segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Quem tem medo de fantasma? - Umas palavrinhas sobre Atividade Paranormal.



Em tempos de Atividade Paranormal, (Paranormal Activity) produção de horror e fenômeno de marketing alardeado como sucessor da Bruxa de Blair (The Blair Witch Project /1999) que tem lá seus momentos (afinal, que não fica aterrorizado com a idéia de ser assombrado e perseguido por uma entidade sobrenatural hostil?) e termina mal resolvido, algumas coisas devem ser relevadas. Em primeiro lugar, como sabemos, fantasmas não são novidade nas telas. Sendo que na década de 60 foram produzidos os dois mais emblemáticos filmes sobre casas mal assombradas e atividades paranormais, que rapidamente citei anteriormente quando fiz minha postagem sobre A Casa da Noite Eterna (The Legend of Hell House / 1973). São Os Inocentes (The Innocents/1961) e Desafio do Além (The Haunting/1963). Ambos adaptados de sofisticadas e ambíguas obras originais: Os Inocentes de A Volta Do Parafuso, de Henry James e Desafio do Além de A Assombração Da Casa Da Colina, de Shirley Jackson.

As duas produções - bem distintas uma da outra - apresentam alguns pontos em comum. Um deles é o fato de que tanto Jack Clayton em Os Inocentes, quanto Robert Wise em Desafio do Além, enfatizam através de uma construção psicológica bastante apurada,a repressão sexual dos personagens que, em parte, se converteria nos fantasmas que os assombravam. Outro aspecto comum é a discrição em revelar os fantasmas. Ficamos o tempo todo na dúvida se realmente há algum ou se estamos testemunhando projeções de mentes confusas e problemáticas. Também nas duas realizações foi cuidadosamente construída uma apreensiva atmosfera, pesada e obscura, onde realmente um fantasma gostaria de perambular.

Talvez o que falte às novas produções - essa ambigüidade envolvendo as manifestações sobrenaturais, a caracterização psicológica mais aprofundada dos personagens e o saber como contar uma boa história - seja compensado pelo o atrativo que esse formato de falso documentário exerce sobre o público (aí incluída a geração you tube), que pode se sentir mais próximo do retratado por uma aparente imersão na “vida real”. O que é reforçado pelo caráter independente, o evidente baixo orçamento e a cara de pau na simulação de tomadas domésticas, sustentadas por um cast de desconhecidos. Estes colocados em situações cotidianas que criam uma crescente atmosfera de medo pontuada por sustos e relação forte com as expectativas do espectador acerca do registro e constatação de vida após a morte. As mesmas expectativas – nunca realmente satisfeitas, diga-se de passagem - excitadas pelas supostas fotos espíritas ou filmagens em que surgem vultos ou luzes misteriosas. No que Atividade Paranormal é bem sucedido ao trazer para bem perto esse universo de confronto com o desconhecido, com o mundo invisível que nos cerca – de acordo com as teorias espíritas – e sua interação nem sempre bem vinda com os vivos. Dentro dessa premissa, ainda que possamos ligar Atividade Paranormal a filmes como A Bruxa de Blair (ou o menos conhecido O Mistério de St. Francisville/The St. Francisville Experiment - 2000) pelo modelo como são feitas as tomadas, vejo como a grande fonte de inspiração temática outro tipo de documentário, mais tradicional no formato, que pode ser visto há alguns anos em canais por assinatura. Como Ghost Hunters do Sci-Fi Channel e, notadamente, Assombrações (A Haunting), série exibida no Discovery Channel onde pessoas comuns são envolvidas em situações assustadoras ocasionadas por entidades maléficas, iniciada em 2002 com o aterrorizante docudrama Assombrações em Connecticut (A Haunting in Connecticut). Muito mais eficiente do que a produção recente Evocando Espíritos (The Haunting in Connecticut / 2009) sobre o mesmo caso.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

I'll see you in my dreams - zumbis portugueses com certeza!


Não faz muito tempo que comprei o DVD importado Small Gauge Trauma contendo uma coletânea de curtas de horror de diversos países, dentre eles o premiado Amor só de mãe, do Dennison Ramalho. Dentre todos, o que mais chamou minha atenção foi uma produção portuguesa com o estranho título em inglês I’ll see you in my dreams. Curioso, principalmente pela escassez de filmes do gênero na terra de Camões. O único que me vem à memória é o soturno e ótimo Coisa Ruim (2006) de Tiago Guedes e Frederico Serra, recentemente exibido por um canal de TV por assinatura que não me recordo.

I’ll see you in my dreams é mais antigo, dirigido por Miguel Angel Vivas em 2003, premiado no Fantasporto e constantemente referido como “o primeiro filme de horror português” – algo que não confirmo por falta de maior conhecimento da cinematografia lusitana.

O curta reforça a influência de Romero e dos filmes de zumbis (olha eles aí de novo!!!!) na nova geração de cineastas. Tanto que nos créditos é incluído um agradecimento formal não só ao diretor de A Noite dos Mortos Vivos como a Lucio Fulci, Peter Jackson e Sam Raimi. A história se passa em uma aldeia assolada por uma praga inexplicável que faz os mortos vagarem pelo local atacando e comendo os vivos. O único com coragem para enfrentá-los é um trabalhador rural, meu xará, que armado elimina os que encontra pela frente. Como pode ser visto na seqüência de abertura passada em um bosque. Lúcio acaba se envolvendo com Nancy, a garçonete da taverna local, onde os estranhos e desanimados moradores se reúnem. Ele leva a jovem para casa onde esconde um terrível segredo: sua mulher fora afetada pela praga e transformada em zumbi, sendo mantida cativa. Justamente naquela noite, enquanto tira o atraso com Nancy, a esposa faminta se liberta e desencadeia uma seqüência de horrores.

I’ll see you in my dreams (título também da música tema, a cargo da banda de heavy metal portuguesa Moonspell) é bastante eficiente em sua proposta de unir humor negro como horror, concretizada pelas cenas de sangue-e-tripas realizadas com bastante apuro técnico e o ótimo trabalho de maquiagem dos zumbis. A produção também tem o mérito de conseguir desenvolver uma trama bem consistente e dinâmica em seus parcos vinte minutos, com trabalho de fotografia exemplar e enquadramentos instigantes, tendo potencial para ser ampliado para o formato longametragem. Afinal, fica devendo maior aprofundamento na história do vilarejo, da praga zumbi e dos personagens, notadamente os principais: o caçador de mortos Lúcio, sua mulher Ana e a amante Nancy, defendidos respectivamente com garra pelos atores Adelino Tavares, Sofia Aparício e São José Correia (também achei estranho, mas é o nome da moça, que se vai fazer?). Prepare-se para a seqüência final, aterrorizante.


Assista ao trailler:

http://www.youtube.com/watch?v=PPK6nk5Jj5E


Veja o videoclip do Moonspell com a música título:

http://www.youtube.com/watch?v=Z_RdYmK90O0

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A palavra é "Zumbi"...


Sem dúvida nenhuma, um dos temas mais queridos e recorrentes do cinema de horror são os zumbis. Vou tentar divagar um pouco sobre o assunto, já que vem crescendo – principalmente na produção independente realizada por jovens cineastas – o número de filmes que versam sobre esses mortos insepultos que vagam sedentos por carne humana.

A palavra zumbi vem do quimbundo nzumbi (fantasma, espectro) e acabou ligada à religião haitiana, relacionada à idéia – recorrente em várias culturas e tradições – de um morto se erguer da sepultura. Ao que tudo indica, o vodu desenvolveu-se primeiro no Haiti entre os escravos que trabalhavam nos canaviais e incorporaram aos seus deuses nativos aspectos da religião dos senhores. Os sacerdotes vodu teriam entre suas aptidões o poder de ressuscitar os mortos, que como cadáveres animados, seriam destinados à servidão. Acredito que a origem do zumbi como personagem de histórias de terror se deve ao estranhamento em relação a essa idéia e ao seu caráter espetacular. Mortos redivivos vagando pela noite e assombrando os vivos, convenhamos, foge ao âmbito das coisas ordinárias às quais estamos familiarizados e são bastante assustadores. Principalmente quando existe uma demarcação muito forte entre os mundos dos vivos e mortos e é sobre o rompimento dessas fronteiras que gira a maior parte da ficção de horror. Portanto, o zumbi é a criatura que mais profundamente lida com o tabu da morte, mais do que os fantasmas incorpóreos ou os românticos vampiros - que também estão mortos, mas não possuem a mesma dimensão em aspectos corporais e afinidade com nossos medos ancestrais. Esse personagem ganhou mais tempero graças aos preconceitos de viajantes que, com sua visão colonialista, descreveram o Haiti como local de sangrentos rituais de magia negra, orgias selvagens e mortos reanimados. O que acabou reforçado pelas superstição, sem falar na indústria de turismo e estrutura de poder haitiana. Vale lembrar que a ditadura Duvalier se utilizava das crenças religiosas locais como um dos sustentáculos de seu regime. E foi o cinema que deu maior dimensão ao zumbi e o redirecionou, desde as primeiras décadas do século XX, em filmes como Zumbi Branco (White Zombie/1932), com Bela Lugosi revivendo os mortos para trabalharem em sua plantação e as produções de Val Lewton para a RKO, iniciadas com I Walked with a Zombie (1943).

Posteriormente, em termos de fidelidade ao tema, sem dúvida George Romero é o grande exemplo. E isso apesar de ter rodado até agora apenas cinco filmes sobre zumbis. Não só o mais assíduo, como também o mais influente, responsável por retirar do tema qualquer conotação mística ou relação com o vodu, e atrelando seus mortos-vivos aos problemas da sociedade contemporânea. Romero foi numa direção bastante diferente ao não se preocupar com explicações para seus zumbis. Fruto ou não de radiação de algum artefato espacial, para ele o importante são os conflitos desencadeados entre aqueles que se deparam com a situação – a reação humana. Por isso mesmo os mortos dos filmes de Romero são desconfortavelmente comuns, vestindo as roupas que usavam em vida, com as marcas da morte explícitas nos corpos e guiados pelo instinto de saciar seu apetite por carne humana. George Romero inaugurou, com A Noite dos Mortos Vivos (The Night of the Living Dead / 1968) a era do zumbi canibal, lançando as bases que renovariam o gênero daí em diante. Permanece fiel ao assunto até hoje, já com outra seqüência - o último foi o ótimo Diário dos Mortos (Diary of the Dead / 2007) – em andamento. Diferente de outros realizadores que utilizaram a mesma temática em produções esparsas dentro de suas filmografias ou de ciclos específicos. Como foi o caso dos filmes de zumbis feitos na Europa, um dos mais prolíferos filões, com os filmes de Jorge Grau, a saga dos “mortos-sem-olhos” de Amando de Ossorio, entre outros. Com destaque para a obra do italiano Lucio Fulci, certamente quem mais se inspirou em Romero com Zombi 2 (1979), assim denominado para capitalizar em cima do sucesso de O Despertar dos Mortos ( Dawn of the Dead que na Itália se chamou Zombi). Seguiram-se Pânico na Cidade dos Zumbis (Paura Nella Cittá dei Morti Viventi /1980), Terror nas Trevas (L’Aldilà... e Tu Vivrai Nel Terrore /1981), e Terror nas Trevas (Quella Villa Accanto al Cimitero / 1981), resgatando o caráter sobrenatural. Grande parte dos filmes de zumbi feitos lá fora, principalmente os realizados a partir do final da década de 1970, foram lançados em VHS por diversas empresas, algumas de caráter bem duvidoso. Ainda que com distribuição precária, serviram de inspiração para uma geração de aficionados do horror pelos extremos gráficos a que chegavam. Gente sendo comida viva pelos zumbis, entranhas expostas, sangue... E alguns deles, por esse caráter radical, resolveram experimentar em suas próprias produções fundo-de-quintal, já nos anos 90, momento em que câmeras já estavam bem acessíveis. É o caso do pioneiro Petter Baiestorf com seu Zombio, se não a primeira, a mais interessante produção sobre o tema até então. Além disso, zumbis são bastante populares, tornando-se personagens recorrentes também nos quadrinhos e em vídeo games como House of Dead e Resident Evil – grandes referências para a nova leva de realizadores em vídeo.

Na minha opinião, o citado Zombio (1999) é um dos mais interessantes filmes de zumbis realizados no Brasil. Escrito e dirigido pelo catarinense Petter Baiestorf, é uma homenagem às produções sobre o assunto, especialmente os de Fulci. Repleto de referências ao cinema B de horror e ficção científica, o longa-metragem narra a história de um casal que resolve acampar numa ilha e é atacado por um grupo de mortos canibais. Outro que merece ser colocado em evidência é o curta Crônicas de um Zumbi Adolescente (2002), de André ZP, que parece aqueles filmes de adolescentes que se tornam monstros feitos nos anos 50 (na linha I was a Teenage Werewolf). Rodado em preto-e-branco, trata do fracassado Zeca que volta da sepultura como um cadáver repugnante que tenta se integrar novamente na rotina. Mais recentemente posso citar outro curta, a comédia de horror Minha Esposa é um Zumbi (2006), de Joel Caetano - cineasta que vem se revelando, junto aos seus companheiros da Recurso Zero Produções - e os recém-vistos e bem elaborados Era dos Mortos (2007), de Rodrigo Brandão, Capital dos Mortos (2007), de Tiago Belotti e Mangue Negro (2008), de Rodrigo Aragão.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A noite das taras do rei da pornochanchada.


David Cardoso não é só um cara esperto, mas corajoso também. Tanto que trocou uma promissora e segura carreira como galã de telenovelas pelas incertezas de abrir uma produtora para atuar na instável cena cinematográfica brasileira e se tornar “o rei da pornochanchada”. O resultado foi a DaCar, certamente a mais rentável companhia que enveredou na linha de filmes eróticos com Caçada Sangrenta (1976) e atravessou a melhor fase da Boca do Lixo, até meados da década de 1980 quando se rendeu aos filmes de sexo explícito. Cercado de talentosos colaboradores, esmero técnico e principalmente mulheres bonitas, Cardoso não só conseguiu invejosas cifras nas bilheterias, como também foi responsável por algumas obras bastante singulares, não só pela ousadia, mas pelos temas abordados. Dessa filmografia, destacam-se os filmes divididos em dois ou três episódios. Ainda que irregulares, unem o tino comercial de oferecer ao público na mesma sessão mais de uma história, a exemplo das famosas sessões duplas, com a interessante premissa de multiplicar o número de produções, investindo em filmes de menor duração e por sua vez com um ritmo narrativo mais ágil. O que propiciava agilidade em ter novos títulos no circuito, rendimentos mais rápidos e um mercado de trabalho maior para os atores e técnicos envolvidos. Como e se isso efetivamente se realizou, é outra história. Também são significativos exercícios de gêneros cinematográficos, o que era praticamente impensável no que era realizado pelas “castas superiores” de nosso cinema. Se essas produções da DaCar – como a pornochanchada em geral – perpetuam a grande contradição do exploitation, a visão conservadora de que o sexo leva à perdição, velada na exibição gratuita de nudez e sexo - evidentes chamarizes para um público ávido por sacanagem -, também celebram um cinema corajoso, de iniciativas e independência que não só merecem, como precisam tomar seu lugar na história do audiovisual brasileiro.

A Noite das Taras (1980) é a primeira produção dessa leva, como também a mais bem amarrada, o que é feito através dos personagens principais: três marinheiros de folga na noite paulistana, elos de ligação entre as histórias que formatam o longametragem. O filme começa com cenas no porto de Santos, quando os três marujos desembarcam, animados pelas perspectivas da licença, e rumam para São Pualo.

A narrativa inicial, A Carta de Érico, é dirigida por John Doo. Uma jovem (Patrícia Scalvi) busca coragem para se suicidar no luxuoso apartamento onde vive. Acaba no banheiro onde, nua, decide que o melhor meio seria cortando os pulsos com uma navalha. É interrompida pelo primeiro marinheiro (Arlindo Barreto), que chega com uma carta a ela endereçada por um misterioso personagem, Érico. Este insistira com o marinheiro em uma viela escura de Porto Alegre da importância da carta ser entregue em mãos, pois teria importante papel na vida da destinatária. Confusa por não conhecer nenhum Érico nem nunca ter ido à Porto Alegre, a jovem deixa o marinheiro sozinho e volta ao banheiro sem abrir a carta, com a intenção de completar o serviço. Guiado pelas lembranças de seu encontro com o sinistro Érico, o rapaz acaba impedindo o suicídio. Ele a tira da banheira, dá-lhe uns tapas e logo começam a se bItálicoeijar, entregando-se a uma longa seqüência de sexo. Por fim, de alma lavada resolve ler a carta que, para surpresa de ambos, estava vazia. Concluem assombrados que o estranho tinha na intenção de enviar o marinheiro para salvá-la. O episódio termina com o plano de uma sepultura, com o nome “Érico” gravado. A temática de fundo sobrenatural ou bizarro, ao que parece, era de gosto do roteirista Fraga, pois é recorrente em outras produções da DaCar, como o episódio O Gafanhoto, de Pornô (1981); ou mesmo o pasteleiro serial killer de Aqui, Tarados! (1980).

O segmento seguinte, Peixe Fora d’Água, dirigido por David Cardoso, é uma incursão no noir, sendo interessante ver como seus elementos são bem trabalhados por Fraga e adaptados para o universo da pornochanchada. Na verdade, trata-se de uma nova roupagem para a batida trama da mulher fatal que encontra um otário para servir de bode expiatório para seus planos criminosos. Trata do segundo marujo (Arthur Rovedeer), que perambula pela noite paulistana e desavisado, acaba numa boite homossexual. Não percebe estar sendo seguido por uma mulher (Matilde Mastrangi, fabulosa) e seus capangas. Dois destes puxam briga com o rapaz, que acaba apanhando e sendo jogado na rua. É socorrido pela mulher, que o leva para um hotel e seduz, dando início a uma seqüência de jogos sexuais. Enquanto isso, em outra sala, os três capangas aguardam, jogando cartas, já dando a entender que o marinheiro estava sendo vítima de uma trama em andamento. Após a calorosa seqüência de sexo – provavelmente a mais intensa cena de sexo anal simulado do cinema não explícito -, ela revela ao amante casual seu plano: precisa de ajuda para recuperar suas jóias na casa do ex-marido, tarefa pela qual seria bem recompensado. Simulariam um assalto e como ele não era da cidade e partiria no dia seguinte, não só seria difícil associá-lo a ela, como identificá-lo. Relutante, aceita, seguindo com a mulher e seus capangas para o local onde se efetivaria o crime. Lá chegando, os bandidos matam os empregados, enquanto ela e o marinheiro seguem para o quarto do dono da casa. Ao vê-los, o homem grita impropérios para a mulher, que atira contra ele. O marinheiro assusta-se ao ver o crime, pois acreditava que ninguém sairia ferido. Também não sabia que estava fadado a morrer, como se tivesse sido alvejado pela vítima agonizante, livrando a mulher de quaisquer suspeitas.

O terceiro e último episódio é dirigido pelo próprio roteirista Fraga. Em Júlio e o Paraíso, o mais velho dos marinheiros é abordado na rua por um grupo de moças hippies, que mendigam alguns trocados por estarem famintas. Com pena, leva o grupo para jantar em uma churrascaria, onde conta suas histórias e vivências. Acaba na casa das garotas, que resolvem “dar-lhe uma surra de boceta”, conforme uma delas diz. É o episódio com maior tempo de cenas de nudez e sexo, começando quando Júlio é chamado por uma das jovens para tomar banho, passando por uma seqüência de lesbianismo e terminando em uma maratona em que Júlio passa pela mão (e outras partes) de todas as moças. Na verdade, elas pretendem matá-lo de exaustão para ficar com seu dinheiro e saldar as dívidas de aluguel antes de serem postas na rua. Sendo assim, não largam de Júlio, se revezando sobre ele até o último suspiro. O filme termina com o corpo do marinheiro coberto por folhas de jornal, cercado de velas. Inspirado, Ody Fraga realiza uma poderosa analogia com narrativas da antiguidade clássica, com ecos das bacantes, ensandecidas adoradoras do deus Dionísio que se entregavam aos excessos do sexo e da violência. Na construção de um universo de simbolismos, Fraga se perde um pouco no falatório pseudo-filosófico do protagonista.


Mais informações sobre David Cardoso e a DaCar, na biografia elaborada por Alfredo Sternheim para a Coleção Aplauso “David Cardoso: Persistência e Paixão” (Imprensa oficial, 2004) e na “Autobiografia do Rei da Pornochanchada: David Cardoso” (Letra Livre Editora, 2006). Recomendo também meu texto sobre o Pasteleiro, capítulo do livro Cinema de Bordas 1 (Editora A Lápis, 2006).

sábado, 31 de outubro de 2009

A última loucura de Petter Baiestorf.



Em meados dos anos 1990, quando ainda publicava o B Zine, fanzine dedicado aos filmes de horror que xerocava mensalmente e divulgava pelo correio, tive conhecimento de um louco catarinense que fazia filmes de baixíssimo orçamento e muita coragem, com títulos estranhos e sugestivos como Criaturas Hediondas e O Monstro Legume do Espaço. Naquele tempo, devemos lembrar, com a popularização das câmeras de vídeo e a moda do trash, muitos jovens se dedicaram a realizar vídeos caseiros, tentativas que geralmente flertavam com o que se convencionou chamar de gêneros cinematográficos e transitavam entre a brincadeira e a devoção. Muitos ficaram para trás, suas vãs experimentações perdidas no tempo, seus nomes desconhecidos e os registros destruídos pelo mofo, inimigo número um das velhas fitas VHS.

O que não foi o caso de Petter Baiestorf, o genial lunático e obstinado cineasta que venho acompanhando desde então, sempre me surpreendendo com os rumos de uma produção inconformista e dinâmica – fatores que foram essenciais para a evolução de um trabalho difícil de ser categorizado. Não vou me deter na trajetória de Petter, na qual me detive durante a redação do capítulo "Eles comem sua carne: o cinema canibal-escatológico de Petter Baiestorf", que escrevi para o livro Cinema de Bordas 2 (Editora A Lápis, 2008 - disponível nas melhores livrarias virtuais).

Na verdade, o que motivou essa postagem foi o novo filme de Petter, Ninguém deve morrer, obra que ao mesmo tempo reafirma o caráter autoral da produção do realizador, mas também caracteriza, em termos técnicos, a nova fase (resultado da parceria com o talentoso Gurcius Gewdner) que já rendeu frutos como Arrombada e Vadias do Sexo Sangrento. Caráter que, se remetermos aos conceitos de cinema de autor, é pontuado por uma assinatura deixada através de elementos marcantes que permanecem inerentes a toda filmografia de Petter, mesmo esta se renovando,tomando rumos diversos e se superando continuamente. Principalmente devido a seu discurso, que reflete uma filosofia bastante singular e perfaz um autêntico cinema de guerrilha.

A narrativa básica de Ninguém deve morrer é a do western, ou se preferirmos, a de um faroeste caipira: uma trama rural (meio que o diretor freqüentemente esculhamba) de vingança e amores perdidos que explode em violência estilizada (mais contida que nos filmes anteriores). Narrativa que serve de pano de fundo para um ousado e inusitado musical.

A grande sacada é o modo como Petter se apropria da gramática do cinema – que conhece a fundo – e os recicla de acordo com os cânones de seu universo, utilizando elementos seminais da cultura popular, como a música brega e diálogos retirados de filmes que homenageia e utiliza para dublar algumas passagens. Metalingüístico, não esconde o dispositivo, culminando com a inserção de cenas fotográficas do tornado que devastou a região e resultou na interrupção das tomadas.

Obra que reflete a maturidade estilística do cineasta e nos atrai, com sua trilha sonora escolhida a dedo – sem dúvida um dos pontos fortes -, e algumas seqüências já antológicas. Dentre elas o diálogo inicial entre o personagem de Gurcius (o cowboy Ninguém) e sua amada, tendo ao fundo atores travestidos fazendo uma desajeitada coreografia; e a atriz Lane ABC carregando sobre a cabeça, cruzados, os braços amputados de Ninguém, personificação de uma guerreira pagã com seu estandarte contra as hostes do obscurantismo. Não posso deixar de citar a presença fortuita de atores emblemáticos do mundo baiestorfiano, como o gordão Jorge Timm, Coffin Souza e Ljana Carrion como um dos “caras malvados”.

Vida longa a Petter Baiestorf, principalmente num momento em que o estéril cinema brasileiro carece de ousadia, criatividade e inteligência.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Os Anos Dourados da Sacanagem (1986).


Na década de 1980, quando o pornô brasileiro perdia a briga injusta com os similares importados que chegavam aos cinemas vagabundos e prateleiras dos videoclubes, produtores e diretores sediados na boca do lixo buscavam, com muita criatividade e cara-de-pau, manter o público que minguava. Algumas vezes com inusitados e curiosos exemplares que merecem ser revistos por fazerem parte de significativa 9ainda que ignorada) parcela da cinematografia brasileira. É o caso da produção paulista Os Anos Dourados da Sacanagem, de Paulo Antonione (1986), que revi para a comunicação que apresentei no XIII Encontro da Socine, na ECA, em São Paulo. Surpreendente e bem cuidada (considerando-se o baixíssimo orçamento) adaptação das revistinhas eróticas - ou “catecismos” - desenhadas grosseiramente pelo lendário Carlos Zéfiro, é dividida em dois episódios, amarrados pelo avô que surpreende o neto assistindo um filme de sexo explícito no videocassete. O velho mostra ao rebento as famosas revistas, saudoso de um tempo em que a sacanagem apelava mais à imaginação. A primeira história, A Promissória, é clássica, já publicada inclusive em uma coletânea de trabalhos do falecido desenhista: a mulher que resolve saldar as dívidas do marido se entregando ao amigo credor. A razoável ambientação que remete à década de 1940 e a iluminação cuidada tentam conferir às cenas de sexo alguma elegância, o que não se concretiza pelo amadorismo dos atores e da pobreza da produção, resultando insosso no quesito sacanagem, que é o principal apelo do filme. O segundo segmento, por outro lado, é bem mais interessante, notadamente por sua mistura de sexo com religião, tão comum no sexploitation europeu. Intitulado Com o Diabo no Corpo, remete a um conto de Boccaccio, já adaptado por Pier Paolo Pasolini em seu Decameron. Sandra Morelli (famosa na época por suas cenas de sexo com cavalos) é a moça desorientada que vai à Igreja – a trama se passa no interior – se confessar, acreditando estar possuída pelo Diabo. Ela conta ao padre (que quer saber de todos os detalhes) ter sido forçada ao sexo pelo namorado e através da cópula, permitido a entrada do Diabo em seu corpo. O padre, lúbrico, se propõe a fazer um exorcismo um tanto quanto peculiar, já que nas suas palavras, o único meio de tirar o diabo do corpo da jovem seria “pelo mesmo buraco por onde ele entrou”. O filme parte para a blasfêmia explícita, com o padre de estola roxa, recitando suas orações, enquanto faz sexo com a “endemoniada”. O problema é que a garota estava realmente possuída, e o demônio se revela, com todos os lugares-comuns do gênero desde O Exorcista: fala com voz grossa, dá gargalhadas pavorosas, tem a fisionomia modificada – com ênfase nos olhos vermelhos - e fala impropérios, inclusive paródias pornográficas das orações tradicionais da Igreja. Ele vira o jogo e dá um banho de sexo que quase acaba com o pobre padre, em seqüência de tirar o fôlego protagonizada por uma atriz que definitivamente sabia o que fazia. Um dos mais impagáveis (e inacreditáveis) momentos de uma linha de produção que buscava nessas bizarrias alento para continuar no mercado e infelizmente, não vingou.

domingo, 4 de outubro de 2009

A Casa da Noite Eterna (1973).


Em 1971, o consagrado escritor Richard Matheson escreveu uma das melhores histórias sobre casas mal assombradas já publicadas: Hell House (que finalmente, após quase quarenta anos ganha edição brasileira – Hell House – A Casa Infernal, Ed. Novo Século, 2009). Obra que pode ser colocada ao lado das também atmosféricas e assustadoras A Volta do Parafuso, de Henry James e A Maldição da Casa da Colina, de Shirley Jackson. Não por coincidência, os três livros ganharam adaptações cinematográficas que, se não estão à altura do material impresso, também não fazem feio, podendo ser consideradas produções clássicas do horror. Tanto o livro de James quanto o de Jackson ganharam mais de uma versão para as telas, sendo as mais memoráveis, respectivamente, Os Inocentes (The Innocents, 1961), de Jack Clayton e Desafio do Além (The Haunting, 1963), de Robert Wise (esqueça o vergonhoso filme de Jan de Bont cometido em 1999). Hell House foi adaptado pouco depois de sua publicação, em 1973, com o título The Legend of Hell House (aqui no Brasil A Casa da Noite Eterna).
A leitura do original de Matheson era um desejo acalentado há bastante tempo, tanto que adquiri em um sebo virtual uma desgastada edição em espanhol, abandonada definitivamente pelo surpreendente lançamento da Novo Século., já devidamente devorado. O que me levou a recorrer á minha coleção de VHS e rever A Casa da Noite Eterna, dirigida por John Hough. O filme, ainda que competente – com roteiro do autor do livro – e bom elenco, sinto observar, envelheceu. E acaba servindo como um resumo bastante atenuado da narrativa original, sobre um milionário moribundo que contrata um parapsicólogo, o Dr. Barrett, para desvendar se existe ou não vida após a morte. E o local escolhido seria a mansão Belasco, conhecida como a casa infernal e o “Monte Everest” das casas assombradas. Ele teria o prazo de uma semana, acompanhado de sua mulher Edith e dos médiuns Florence Tanner e Benjamin Franklin – este o único sobrevivente de uma tentativa anterior de desvendar os mistérios da mal afamada propriedade. Nos poucos dias em que ficam confinados, são confrontados por forças sobrenaturais, deflagradas pelo maléfico espírito do antigo proprietário, um sádico violento, e por seus próprios tormentos. Estes últimos bastante atenuados no filme. Certamente porque em 1973 (e possivelmente ainda hoje, em se tratando de produções dos grandes estúdios)não seria viável reproduzir a forte carga sexual do romance de Matheson. O que é uma pena, já que Pamela Franklin está deliciosa como a médium Tanner (ela aparece rapidamente nua, de perfil) e Gayle Hunnicut incorpora bem a frustrada mulher do parapsicólogo. Dois personagens que tem sua complexidade psicológica reduzida. Clive Revill interpreta com dignidade o cientista, do qual também foi retirada a significativa deficiência física (no livro ele mancava como seqüela da poliomielite); e o emblemático Roddy McDowall empresta sua simpática canastrice ao contido Ben Franklin.
A Casa da Noite Eterna, apesar de datado, merece ser evisto. Ainda dá para sentir uma certa apreensão – sem recorrer para os sustos gratuitos ou efeitos cgi das produções atuais -, permitindo um rápido olhar de vez em quando pelo canto do olho para as sombras do quarto escuro. O inevitável apelo das histórias de fantasmas, que refletem nossa expectativa sobre o que vem depois. Mas aconselho a leitura do livro primeiro.
Aproveito para avisar que na próxima semana não farei postagens, pois estarei no congresso da Socine em São Paulo. Informações no link abaixo: