sexta-feira, 3 de julho de 2009

She Freak (1967) - Um clássico do exploitation.


She Freak, de 1967, marcou a volta do produtor de filmes exploitation David Friedman ao horror, após o rompimento de sua parceria com o diretor Herschell Gordon Lewis (que rendeu a trilogia Banquete de Sádicos, Maníacos e Color Me Blood Red). Na produção, faz homenagem ao clássico de Tod Browning, Monstros (Freaks /1932), filme que marcou a sua infância. Também serve de oportunidade para retornar a uma antiga paixão: os espetáculos itinerantes, que percorriam os Estados Unidos levando excitação e divertimento, intrinsecamente ligados ao desenvolvimento do exploitation. She Freak conta a história da ambiciosa Jade Cochran (Claire Brennan), garçonete sem perspectivas em uma lanchonete de estrada interiorana. Ela consegue emprego em um parque de diversões de passagem pela cidade, seduzindo o próspero dono do show de aberrações humanas. Após casar-se com ele, entediada, passa a traí-lo com o operador da roda gigante. Descoberta a traição, o marido é morto a facadas pelo amante, e Jade toma o seu lugar no gerenciamento do show. Vingativas, as aberrações que ela hostilizava – especialmente um dos anões -, acabam transformando a bela jovem em hedionda deformidade e por consequência, na mais nova atração do espetáculo.

Podemos considerar She Freak um momento singular na filmografia de Friedman como produtor e certamente um de seus melhores momentos. Dirigido por Byron Mabe, não apresenta cena alguma de nudez ou violência mais explícita. Apesar disso e das evidentes limitações orçamentárias, consegue passar a atmosfera circense desses espetáculos. As maquiagens das aberrações (ao contrário do filme de Browning não são exploradas deformidades humanas verdadeiras) são bem convincentes e durante todo o tempo está presente, por trás das luzes, música e animação do parque de diversões, uma atmosfera de sordidez e perdição. A própria aparição final da protagonista, se arrastando no chão retorcida, com uma serpente na mão e riso demente, causa impacto ainda hoje.

sábado, 27 de junho de 2009

A Máscara do Demônio (1960), obra-prima do horror gótico.


Aproveitando o gancho da última postagem, quando tratei de O Caçador de Bruxas de Michael Reeves, volto com outro clássico. Para tanto, devemos lembrar que os temas que caracterizam o horror gótico ganharam impulso naquele início dos anos 1960 em filmes importantes como o I Vampiri (1956) de Riccardo Freda, ou mesmo no bem sucedido Horror de Drácula (Horror of Dracula/1958) da Hammer. Considero o ponto alto deste ciclo e um de seus momentos mais memoráveis A Máscara do Demônio (La Maschera del Demonio/1960), obra-prima do diretor Mario Bava, produção que sintetizou todos os paradigmas do cinema de horror gótico e tornou-se, conseqüentemente, um dos mais atmosféricos e assustadores filmes sobre feitiçaria e vampirismo. A Máscara do Demônio é um compêndio da temática gótica: o castelo lúgubre com suas alas abandonadas ou em ruínas, corredores úmidos, catacumbas, lendas tenebrosas e maldições ancestrais. Além de vilões perversos, da jovem inocente vítima maior dos horrores e o herói – na verdade o representante do bem que vai lutar contra as forças do mal desencadeadas.
Distribuído nos Estados Unidos pela AIP como Black Sunday, foi anunciado com o oportunismo habitual. Os distribuidores diziam se sentir com a “obrigação moral” de advertir que A Máscara do Demônio só deveria ser assistido por “pessoas com mentes amadurecidas”. Além disso foi mais um round na luta contra a censura, que tinha olhos especiais para os filmes de horror. Banido em vários países, levou oito anos para ser exibido na Inglaterra.
Filmado em preto e branco, com fotografia que acentua os contrastes de luz e sombras, além de enquadramentos que realçam a atmosfera de delírio e desolação, já na introdução mostra seu inovador e impactante visual. O filme começa com a execução, em algum ponto da Moldávia do século XVII, de uma sacerdotisa de Satã, a princesa Asa Vajda. Personagem que tornaria sua intérprete, Barbara Steele um ícone do gênero. Condenada à morte por seu próprio irmão, ela jura retornar da sepultura em busca de vingança. Asa é morta pelo objeto que dá título ao filme, uma máscara metálica, com grandes cravos pontudos, martelada em seu rosto. Conforme o prometido, ela volta dois séculos depois, quando seu túmulo é descoberto por um médico viajante e seu assistente. Este desastradamente se fere, deixando cair gotas de sangue sobre o cadáver de Asa. A influência da feiticeira não demora a se manifestar contra os novos membros de sua linhagem, principalmente sobre a jovem Kátia, que tem os mesmos traços da ancestral (Barbara Steele também, lógico).
Talvez Bruce Lanier Wright em seu livro Nightwalker:: Gothic Horror Movies (1995) não tenha exagerado ao considerá-lo o melhor filme de horror já feito em termos visuais, sendo praticamente único, entre os filmes de sua época, a empregar o visual de influência expressionista e a sensibilidade dos filmes de horror da Universal. E é nesse ponto que encontramos em A Máscara do Demônio um importante divisor de águas, representando, como nos sugere o autor, uma transição entre duas eras diferentes para a história do cinema. Sugestão com a qual concordo, já que o filme de Bava, se por um lado remete às tradições clássicas do horror, também introduz, como novos elementos, sadismo e imagens explícitas de cadáveres em decomposição ou mutilados. O rosto pálido, ainda marcado com os buracos feitos pela máscara e os olhos expressivos de Barbara Steele em destaque, dificilmente saem de nossa memória. Imperdível!!!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Caçador de Bruxas (1968), de Michael Reeves.


Como sabemos, a década de 1960 foi determinante para uma mudança de rumos que iria se cristalizar nos anos 70 em todos os setores da sociedade. Que refletiu no cinema, com maior explicitação nas cenas de sexo e violência e abordagem mais crua de temas adultos e controversos. Temas até então tratados com cuidado e de forma velada, graças inclusive à política interna dos próprios estúdios. Nesse sentido, foi no âmbito das produções de horror que as experiências mais radicais ganharam corpo, sendo o emblemático o ano de 1968 o momento crucial para a redefinição do gênero através de filmes que ditariam novos paradigmas e serviriam de guia para as décadas seguintes, como A Noite dos Mortos Vivos (The Night of the Living Dead), de George Romero e O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby), de Roman Polanski.
Bastante significativo foi um filme realizado e exibido modestamente: O Caçador de Bruxas (The Witchfinder General), de Michael Reeves, lançado nos Estados Unidos como The Conqueror Worm. Vincent Price interpreta com singular recolhimento – irreconhecível até, se compararmos com os personagens que encarnou nos filmes de Roger Corman (a famosa série baseada em Edgar Allan Poe) - Matthew Hopkins, um histórico e implacável caçador de bruxas que viaja através da Inglaterra medieval executando supostas bruxas e enriquecendo às custas disso. Reeves, na verdade, não queria Price no papel principal. Achava a sua atuação por demais caricata, considerando que o consagrado ator sempre se mostrava exagerado por detrás dos personagens, o que muitas vezes os tornava histriônicos. O diretor preferia em seu lugar o ator britânico Donald Pleasence. Sendo assim desenvolveu-se uma relação bastante conflituosa entre Reeves e Vincent Price, impedido de usar seus maneirismos. Contudo, O Caçador de Bruxas acabou tornando-se o veículo para a melhor atuação do ator, que nunca esteve tão contido, sério e assustador.
O interessante é que essa produção de baixo orçamento co-produzida na Inglaterra pela Tigon, uma companhia de filmes baratos, e a AIP, que vendeu o filme como mais um do ciclo Poe (daí o título americano The Conqueror Worm), não era, na verdade, um filme que utilizasse elementos fantásticos. Não dá nenhuma evidência de que as bruxas, perseguidas sem trégua, realmente tivessem poderes sobrenaturais. Mas as mostra como vítimas de um destino controlado pela autoridade constituída, perdidas e sem defesa ante o inevitável sofrimento. Empenhado em retratar o sadismo de Hopkins (metáfora para a corrupção do poder) o diretor foi mais longe do que outros antes dele ao mostrar vários tipos de brutalidade na tela. Afinal, Hopkins enforca, afoga, queima e enfia agulhas em suas vítimas, reforçado pela interpretação impassível e fria de Price. Sem o sangue-e-tripas que já dava sinais nas telas, ele valoriza a dor real em seu aspecto mais cru e violento, retratando sombriamente a corrupção e a degradação da alma humana.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Signo de Escorpião (1974) - o inferno astral de um diretor.


Em 1974, o cineasta Carlos Coimbra – o mesmo do embaraçoso Independência ou Morte (1972) – produziu (com verba da Embrafilme) e dirigiu O Signo de Escorpião, filme de suspense na linha das histórias de Agatha Christie e tema recorrente no cinema: pessoas isoladas em um lugar sinistro são mortas por assassino misterioso. Segundo o diretor, na biografia escrita por Luiz Carlos Merten (Coleção Aplauso - Imprensa Oficial), a idéia de vincular os crimes aos signos zodiacais partiu de seu irmão, Sérgio. Vale uma lembrança: em 1974 ainda estavam em voga os assassinatos em série cometidos nos Estados Unidos pelo Zodíaco. Coincidência?
A trama é simples e batida: doze pessoas são convidadas pelo Professor Alex, astrólogo endinheirado, para passar o fim de semana na sua mansão,em ilha particular. Lá pretende experimentar uma máquina que faria a previsão astrológica de forma científica. No melhor estilo "Agatha Christie encontra Jason", os convidados vão sendo abatidos um por um, ficando os sobreviventes envolvidos em todos os clichês do gênero: desconfianças, desentendimentos, etc.
A trama, assessorada pelo astrólogo Omar Cardoso, famoso nos anos 1970, começa no iate que leva o grupo à ilha. Conhecemos então os personagens, entre eles a repórter Gilda (Maria Della Costa), a loura burra Ângela (Kate Lyra, lindíssima) e o galã de novelas interpretado de forma constrangedora pelo compositor Carlos Lyra (que deveria ter continuado com seu banquinho e violão ao invés de se aventurar no cinema).
Eles são recepcionados pelos empregados do anfitrião, Samuel (Sandro Polonio) e Marta (a sempre sinistra Wanda Kosmo - a bruxa de Exorcismo Negro, do Mojica, do mesmo ano). É dela a pérola, quando chocada com os modos dos integrantes do grupo: “Os convidados do patrão trazem pecado e podridão”. Logo em seguida, eles encontram o Professor Alex (Rodolfo Mayer), que explica porque os reuniu, cada um representando um signo do Zodíaco. Ele apresenta sua invenção, o cérebro-eletrônico – engenhoca desenvolvida pelo próprio diretor com a colaboração de Miro Reis – que daria ao filme um toque de ficção científica, já que em 1974 computadores não eram tão comuns. A máquina daria as previsões astrológicas definitivas, já que estava programado com todo o conhecimento astrológico reunido por seu inventor.
A primeira a morrer é Sônia (Maria Viana), secretária do astrólogo. Enquanto os outros convidados caem na farra após o jantar, com direito à bebida, rock’n’roll e um strip-tease da japonesa Satiko (Elza Tsugawa), Sônia resolve nadar pelada. Pouco depois aparece estrangulada, iniciando assim a seqüência de mortes. A partir daí as coisas vão se complicando. Eles descobrem que o rádio estava danificado, assim como o iate, e que estavam prisioneiros com um assassino entre eles. As cenas de violência são discretas. Porém, há alguma ousadia gráfica que merece destaque, como o personagem encontrado morto com uma âncora fincada no corpo.
Esse Caso dos Dez Negrinhos tupiniquim também é contido nas cenas de sexo. Na verdade, ficamos todo o tempo esperando um pouco mais da Kate Lyra. Mas não podemos esquecer que a produção é de 1974 e o sexo, assim como outras coisas boas da vida, não era muito apreciado pelos nossos governantes, muito menos pelo órgão responsável pela moral e bons costumes: a Censura. Destaco com louvor um trecho do filme: a macumba protagonizada pela empregada Marta, com direito a círculo de pólvora, ivocação a Satã e imagens do nosso sicretismo religioso, com seus santos e pomba-giras.
Apesar de todo o empenho e entusiasmo, o tiro de Carlos Coimbra saiu pela culatra (assim como os bons augúrios do astrólogo Cardoso). Fracasso retumbante, O Signo de Escorpião quebrou Coimbra, que teve que devolver aos cofres da Embrafilme a antecipação da verba de produção (mais tarde com a renda de Iracema, a Virgem dos Lábio de Mel – 1978 ).
O filme, inegavelmente, envelheceu bastante nesses mais de trinta anos. Principalmente pela história em si. É como comer comida requentada de véspera. Mesmo assim, vale embarcar na estética do cinema brasileiro da época, principalmente daquele visual feio e sujo imposto pela falta de grana, das roupas, dos cabelos, da cafonice, da vulgaridade e da sensacional cafajestice.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Ritos Satânicos de Drácula (1973)


Voltando de Juiz de Fora, onde passei a semana passada (justificando a falta de postagem) na muito legal “Bordas Fora”, Mostra de Cinema de Bordas de Juiz de Fora, organizada pelo meu amigo e professor da UFJF Alfredo Suppia, resolvi matar a saudade da Hammer. E nada melhor para isso do que rever um de seus filmes de Drácula. Escolhi provavelmente o menos cotado e, como sou do contra, um dos que mais gosto: Ritos Satânicos de Drácula.

Em 1972, em plena contra-cultura, a Hammer já mostrava sinais claros de esgotamento. Sua repetitiva fórmula não se adequava aos novos tempos, de contracultura e revoluções no modo de pensar e agir da sociedade. O cinema de horror refletia isso e o Diabo estava na ordem do dia desde que Rosemary pariu seu rebento. Os velhos sets com castelos, carruagens, pequenas aldeias perdidas nos Cárpatos e camponeses enfurecidos carregando tochas noite adentro estavam definitivamente fora de moda em meio às minissaias, drogas alucinóginas e um discurso político radical. Uma das soluções seria dar uma roupagem mais pop para a tradicional temática, o que vai transparecer nas produções do período, em meio aos peitos das atrizes que começaram a pular com mais freqüência para fora dos decotes. De acordo com essa nova aproximação, a decisão mais controversa (e que ainda gera polêmica) foi adaptar seu mais famoso personagem – o Conde Drácula – para a swinging London do início dos anos 1970. Se em outras produções apenas foram atualizadas a estética e o comportamento dos personagens, Drácula foi deslocado da era vitoriana para a metrópole de arranha-déus, bares e automóveis. A primeira tentativa foi com o delicioso Dracula A.D.1972 (também conhecido como Dracula Today; Dracula, Chelsea, 1972 e Dracula Chases the Mini Girls! - título ridículo que inspirou nossos tradutores a chamarem o filme no Brasil de Drácula no Mundo da Minissaia). Dracula A.D.1972 já dava as dicas do que seria, posteriormente, Ritos Satânicos. Garotas bonitas (destaque para a estonteante Caroline Munro e a gostosa Stephanie Beacham), missas negras - tão em voga na época -, e jovens rebeldes. Na seqüência, veio Ritos Satânicos de Drácula (também conhecido por Count Dracula and His Vampire Bride e The Satanic Rites of Dracula), de 1973, um filme que não se define e por isso mesmo tem seu charme. Nessa mistura de thriller de ação com filme de horror, Peter Cushing encarna novamente o incansável caçador de vampiros Van Helsing. Novamente junta forças com a Scotland Yard (com quem trabalhara na produção anterior) para desbaratar um misterioso culto satânico integrado por figurões da política. Ele descobre que por trás se esconde um poderoso empresário que pretende soltar uma peste com a intenção de exterminar a raça humana. E quem é o tal empresário? Nada mais nada menos do que o Conde Drácula! Temos então uma salada bem temperada: perseguições, tiroteios, motoqueiros, mulheres-vampiro, tramas conspiratórias, trilha sonora moderninha (bem bacana, por sinal), missas negras...só faltou o James Bond. Aliás, com todo o respeito ao renomado Van Helsing, o espião britânico faria melhor figura ali caçando um Drácula que, por sua vez estava mais para Goldfinger ou Dr. No. Por tudo isso, é imperdível. Um momento único e, a seu modo, inspirado. Sim, porque os produtores jogaram todas as suas cartas e pagaram para ver. E construíram, dentro dos padrões da cultura pop - vista pelo seu lado mais extravagante - uma obra afetada, desordenada e que, por incrível que pareça, faz sentido. Para ver e rever.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sexo e Vampirismo no Cinema - Parte 3 (Final)


Foi com desconfiaça, portanto, que assisti Dark Angels (2000), dirigido por Nic Andrews. E confesso que me surpreendi. Produção bem cuidada, efeitos especiais, elenco bonito... e uma narrativa convincente e bem amarrada. Tanto que se esquecermos as cenas de sexo explícito, poderia muito bem passar por um filme de horror B, bem ao estilo de Fred Olen Ray. Dark Angels, que foi eleito em 2001 pela AVN (o Oscar do pornô americano) como melhor filme e também venceu o 9th Erotic Awards 2002, recorre aos clichês que se tornaram lugar comum nos filmes de vampiros a partir dos anos 80. Esbanjando visual moderninho e edição de videoclip, conta a história de uma jovem (Jewel De Nyle – o nome de guerra dela é esse mesmo) que testemunha o assassinato de um homem (o veterano Mike Horner, presença sempre bem vinda) por uma vampira ((Sydnee Steele). Esta, líder de um clã de chupa-sangues, passa a perseguir a pobre moça, que passa a ter sonhos estranhos e sangrentos. Após um desses devaneios, em que se entrega à rainha vampira, repara a marca de mordidas em sua coxa. Socorrida pelo policial (Dillon Day) que investiga os crimes ligados aos mortos-vivos, acaba morrendo na sala de emergência do hospital, retornando como vampira na geladeira do necrotério (onde protagoniza uma seqüência de sexo com o legista). Sabendo estar condenada, sai atrás do grupo de vampiros em busca de vingança.
Esse elemento, do vampiro renegado (ou aspirante recém-transformado), que não quer fazer parte do grupo a que pertence preferindo a morte à eternidade mantida com sangue é bastante comum na reformulação por que passou a mitologia vampiresca nas últimas décadas. São vários os exemplos, desde filmes como Os Garotos Perdidos (The Lost Boys/1987) e Quando Chega a Escuridão (Near Dark, 1987), até séries de tv como as extintas Maldição Eterna (Forever Knight/1992-1996), Buffy – A Caça Vampiros e Angel (este o melhor exemplo por, além de negar a sua espécie graças à “alma” recuperada, caçar e matar os seus semelhantes). Também o visual do filme se adequa ao padrão “neo-gótico” em voga, substituindo as antigas e empoeiradas capas. Usam roupas pretas, acessórios em couro, óculos escuros, piercings e tatuagens, em ampla conexão com o universo fetichista.
A abertura do filme – a meu ver a melhor seqüência – é francamente inspirada no filme de Tony Scott Fome de Viver (ThItálicoe Hunger/1983) e, principalmente, o primeiro Blade (1998). Nesse trecho inicial, passado em um night club onde rola uma rave, seguimos a bonita morena Rachel (Ginger Paige – sim, senhoras e senhores, o ponto alto do vídeo), em busca de companhia. Vale a pena aqui uma nota para quem viu Blade: a seqüência inicial do filme (aqui parcialmente reproduzida) com Wesley Snipes, é protagonizada pela ex-atriz pornô e musa deste modesto escritor, Traci Lords. Em Dark Angels, Rachel encontra um rapaz e, após rápido entendimento, seguem para o banheiro do night club onde fazem sexo. O resultado final é um banho de sangue memorável, com a jovem vampira atacando a dentadas sua vítima.
As cenas de sexo do filme são bastante convencionais, o que pode caracteriza-lo como “filme para casais” – denominação comum para pornôs com história e ousadia limitada para os atos explícitos. Em Dark Angels, seguem inevitavelmente a fórmula garota-chupa-rapaz, rapaz-chupa-garota, penetração frontal. Nada de sadomasoquismo, transa anal, dupla-penetração ou alguma modalidade menos “comportada”. Na verdade, o sexo se integra na narrativa, em nenhum momento se configurando como elemento predominante. Tanto que, como já dissemos, poderia ser suprimido sem prejudicar o filme como um todo.
Vale destacar também as convincentes cenas de ação (como a luta entre o policial e um dos vampiros), os efeitos especiais (ferimentos de bala, a desintegração dos vampiros, as estacas perfurando os corpos e a transformação da rainha vampira em uma morcegona), a trilha sonora (a cargo de Derik Andrews e Inversion 89) e a maquiagem. Os fetichistas de plantão vão delirar com as mulheres do filme, seminuas, ostentando presas pontudas e sangrentas.
Dark Angels não está sozinho nessa onda de filmes que mesclam o velho e bom hardcore ao temas de horror. Outros foram produzidos desde o final dos anos 90 com bons resultados, entre eles Les Vampyres (2000 – com seqüência em 2002), de James Avalon; Pornogothic (1998), de Jonathan Morgan e Skin XVII: Succubus (1999), de Toshi Gold. Dark Angels também gerou uma continuação: Dark Angels 2: Bloodline (2005). Ambos lançados em DVD pelo selo Sexxxy.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sexo e Vampirismo no Cinema - Parte 2


Enquanto a Hammer tirava a roupa de suas atrizes e as colocava em situações insinuantes, nos países da Europa continental – notadamente Espanha, França e Itália -, diretores como o Jesus Franco (Vampyros Lesbos/ 1970, Female Vampire/1973) e Jean Rollin (La Vampire Nue/ 1969, Le Viol du Vampire/ 1967, etc.) colocaram o vampirismo como pano-de-fundo para produções bem mais ousadas. Cenas de nu frontal, sexo simulado e em alguns casos explícito mostravam que em matéria de ousadia, estes realizadores deixavam no chinelo seus colegas britânicos. Talvez por estarem menos sujeitos aos censores de plantão.
A nascente indústria pornô também se inspirou no tema, dando mostras disso ainda no início dos anos 70 em pequenas fitas como Mad Love Life for a Hot Vampire ou Count Erotica, Vampire. Foi no final dessa década, em 1979, que o grande clássico unindo vampirismo e sacanagem foi realizado: Desejos à Primeira Mordida (Lust at First Bite, conhecido primeiramente com o sugestivo título de Dracula Sucks). Lançado em duas versões, com e sem sexo explícito, é uma bem humorada e trash adaptação x-rated do livro de Bram Stoker. Repleto de estrelas do universo hardcore do período (muitos na ativa até hoje), como Anette Haven, John Leslie, Serena, Kay Parker, John Holmes, Paul Thomas e Seka, tem como ponto alto a presença de Jamie Gillis (que antes de ser astro pornô tinha formação de ator) como Drácula.
Não só os vampiros, mas também outros monstros e temas do cinema de horror, se tornaram recorrentes na produção pornô nas décadas seguintes. A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street/1984), de Wes Craven inspirou, por exemplo, A Nightmare on Porn Street (1988); Sangue de Pantera (Cat People/1942) acabou sendo a matriz de A Deliciosa Maldição da Mulher Gato (Curse of the Catwoman/1992). As múmias deram o ar de sua graça no corpo de Nina Hartley em Múmia 1 – A Perdição dos Faraós (Mummy Dearest/1990). Nem mesmo o mascarado Jason escapa, em Sexta-Feira 13 – O Início da Sensualidade (Friday, the 13th: A Nude Beginning/1987). Porém, se a lista é grande, de nenhum modo pode-se dizer que alguma dessas produções mereça lugar de destaque. Principalmente pela tendência a se tratar os temas com escracho e dar duvidoso caráter humorístico – o que raramente é eficaz.