrada para o Inferno (1993).
Witchtrap trata de um tema recorrente nos filmes de horror: casas mal-assombradas. E é nítida a carona que o diretor-roteirista pega de duas obras-primas do gênero: Desafio do Além (The Haunting / 1963), de Robert Wise (baseado no livro de Shirley Jackson “A Casa da Colina”; e notadamente A Casa da Noite Eterna (The Legend of Hell House / 1973), de John Hough, adaptado por Richard Matheson de sua novela “Hell House”). De modo semelhante, Tenney trata de uma equipe de pesquisadores que vai passar uns dias em uma mansão para investigar supostas ocorrências paranormais, que já teriam causado algumas fatalidades. O grupo é contratado pelo herdeiro da mansão (interpretado pelo próprio Tenney) que acredita serem as perigosas manifestações obra do espírito de seu tio, o ilusionista Avery Lauder, dedicado satanista. Isolados na propriedade, a cientista Agnes Goldberg (Judy Tatum), seu marido e sensitivo Felix (Rob Zapple), a médium Whitney (Kathleen Bailey) e a técnica de vídeo Ginger (a scream queen Linnea Quigley), escoltados por três insuportáveis seguranças – entre eles o ex-policial Tony Vicenti (James W. Quinn) -, são obrigados a enfrentar uma força maligna superior às suas expectativas.
Com poucos momentos memoráveis e um elenco inexpressivo, Witchtrap tem como ponto alto a própria falta de recursos, que dá ao filme o caráter de não se levar a sério. O que fica evidente nas mortes dos membros da equipe pelo fantasma (o mesmo J.P. Luebsen que interpretou o diabólico “Malfeitor” em Witchboard). Com especial destaque para o assassinato da técnica de vídeo (Linnea Quigley, pelada como sempre), abatida quando tomava banho pelo próprio chuveiro que se projeta em sua garganta - só vendo para crer! Indicado para iniciados.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Witchboard 2: Entrada para o Inferno (1986)


Sete anos depois de Witchboard (1986), o diretor Kevin Tenney retorna ao tema dos tabuleiros ouija e vinganças espirituais. Witchboard 2: Entrada para o Inferno (Witchboard 2: The Devil’s Doorway) segue a mesma idéia do antecessor, ainda que não seja de modo algum uma continuação e muito menos inspirado.
A loirinha Paige (Ami Dolenz) trabalha em um escritório de contabilidade e sonha fazer carreira como pintora. Tentando recomeçar a vida após a morte do pai, separa-se do namorado (um policial casca grossa) e aluga um apartamento num prédio decadente. Durante a arrumação, encontra a tábua ouija e logo entra em contato com o espírito de uma certa Susan (Julie Michaels), que vivera ali dois anos antes e afirma, após algumas sessões, ter sido assassinada. Na verdade, o objetivo do fantasma, a despeito das tentativas da jovem em descobrir o que de fato acontecera, era possuir o corpo de Paige.
Witchboard 2 tem poucos momentos relevantes, personagens marcantes, sustos e praticamente nenhuma nudez (o que é uma pena, em se tratando da Ami Dolenz). Destaco a bem bolada morte de Elaine, a hippie proprietária do prédio onde Paige morava, atingida quando entrava em sua Kombi psicodélica por uma daquelas enormes bolas sustentadas por tratores próprias para demolição; o carro de Mitch (o tira) sem rumo percorrendo perigosamente as ruas da cidade por influência sobrenatural; o atendente da loja de artigos ocultistas, com estapafúrdias explicações sobre ouija e fantasmas; e os sugestivos pesadelos da loirinha, já sob controle da demoníaca Susan.
Se você é como eu, adora tranqueiras dos anos 80 e se diverte ficando cerca de duas horas vendo na tv velhos VHS com filmes ruins, esse é recomendado. Volto ainda outra vez com outra pérola de Kevin S. Tenney. Aguarde!!!!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Diário dos Mortos (2007) - Parte 2


Em Diário dos Mortos, toda a narrativa se desenvolve através do ponto-de-vista da câmera, fazendo com que o espectador veja através de sua lente, colocando-se no lugar do operador. Artifício utilizado já nas primeiras cenas, que mostram a gravação de uma tragédia familiar por uma equipe de tv. Enquanto a repórter, em primeiro plano, narra o ocorrido – pai desesperado mata mulher e filho a tiros – os cadáveres ao fundo começam a se erguer das macas onde esperavam a vez de serem conduzidos ao rabecão. Alheia, a jornalista não percebe (apesar do operador que tenta alertá-la sem tirar os olhos do visor) que os mortos atacam os paramédicos e são confrontados pelos policiais que guardavam a cena do crime. Por fim, um deles (a mulher) se aproxima por trás da repórter e ataca a dentadas – referência a seqüência emblemática de Despertar dos Mortos.
Após essa introdução, o ponto-de-vista passa a ser o do jovem estudante de cinema Jason Creed (Joshua Close), que realiza para a faculdade um filme de múmia fuleiro com a ajuda de colegas e a supervisão de um professor. Produção que serve de pretexto para algumas brincadeiras com alguns clichês do gênero e remete ao próprio início de Romero como diretor, quando rodou A Noite dos Mortos Vivos com baixíssimo orçamento e a colaboração de amigos. Logo, a inepta equipe fica sabendo pelo noticiário dos recentes acontecimentos, o que causa pânico e encerramento das gravações. Com o intuito de sair do local isolado onde se encontravam, pegam a estrada, passando Creed a ter como objetivo documentar a bizarra ocorrência.
Com isso, Diário dos Mortos se apropria das convenções do cinema documentário, onde além de vermos pelas lentes da câmera de forma subjetiva, passam a ser feitas interferências com entrevistas e asserções da própria equipe, assim como o registro de seus conflitos perante uma situação desconhecida e crítica. O diretor e câmera só são vistos quando surgem outros dispositivos de gravação, tornando possível a abordagem por diferentes olhares, como da namorada de Creed, Debra (Michelle Morgan), por exemplo. Recurso bastante eficiente e criativo usado por Romero, tanto para proporcionar uma aproximação maior com o espectador, quanto reforçar a construção narrativa dando maior dinamismo. Artifício complementado com a diversificação de ângulos através de imagens captadas de aparelhos de vigilância e telas de tv e computadores. Essa onipresença da câmera é o tempo todo colocada em questão, já que ao mesmo tempo que impele os personagens que dela se apoderam a registrar compulsivamente tudo o que vêem e traduzir o mundo pela lente do aparelho (é crível no âmbito do registro), promove uma desumanização do documentarista perante seu objeto. Uma clara alusão à postura adotada pelos meios de comunicação perante atrocidades e tragédias.
Por tudo isso, Diário dos Mortos é uma grata recompensa para os fãs de Romero, que não só têm a oportunidade de ver seus zumbis preferidos de volta em um filme de horror violento e bem amarrado, como também renovado e repleto da verve inconformista de George Romero.